Nessa época de Lúnasa, o sopro morno do outono tinge de cobre o simbolismo da colheita dos primeiros grãos e remói lembranças que bem poderiam ter virado pó. Desde pequena vi mulheres de minha família extrair o miolo do pão francês antes de a manteiga escorregar da faca para aquela vala quente e crocante. As bolotas brancas lançadas de maneira displicente à mesa não dispunham de muito tempo para enfeitar a toalha. Se não sucumbiam ao furto traquina de irmãos e primos esganados e de bochechas estufadas, acabavam entre dedos ágeis, transformadas em patinhos, coelhos, frutas, flores e miniaturas humanas. Diziam que a arte era herança de minha bisavó materna que transformava marzipan em pequenas jóias.

Quando me dei conta, o legado de extrair alma de pães já estava arraigado em meu cotidiano. É como tirar o peso da gula antes da primeira mordida. Como um devorador de nuvens, meu filho ainda tenta se apropriar das bolotas fofas antes que a criatividade domine meus dedos e pensamentos. A sensação de dar forma nos propõe função divina. Pesa nos ombros e altera a respiração. Afinal, quantos deuses se mostram artífices criadores da humanidade?
Confesso que na juventude atribuí ao miolinho moldado o nome de um namorado, do qual queria me livrar. De ônibus para o trabalho, lancei o moço ao vento. Nunca mais o vi. Soube que voou para longe, foi fazer teatro no Canadá, se não me engano. Naquele tempo, sob a proteção do sinal da cruz, algumas amigas disseram que era vodu. Mais sei que nada tem a ver com a religião do oeste africano. Mesmo assim, a experiência me encharcou de responsabilidade de mexer com o desconhecido.
Essa relação mágica com o pão sempre me conduz aos primórdios da humanidade. Os botânicos defendem que o primeiro habitat do trigo foi a Mesopotâmia. Mas foi na Grécia que se tornou alimento importante. A mitologia grega conta que Deméter transmitiu aos homens o conhecimento de cultivar a terra e que o trigo chegou pelas mãos de Triptólemo, que de seu carro puxado por dragões espalhou as sementes. No País de Gales, é a deusa Modron que detém o poder da colheita. Na Escócia, a tarefa é de Morgay. Mas a deusa do grão é Cerridwen. Toda vez que penso nela, sinto a umidade aveludada das matas britânicas.

Protagonista das lendas galesas que constam do Mabinogion, Cerridwen queria compensar a feiúra do filho Morfan com sabedoria. Extraiu da floresta o que tinha de melhor e colocou em seu caldeirão. Ao menino Gwion atribuiu a missão de guardar a poção. Mas três gotas pularam para os lábios do guardião, que numa lambida absorveu um universo de conhecimento. Inconformada com o desvio de seus intentos, Cerridwen parte para uma perseguição metamórfica atrás de Gwion e no fim, como galinha o engole na forma de um grão. Nove meses depois dá à luz Taliesin, o de testa brilhante.
Neste entrelaçado de grãos, magia e conhecimento, Taliesin lateja luz dourada, rica nos mais sutis significados e nos ensina a irradiar o que recebemos. Essa troca honrada de receber e transmitir também aparece na origem de Lúnasa. O festival foi criado pelo deus Lugh, em homenagem à sua mãe adotiva, Tailtiu, que morreu depois de exaustivamente preparar a terra para novo plantio. O festival chamava-se originalmente Áenach Tailteann.
Tuga Martins
Publicado em 10.02.2008
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