Magia é o bicho
Tuga Martins
A águia de Gwernabwy, o pássaro preto de Celli Gadarn e a coruja de Cwm Cawlwyd são os anciãos do mundo que formam a tríade luz, crepúsculo e sombra. Bichos de vôo, criam pontes entre os mundos e no canto trazem chamados, mensagens e presságios.

Quando alguém deixa de viver e passa a sobreviver é sinal que a conexão com a natureza foi rompida. Este rompimento surrupia a leveza e carrega o cotidiano de pensamentos surdos. Todos os acontecimentos ganham justificativas, falar se tona mais importante que ouvir e a simples admiração, sem juízo de valor, cai por terra.
Não considero fácil a tarefa de ouvir, se desprender e abrir o peito para experimentar a integração com a comunidade natural. Perceber os sinais pode até mesmo assustar porque a natureza não é tão delicada assim. Leveza não é sinônimo de low profile. Flidais, deusa irlandesa do indomável, que tenha paciência para nos ensinar que intensidade é sinônimo de vida. Da grande vida. E é aí que o ser humano contemporâneo se perde. Deixou de entender que faz parte da grande teia e que a fagulha pulsante não existe por si só. Nietsche já dizia que é preciso o caos para surgir uma estrela.

Então, o desafio de encontrar o fio da meada num emaranhado de informações é trabalho que exige discernimento, paz e tolerância. Discernimento para identificar oportunistas sem criticá-los, paz para aprender com quem parece saber menos e tolerância com os que pensam que sabem muito. Ah, sim. É preciso coragem para se perceber no todo. Quem decide ser peregrino da grande teia corre o risco de se enroscar caso ajuste o pensamento aos ecos do ego. Para driblar essas próprias armadilhas, os animais são companheiros deliciosos de jornada. Os ensinamentos ajudam, e muito, a trilhar o caminho sem o auto-apego, sem promover litígio entre razão e emoção.
Quando o assunto é poder de animal, o caminho vermelho marcado pelos nativos norte-americanos é o primeiro a emergir. Apesar da dizimação, algumas as tradições foram preservadas e podem ser semeadas. Mas nessas sementes de sabedoria, há reflexos nítidos de outras culturas espalhadas pelo planeta. A reverência aos animais aparece em escavações de tempos inimagináveis como Drachenloch, na Suíça, onde foi encontrado um altar de 70 mil anos dedicado ao urso; na França, uma estátua de urso de 19 mil anos; e em um sítio mesolítico em Yorkshire, na Inglaterra, galhadas de 10 mil anos adaptadas em adorno ritualístico para por na cabeça. Isso sem mencionar o caldeirão de Gundestrup, no qual diversos animais e figuras humanas constroem um panteão harmônico.

Muitos clãs se consideravam descendentes de animais como cat-people, da Escócia, e wolf-tribes e dog-heads, da Irlanda. Não era raro uma tribo expor o totem animal no próprio nome: Caerini (Povo das Ovelhas), Lugi (Povo do Corvo), Epidii of Kintyre (Povo Cavalo) entre outros. O nome Fillan deriva do gaélico Faolin, pequeno lobo.

Os povos celtas usavam os atributos dos animais na condução do caminho. O torc, espécie de colar rígido da era do bronze, era adornado com cabeças de animais. Os druidas consideravam os aspectos naturais como ensinadores e usavam peles, penas, ossos, garras, dentes, chifres como meio de se identificar com os animais. Mais que isso, para aflorar a parte animal. Ou seja, expor o atributo para conduzir com sabedoria a necessidade de um determinado momento. Naqueles tempos, sangue e até mesmo excremento eram usados para cura. A caça era sagrada. Mais que saciar a fome, se alimentar daquele animal abatido era ingerir a centelha de um guardião. Assim, pouquíssima coisa separava os humanos do giro universal.

O círculo de animais sagrados celtas começa com o pássaro preto (druid dhubh) guardião dos portões, lugar dos inícios, e nos chama para aventura e mudança. Em gaélico, pássaro preto significa o druida que canta no crepúsculo e no alvorecer. Ou seja, exatamente na transição das realidades. Quem estiver disposto a ouvir o canto do pássaro preto será levado a encantamento tão profundo, capaz de desvendar segredos sobre si mesmo e o mundo. Alguém topa?
- Animais sagrados
*publicado em 25/04/2009
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