Tuga Martins
E se numa leitura de tarô, você tirasse Diabo, Mago, Eremita e Carro? Qual seria a melhor interpretação? A resposta é simples: The Song Remains the Same, filme da legendária banda inglesa Led Zeppelin, lançado na década de 1970, que inspirou e instigou minha adolescência, assim como a de vários outros que tinham na prateleira do quarto o amarrotado Manual da Maga&Min.
Naquela época, de hippies, hare krishnas e iniciados em toda sorte de ocultismo, os abaixo de 18 como eu se limitavam a desvendar o que havia por trás dos quatro símbolos mágicos da banda e a ouvir Stairway to Heaven de trás para frente na esperança de entender a tal mensagem satânica embrenhada nos sulcos do elepê.

Assisti ao mal traduzido Rock é Rock Mesmo mais de uma dezena de vezes e a cada oportunidade enxergo novos atributos. Da última vez, foi o tarô que emergiu das telas.
O Diabo
Close the door, put out the light.
No, they won't be home tonight.
O chamado agudo da voz de Robert Plant no início de No Quarter seguido pelas imagens lânguidas de um século 18 íntimo e aterrador por pouco não me convencem que a trip de John Paul Jones estaria ancorada no arcano 13, a Morte. Mas a Morte não tem ciúmes nem paixão. E não circula, necessariamente, sob brumas em cemitérios. A jornada de Jonesy traz os atributos do Diabo, senhor dos portais da matéria e filho das forças do tempo.
John Paul Jones nasceu sob o signo de capricórnio, signo atribuído ao Diabo que responde pelos condicionamentos e a conseguinte libertação. No começo da jornada, Jonesy junto ao órgão de tubos sugere a supremacia, o controle necessário para ingressar no cenário soturno de cobiça, tentação, sede de poder e forças inconscientes, todos atributos do arcano 15. Amparado pela letra hebraica Ayin, o olho que tudo vê, ele persegue mascarado a própria mulher na expectativa de encontrar a própria sombra.
A revoada de morcegos ilumina a escuridão e propõe renascimento e longevidade. As asas seriam as dos habitantes do inferno, iguais as atribuídas ao Diabo, que por sua vez simboliza a energia vital, o instinto sexual, a aproximação pela qual a vida procura e acha a continuidade. As patas de cavalo a galope endossam esse poder. Na chegada em casa, os cães o recepcionam com a mensagem de ambiente seguro mesmo que seja no inferno. Jonesy tira a máscara. Vêm os filhos, mais uma vez o órgão numa conduta fálica, o beijo na mulher e o displicente cavalgar onde repousa o fim.
Plant retoma:
Walking side by side with death
The devil mocks their every step
O Mago
Pouco antes de ecoarem os primeiros versos de The Song Remains The Same, o reflexo de um sol gelatinoso explode num mar vermelho onde navega o Louco, embalado pelo movimento do ar e a chama interna do leonino Robert Plant. A bênção vem do dragão vermelho estampado na bandeira que sinaliza a travessia em direção ao mundo dos vivos.
Na praia, Plant recebe a espada, ferramenta do Mago que simboliza o elemento ar. Ele a enterra, depois a incendeia. Falta o cálice para consagrar a água e completar os quatro elementos. Vem o início da busca e junto os acordes de The Rain Song . A saída da caverna mostra o impulso inicial, poder de resolução, força de vontade e outros atributos do arcano I. De posse do cajado, colhe e come um cogumelo, símbolo da longevidade e também associado ao ouro. Ao pé de um carvalho, árvore axial, Plant observa o farfalhar das folhas e fala com os deuses.
A cavalgada demonstra a intenção de espiritualizar a jornada, seja por uma causa maior ou por meios nobres. Vale lembrar que o termo cavaleiro (éqüites) foi escolhido por César para designar o conjunto da classe guerreira entre os celtas. O cavaleiro é ainda o arquétipo de Parsifal, o que busca o cálice sagrado.
A chegada na torre é com o falcão, príncipe das aves. Simboliza a supremacia do masculino solar sobre o feminino lunar. Mas o falcão encapuzado que Plant carrega no punho é a esperança na luz. A batalha travada no hexágono -- perfeição expressa pelos seis triângulos equiláteros inscritos em um círculo -- simboliza o confronto entre o bem e o mal; a oposição da criatura ao criador em um equilíbrio indefinido.
É com o bastão em chamas, ferramenta criadora do Mago, que Plant encontra seu cálice, a copa com a qual irá conservar. A espada ainda é necessária para dilacerar o que obstrui. De posse dos quatro elementos, pode usar os quatro verbos respectivos: querer, saber, ousar e guardar silêncio. Bom, o último não vem bem ao caso. Como canta.
O Eremita
A viagem de Jimmy Page é conduzida pela psicodélica Dazed And Confused. Depois de enfeitiçar o público com um arco de violino sobre as cordas da guitarra, o seguidor de Crowley mergulha no brilho da lua cheia de 10 de dezembro de 1973. É na paisagem ao redor do Loch Ness que Page que começa a subir a montanha em busca do Eremita, princípio da introspecção. Suas mãos agarradas às pedras da escarpa exibem Yod, a letra hebraica que significa mão, ferramenta mais perfeita, e simboliza o princípio masculino fecundante.
Page já se chocou com a Justiça para lembrar que nada pode perturbar o equilíbrio do mundo. Eis o arquétipo do sábio que se distancia do barulho mundano e ilumina o inconsciente com a luz da consciência. Diante dessa nova ambivalência, vai ao encontro do que propõe o Eremita.
Como capricorniano ele escala com agilidade e vislumbra a lanterna, que lembra a de Diógenes que buscava à luz do dia um homem em Atenas e só encontrava imbecis. Simboliza também a lâmpada de Hermes Trismegisto, a luz velada da sabedoria que ilumina o rosto do velho curvado. Naquela face, Page se vê de volta à infância, até à condição de feto.
O Eremita trabalha no invisível para condicionar o futuro em gestação e o embrião simboliza as potencialidades, o estado de não manifestação. Ao mesmo tempo é a soma das possibilidades de ser. Em seguida o velho sábio puxa a espada de arco-íris. Como um Jedi, abre a ponte usada por deuses e heróis para ir e vir ao outro mundo. O solo que Jimmy Page desencadeia a seguir é uma história à parte.

O Carro
Os quase 10 minutos de Moby Dick embalam os sonhos de John Bonham, recheados de vontade de libertação as quais impelem o baterista a procurar a plenitude por meio de algo novo. O Carro, embora óbvio nas cenas, mostra que o personagem está decidido a jogar fora os hábitos mais grosseiros apresentados no começo da jornada na mesa de bilhar.
Em seguida, ele já está na estrada e corre em direção à mulher. Mas é a aventura do desconhecido que instiga. É a adrenalina a propulsora da renovação criativa. A velocidade é feroz, os modelos aparecem sucessivamente. O antiguinho, a Harley-Davinson, o AA Fueler a 260 milhas por hora. Mas na jornada do Bonzo não há máquina que o leve ao encontro de si mesmo. No entanto, uma coisa é certa: há a vontade de ser o dono do próprio destino. Apesar de não saber direito o que quer, tem certeza do que não quer.
Bonham é geminiano e a transição do arcano VI Os Amantes para o VII O Carro não deve ter sido fácil. No Carro encontramos Os Amantes amadurecidos, coroado de ouro para comprovar que venceu as ambivalências. Ou seja, dominou as oposições e unificou as tendências contrárias pelo efeito da própria vontade.
Este novo momento de Bonham inclui a família, colocada junto na charrete. Mas o ritmo é lento. Inclusive para construir, Bonham aparece pilotando um trator. Depois vem o carro de corrida sem freios, cujo limite é externo feito por uma espécie de pára-quedas. O avanço contínuo e afoito é latente, mas era preciso não desviar das responsabilidades do Papa para não cair na Roda da Fortuna, que prefigura as rodas do Carro.
Bonham morreu de overdose alcoólica. Talvez tenha acreditado que a solução se resumia apenas à partida. E é preciso continuar, seguir o caminho do auto-conhecimento desenhado na jornada do Louco.
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