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Tuga Martins




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* Bendita piaçava:
Um compêndio sobre a vassoura

 

Tão sagrada quanto útil, vassoura é praticamente parte da família. Tem em todas as casas e é protagonista de várias crendices e tradições. Afora o lendário e o imaginário, a maioria cria personalidade própria e até ganha nome. Outras carregam deidades, poderes elementais. Mas o fato é que o simples maço de gravetos amarrado com cipó aparece em qualquer canto de parede da terra e redomas de qualquer museu etnográfico.

Na China, a deusa da vassoura é Sao Ch’ing Niang. Conhecida como Senhora das Vassouras, habita uma estrela e rege o clima. Quando a chuva se estende por muito tempo, agricultores recortam imagens de vassouras e colam em portas e cercas para trazer o sol de volta. No México pré-colombiano, astecas cultuavam a deusa-bruxa Tlazolteotl que geralmente era vista sobre uma vassoura. Nos ritos, sacerdotes queimavam incenso negro e colocavam vassouras feitas de junco no fogo. Corujas, cobras e a lua são dedicadas a ela, invocada para varrer transgressões e todo o mal. Os romanos denominavam vassoura scopae e os varredores, scoparii, cuja função nos templos constituía título de honra.

Terror das crianças gregas e romanas, faunos e silvanos só eram afastados de duas maneiras: com luz acesa ou com vassoura atrás da porta. É tradição em todo o Brasil pôr uma vassoura atrás da porta, com o cabo para baixo, na doce intenção de a visita enfadonha ir embora. O artifício é usado também na Europa, onde na Idade Média e mesmo até meados do século 18 diziam que feiticeiras voavam em vassouras, que detrás da porta eram sinal infalível contra qualquer possibilidade de aproximação malévola. As sacerdotisas dos Daiaks, em Bornéu, fazem expulsar o infortúnio das casas, varrendo com vassouras feitas com plantas sagradas, aspergindo água de arroz e sangue. O lixo é colocado numa casinha de bonecas, feita de bambu, posta na corrente de um rio.

Vassouras são símbolo da feminilidade e muitas eram besuntadas de poções que em contato com os genitais provocavam a sensação de vôo. Na antigüidade várias formas eram feitas especialmente para magia. Algumas tradições usavam materiais e cores diversos, encantamentos durante a confecção, amarravam fitas sob feitiços. Na noite de primeiro de maio, conhecida como noite de Walpurgis, a Europa era acometida por onda de medo incontido uma vez que feiticeiras, untadas com os óleos satânicos apareciam montadas em vassouras.

 

No Brasil não há a tradição do sabbat sob conceito de reunião de feiticeiras com a presença do satanás em pessoa, mas é o único país católico do mundo a possuir uma curiosa invocação: a de Nossa Senhora da Vassoura. A tradição vem de Jurubeba, povoado do alto Parnaíba, Maranhão, onde uma propaganda de elixir para saúde da mulher era representando por uma enfermeira varrendo remédios inúteis. Dessa popularidade nasceu a veneração como Nossa Senhora da Vassoura, padroeira da cidade com capela e tudo o mais.

Mas bem antes de os portugueses colocarem o pé por aqui, os nativos brasileiros já conheciam diversos tipos e modelos. A tradição é denunciada por plantas chamadas popularmente de vassoura como malváceas, sida acuta, burm, escrofulariáceas e rubiáceas, bem como vassourinha-de-botão, vassourinha-de-varrer, e a própria piaçava, que significa pêlos que saem de dentro do coração da árvore. A vassoura feita com determinados arbustos afugenta parasitas das casas de chão batido.

Pular vassoura é uma cerimônia africana para noivos terem vida cheia de alegria. Simbolicamente as vidas de solteiro são varridas para o passado. O ato de pular a vassoura é feito na presença de pais e amigos e foi adotado pelos escravos norte-americanos uma vez que não podiam se casar legalmente. A palha representa a família, o cabo é o Grande Espírito e o cipó de amarrar significa o compromisso do casal. Para as cerimônias, as vassouras eram enfeitadas geralmente pelas madrinhas da noiva, uma semana antes do casamento em ritual de acordo com as etnias.

Mas vassoura tem hora e jeito para ser usada. Não se varre casa durante a noite para não expulsar a tranqüilidade ou incomodar as santas almas que por ventura estejam percorrendo os lugares onde estiveram enquanto vivos. Nem se varre o lixo para a rua, e sim de fora para dentro. Nas mudanças de casa, a primeira varredura deve ser feita com vassoura velha, segundo uns, para continuar o equilíbrio anterior, ou com vassoura nova para iniciar vida nova, segundo outros. Quando se torna inútil, a vassoura deve ser queimada, e não colocada no lixo, para não levar a felicidade da casa. Depois de queimada, observe que não tenha sobrado nenhum fragmento que possa ser elemento de feitiçaria.

A vassoura nova começa o serviço pelos aposentos interiores, e jamais pela calçada ou sala de entrada ou de estar. Deve ser guardada na posição vertical. Se encontrada caída no chão, erga rapidamente para não atrasar a vida. Jamais empreste sua vassoura porque carrega a boa sorte ou parte dela. Vassoura deitada é desgraça chamada. Surra com vassoura seca o corpo. A primeira vassourada de vassoura nova pertence a mulher velha e nunca a gente nova. Cabo da vassoura é cheio de mistérios. Meninos não podem transformá-lo em cavalo, porque não serão bons donos de casa. As meninas de forma alguma devem montar e correr no cabo de vassoura, porque se tornam mãe antes de serem esposas. E quem deseja se casar deve pular uma vassoura nove vezes durante um ano.

Cachorro que leva pancada de vassoura fica covarde e gato, ladrão. A idéia de que a vassoura pode varrer tudo, inclusive felicidade, tranqüilidade, bem-estar, saúde, boa sorte, atinge o amor também. Rapaz ou moça cujos pés foram varridos não conseguirão se casar. Surra com vassoura seca o corpo. Cruzar vassoura na porta impede fofocas a seu respeito. Para trazer chuva, dance com uma vassoura no jardim. Não se compra vassoura em agosto. Se pesadelos são problemas, deixe que uma vassoura os leve. Coloque uma sob a cama dentro de um círculo de sal para proteção, de manhã varra para o quintal. Se for ficar muito tempo longe de casa, coloque a vassoura deitada na cama com as cerdas sob o travesseiro. Se uma vassoura cai na passagem da porta, significa viagem para breve. Mas levante rapidamente para não trazer má sorte.

Armário das Vassouras

É aqui que estão guardadas as mais variadas ferramentas para limpar, organizar e dar brilho no dia-a-dia mágico. Entre baldes e vassouras, há a possibilidade de fechar a porta por dentro, se retirar do mundo por alguns minutos e mergulhar para uma faxina interna. Atrás da porta do Armário das Vassouras mora também o medo do que não conhecemos, a imaginação, a criatividade e o limite que garante a sensatez na condução da magia. É um link simples entre profano e sagrado que obriga ao pragmatismo, a pôr a mão na massa e sujar o avental seja no jardim, na cozinha, no sótão com os alquimistas, no porão com as tecelãs ou na rua em projetos sociais, ambientais e culturais.

 

 

 

 

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