
Quando encontrei Morrígan com a cabeça apoiada na mão trêmula, escorada pelo cotovelo sobre a velha mesa de carvalho, percebi que o copo vazio à frente do olhar desolado já tinha recebido muitas doses de amargura. Tentou esconder as unhas encardidas de sangue, ajeitou a cabeleira e ergueu com displicência ímpar uma pena negra que balançava próxima aos joelhos. O que fazer com a rotina de anunciar a morte? Outro pint de ale e a voz rouca e pastosa começou a reclamar da mesmice da imortalidade em constante choque com o dever de encerrar tantos ciclos alheios.
Aquela mulher vestida de mistério se dizia lavadeira. Estocava horrores que vez ou outras surgiam em flashes que a memória faz questão de mostrar. Gargalhava do próprio destino, principalmente porque sempre feria a correnteza da vida com as garras de rapina. O odor sulfúrico que a rodeava, obrigou ao recolhimento nas sombras da feminilidade, lugar onde poucos se atrevem ao prazer. As roupas surradas pelo tempo abriam asas negras com o vento. Eis a mais fantástica confissão do corvo fêmea: estava cansada de lavar as roupas dos que vão morrer.
As atribuições nesses tempos de selvageria moderna não têm dado folga e a exaustão se traduzia em vincos na pele da Grande Rainha. Mas quanto mais litígio, mais a força motriz daquela criatura fertiliza o caos. "Genética", explodiu. Depois engoliu seco. A ancestralidade embargou sua. "Sou uma das filhas de Ernmas", disse com fatalidade. A descendência da deusa irlandesa primal da guerra, uma dos Tuatha Dé Danann, parecia justificar a herança de uma deidade cujo nome significa homicídio. O suspiro profundo calou a história e arrastou um sorriso pelos lábios sedutores.
O punho forte como de um guerreiro movia a pena negra e a espiral grafada no ar acariciava os pensamentos da deusa. Gaguejou, mas decidiu falar sobre suas paixões e frustrações. Contou que a primeira união com Lugh jogou por terra a teoria de que os opostos se atraem. O deus da luz e que faz as coisas quase torna inviável a vida da personalidade arrasadora e recriadora de Morrígan. Afinal, o poder criativo de Lugh sempre ofuscava o renascimento doído proposto pela Battle Raven. Depois veio Dagda com seus aspectos técnicos e perfeccionistas. O ímpeto devastador de Morrígan teve de ser contido perante as regras do grande deus. Mas daquele jeito irrepreensível, conseguiu extrair o esperma que gerou Aengus e Brigid. Morrígan foi mãe, mas não conseguiu viver em plenitude ao lado do caldeirão de Dagda, que nunca esvaziava. E onde não havia fome, não havia espaço para o corvo. Dagda ainda desfazia a teia de sangue, bordada com esmero pela Rainha Fantasma. "Ele tinha o poder de trazer os mortos de volta à vida. Serviço feito à toa", reclamava.
De repente se levantou. Respirou fundo como sentisse o aroma da próxima tarefa. Como em toda véspera de batalha, Morrígan entrou mais uma vez num fascinante ritual mágico. Precisaria de horas para extrair estratégias para conectar os mundos e tornar a ponte de espadas atraente para os que se expõem à morte. Como num ciclo lunar, se sentia novamente dona da vida como a própria Mãe Terra, poderosa e fértil, cruel e avassaladora. Recuperou em segundos o ar sedutor da jovial donzela das fogueiras de Beltane, aquele que sob a pele de Nimue roubou de Merlin seus maiores segredos e magias. Enquanto pagava a conta depositando uma moeda sobre os olhos do barman, uma nuvem vermelha tomou conta do céu enquanto alguns pássaros entoaram um canto de batalha. Fui embora. Na mesa, sobrou a pena negra.
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