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Tuga Martins




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*Suar, verbo transitivo

 

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A idéia de conjugar o verbo suar pelo menos uma vez por mês permite conectar o sagrado de maneira honesta, limpa e desprovida de maquiagem. A escuridão somada ao calor úmido salpicado pelo aroma de ervas faz da tenda de suor um lugar seguro e apropriado para o total esvaziamento. Cada gota eliminada desobstrui os poros e propõe limpeza do corpo, da alma, de pensamentos, de emoções. Tudo cai na terra e corre para baixo, numa reciclagem capaz nos integrar com as outras manifestações de vida.

No colo da sálvia branca, do capim doce, do cedro e sob o manto de canções encantadas, nossas crenças afloram e se fortalecem. As dúvidas desaparecem e as certezas também. A limpeza é tão profunda que a sensação é de ter se transformado numa flauta, na qual o sopro de alguma deidade irá entoar a melodia de nosso caminho. Na tenda de suor todas as manifestações de vida são celebradas e honradas. Todos os caminhos espirituais são acolhidos e esse mix de conhecimento e sabedoria impregna os sentidos, alinhava passado, presente e futuro, propõe paz. Como disse um amigo na primeira vez que entrou no útero da terra, a concentração de energia é tanta que lembra o átomo primordial. Sim, aquele que antecedeu o Big Bang. A explosão? Vem logo na saída, depois de tocar a testa na terra.

Dentro da tenda de suor não existe eco e nos pegamos falando apenas para nós mesmos. É um lugar para meditar, ouvir, falar, rir e chorar. É um lugar para aprender e se curar. As visões sinalizam nosso caminho sagrado, nos alertam sobre nossas arrogâncias e presunções. Mede com exatidão o eu e o ego. Os aromas sagrados libertam as pressões e exaurem os erros que insistimos em repetir. Os pensamentos timbram o que temos de ouvir. E a resposta vem mesmo sem perguntas. O medo chega a rondar, mas a voz do xamã embala e lembra que ali, os monstros que habitam nossas mentes desvairadas pela modernidade podem se tornar medicina.

As intenções são depositadas na ancestralidade das pedras incandescentes e espalhadas pelo vapor. Adentram nossas narinas, nos alimentam com o que dividimos com o universo. Ali compartilhamos. O círculo da tenda simboliza criação, evolução, consciência espiritual no mundo material e o caminho sagrado. A entrada da tenda que freqüento é virada para o Leste, direção da águia, no novo, do mental. No Sul, ficam as emoções, a criança interior, o coiote e o sapo. O Oeste é a casa do urso, do físico, do conhecimento, da força, e o Norte é o caminho espiritual onde habita o búfalo. A posição dentro da tenda* pode influir na percepção da cerimônia e ser usada para ativar sentidos específicos. Mas, o simples fato de dar a volta no interior nos leva a experimentar vários aspectos do próprio caminho sagrado. É como se entrelaçar com a espiral da grande vida e encontrar sentido para os vários papéis que desempenhamos na cadeia do DNA do cosmos.

A energia no Leste é de resolução. Ajuda a dissolver dúvidas, fornece leveza e força para empreender. Entre Leste e Sul é um bom lugar para pedir proteção e segurança. Ali é possível reenergizar as próprias habilidades e dizimar qualquer coisa que tente nos afastar da grande proposta de nossa vida. O Sul é a expressão de si mesmo, das emoções. É bom cantar sua canção e sentir a vibração dos seus sons. Entre o Sul e o Oeste vibra o poder do foco. O lugar permite examinar as várias opções de caminho sem desperdiçar energia. Oferece concentração nas prioridades. A chegada no Oeste expõe a dualidade de todas as coisas. Explicita o equilíbrio entre luz e sombra, externo e interno, masculino e feminino. Leva à reflexão de que mostramos aquilo que mais facilmente percebemos e que é preciso atentar para todos os aspectos se quisermos caminhar em harmonia.

A caminho do Norte podemos nos sentir enroscados, presos numa teia e o medo de não conseguir sair nos deixa imóveis. Antes de prosseguir, vale dar um passo para trás e ver os obstáculos de longe. O Norte é o lugar do sonho e os sonhos trazem todas as conexões, respostas e orientações. É quando conseguimos mergulhar em nós mesmos. O retorno ao Leste é a descoberta, o renascimento. Ensina a sair de turbulência e a usar o movimento em benefício próprio. Quando a jornada termina é hora de brotar da terra.

Por todas minhas relações!

* O significado atribuído às posições na tenda de suor foi baseado nos ensinamentos do oráculo Lakota Sweat Lodge -- Spiritual Teaching of the Sioux, de Chief Archie Fire Lame Deer e Helene Sarkis

Tuga Martins


Publicado em 12.12.2007

 

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