tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia v tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia
tribos de gaia
tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia
tribos de gaia tribos de gaia
tribos de gaia
tribos de gaia
 
Tuga Martins




menu menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
 

*Miolo de pão, lembranças e magia

 

Nessa época de Lúnasa, o sopro morno do outono tinge de cobre o simbolismo da colheita dos primeiros grãos e remói lembranças que bem poderiam ter virado pó. Desde pequena vi mulheres de minha família extrair o miolo do pão francês antes de a manteiga escorregar da faca para aquela vala quente e crocante. As bolotas brancas lançadas de maneira displicente à mesa não dispunham de muito tempo para enfeitar a toalha. Se não sucumbiam ao furto traquina de irmãos e primos esganados e de bochechas estufadas, acabavam entre dedos ágeis, transformadas em patinhos, coelhos, frutas, flores e miniaturas humanas. Diziam que a arte era herança de minha bisavó materna que transformava marzipan em pequenas jóias.



k

Quando me dei conta, o legado de extrair alma de pães já estava arraigado em meu cotidiano. É como tirar o peso da gula antes da primeira mordida. Como um devorador de nuvens, meu filho ainda tenta se apropriar das bolotas fofas antes que a criatividade domine meus dedos e pensamentos. A sensação de dar forma nos propõe função divina. Pesa nos ombros e altera a respiração. Afinal, quantos deuses se mostram artífices criadores da humanidade?

Confesso que na juventude atribuí ao miolinho moldado o nome de um namorado, do qual queria me livrar. De ônibus para o trabalho, lancei o moço ao vento. Nunca mais o vi. Soube que voou para longe, foi fazer teatro no Canadá, se não me engano. Naquele tempo, sob a proteção do sinal da cruz, algumas amigas disseram que era vodu. Mais sei que nada tem a ver com a religião do oeste africano. Mesmo assim, a experiência me encharcou de responsabilidade de mexer com o desconhecido.

j

 

Essa relação mágica com o pão sempre me conduz aos primórdios da humanidade. Os botânicos defendem que o primeiro habitat do trigo foi a Mesopotâmia. Mas foi na Grécia que se tornou alimento importante. A mitologia grega conta que Deméter transmitiu aos homens o conhecimento de cultivar a terra e que o trigo chegou pelas mãos de Triptólemo, que de seu carro puxado por dragões espalhou as sementes. No País de Gales, é a deusa Modron que detém o poder da colheita. Na Escócia, a tarefa é de Morgay. Mas a deusa do grão é Cerridwen. Toda vez que penso nela, sinto a umidade aveludada das matas britânicas.

f

Protagonista das lendas galesas que constam do Mabinogion, Cerridwen queria compensar a feiúra do filho Morfan com sabedoria. Extraiu da floresta o que tinha de melhor e colocou em seu caldeirão. Ao menino Gwion atribuiu a missão de guardar a poção. Mas três gotas pularam para os lábios do guardião, que numa lambida absorveu um universo de conhecimento. Inconformada com o desvio de seus intentos, Cerridwen parte para uma perseguição metamórfica atrás de Gwion e no fim, como galinha o engole na forma de um grão. Nove meses depois dá à luz Taliesin, o de testa brilhante.

Neste entrelaçado de grãos, magia e conhecimento, Taliesin lateja luz dourada, rica nos mais sutis significados e nos ensina a irradiar o que recebemos. Essa troca honrada de receber e transmitir também aparece na origem de Lúnasa. O festival foi criado pelo deus Lugh, em homenagem à sua mãe adotiva, Tailtiu, que morreu depois de exaustivamente preparar a terra para novo plantio. O festival chamava-se originalmente Áenach Tailteann.

Tuga Martins

Publicado em 10.02.2008

 

 

<<início<<<Tuga Martins

|
 
 
 
tribos de gaia