
Púrpura é a cor da magia. É qualquer fragmento entre o vermelho e o violeta. Fora da roda de Newton e de Goëthe, púrpura é a cor da realeza e da beterraba, raiz doce que combina com noz-moscada, cravo da índia, limão, laranja, alho, salsa e cebola. Aliás, cebola púrpura é mais doce, faz chorar menos. Quando a cor se abriga sob os olhos, demonstra cansaço, desânimo, tristeza. Nos lábios propõe mistério, morte. Anterior aos romanos, a cor púrpura era extraída de moluscos à beira do Mar Mediterrâneo e tingia mantos de imperadores bizantinos a chineses. No cotidiano, hematomas e coágulos de sangue sob a pele se apropriam do tom que escorrega do rubro vibrante em busca das sombras.
Púrpura faz parte da minha arquitetura de magia. Da fita que amarro o tarô, entrelaçada às intenções que deposito nos arcanos, às velas que por vezes iluminam espaços sagrados, a cor púrpura puxa mistérios para a realidade e conecta o cotidiano com o mundo do possível. Púrpura já fez cinema sob a pena de Alice Walker e o mais profundo rock'n'roll. No Cairo, é rosa. Em anos revolucionários, iluminou sonhos psicodélicos dos flower&power assim como eternamente abraça os campos de alfazema. Ainda pretendo confrontar um florido, visão capaz de impregnar todos sentidos.

À ametista empresta o poder da sobriedade e às orquídeas, o intangível. Impõe dúvidas entre frascos de perfumes e de venenos e adoça dedos infantis, inocentes ladrões de amora. Púrpura colore o céu das ficções, das tardes de inverno e ajuda a contar histórias há muito enroladas em novelos de lã. Da minha caixa de lápis de cor, o púrpura acabava rápido, devorado pelo apontador que garantia rabiscos enquanto o estilete habilmente extraía a possibilidade de névoa sobre o papel.
No arco-íris, a estrada púrpura não guarda potes de ouro no fim porque a jornada desenha espiral de degradê eterno. Púrpura tem cheiro de gelatina, feita nos verões de infância. Tem gosto de batom, de bala que amadurece línguas e idiomas românticos. Na minha perna, a cor dos magos ainda queima em memória ao contato atroz de uma água-viva, que exibia sedutora o veneno como bola de chiclete esquecida na areia.

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