COLOCAR IMAGEM
Inverno sempre teve cheiro de mexerica apesar
da safra se estender de abril a setembro. Desde os dias do
inocente primário, quando os dedos amarelados de descascar
a fruta voltavam a segurar o lápis depois do recreio
até hoje, quando passeio os olhos pelas árvores
carregadas na chácara de meus pais ou na barraca da
feira, onde parecem um pôr de sol. Espremer a casca na
frente de um fósforo acesso parece magia, poder de dominar
uma pirotecnia tão simples, tão cheirosa.
A fruta que chamamos mexerica é também conhecida
como tangerina e ponkan. Em terras mais distantes é mandarina
por conta de trazer o alaranjado forte do manto dos mandarins.
Mas o encanto está na casca solta, no doce adstringente,
na origem da palavra laranja que data de mais de três
mil anos da Índia Dravidiana onde narayam significa
'perfume dentro'. E como perfuma. Talvez por isso, Calvin Klein
use a tangerina na base do seu famoso CK One. Os árabes
ouviram o nome da fruta como narandj, os italianos arancia
e os franceses medievais evoluíram para orange, pois
a cidade homônima era um grande centro de comércio
da fruta. Chique na Inglaterra é beber Earl Grey, chá preto
aromatizado com óleo essencial de bergamota.
Fonte de vitaminas A, B e C e de cálcio, potássio,
sódio, fósforo e ferro, a mexerica é útil
no tratamento da arteriosclerose, gota, reumatismo e cálculos
renais. O chá das folhas é bom calmante. Com
a fruta faz-se suco, caipirinha, compota, licor. Uso ainda
para temperar peixes suaves e incrementar assados. Em Londres
comi um bolo de tangerina com gengibre cujo sabor jamais encontrei,
mas um pão-de-ló feito no capricho com uma calda
delicada, proíbe glacês e outros rococós.
Bolo assim combina com café, chá e até vinho
de sobremesa. Desperta os sentidos, enrijecidos e encolhidos
pelo frio. Expande ainda os ânimos em risos, mesmo que
de bocas cheias de doçura.
|