
Foi sob a mágica manifestação dos seres do trovão que o povo pedra tatuou suas garras em minha perna. Ainda sinto o gosto da tempestade, o vôo antes do tombo, o medo dispersado pela ventania e o conforto do abrigo quando alcançado. A cicatriz não quer sumir. Que bom.
Povo pedra é assim. Se manifesta de maneiras que fogem de nosso entendimento mundano. É preciso desprender a alma, triturar as emoções, limpar o coração para se deixar tocar. Não é tarefa fácil. Mantenho encontros periódicos com seres incandescentes que aquecem a inipi, sauna sagrada onde o povo pedra conta histórias de outros tempos e transforma nossas orações em vapor. Quando chegam, carregadas por canções sagradas ao centro daquele ventre da terra, mostram suas faces. Sorriem, se partem por nós.
Pedras são seres enigmáticos, guardam segredos da nação das estrelas. Na caverna resfriam, na fogueira incendeiam, no alto da montanha, choram. Numa roda, cantam e curam. Sinalizam todas as direções. Pedra tem vida eterna e é uma honra ver pulsar um coração de pedra. Minha fascinação por esta tribo não é de hoje. Coleciono pedras desde menina. Gosto muito daquelas lisinhas, moldadas por água de rio gelado do pé da Mantiqueira.
Fico em êxtase diante dos círculos da Europa megalítica. As formações são de tirar o fôlego. Meu predileto é Castlerigg. Fica na Região dos Lagos e é considerado um dos mais antigos das ilhas: cerca de três mil anos antes da Era Comum. São energias tão antigas que meu cérebro, às vezes, custa a dimensionar tempo e espaço. O site www.stonepages.com é uma viagem irrecusável.
A grandiosidade dessa nação surpreende. No mundo existem cerca de 3,5 mil tipos de minerais, e cada um bem pode apresentar um número enorme de variedades. Basta um tico de ouro, ferro ou água e o quartzo muda de cor e textura. Transforma-se em ametista, citrino, opala, ágata, calcedônia e olho-de-tigre, que têm aspecto completamente diferente, mas são quartzos.
A roxa ametista vem da mesma matriz que a água marinha, assim como da chique esmeralda e da rara crisoberilo, uma pedra verde que muda de cor conforme a incidência de luz, se tornando amarela ou vermelha. Hoje está na composição dos vidros das janelas de naves espaciais por filtrarem raios cósmicos. A matriz é o berilo. Do coridon, nascem safiras azuis e rubis vermelhos.
Maior ainda é a trajetória desses seres que há 4,6 bilhões de anos pensar passam por transformações ininterruptas. Aqui no Brasil, os tesouros minerais são na maioria de origem magmática. A fórmula parece simples: a lava sofre uma pressão tão absurda e eis um diamante. Aliás, jóias para ver, ouvir e usar como inspiração são as a música Stone People seguida de Creek Mary’s Blood, do Nightwish. Experimentem.
|