Digo sempre que quero ser árvore na continuação
dessa vida. Penso que depois da fase carbono lançada ao
vento quero brotar da terra, espreguiçando, soltando os
braços para além da cabeça como se quisesse
tocar as estrelas. Depois ir engordando, sem a preocupação
da cintura esguia da juventude. E enrugando, ganhando sabedoria
sob uma pele espessa e protetora, vez ou outra arranhada por
algum gato. Quero ter a liberdade de pôr flor pra todo
lado, não apenas no penteado arrumadinho, mas na cabeleira
desalinhada e sem tinta, farfalhante. Quero soltar os filhos
no tempo certo, prontos a serem devorados pelo mundo, carreadores
de mim. Quero que minha sombra tenha dimensão igual à minha
parte mais bem iluminada quando o sol chega a pino. Quando for árvore,
não vou precisar beber cerveja porque vou tomar chuva,
não vou pensar nos dias que deixei de caminhar porque
meus pés estarão tocando o ritmo do coração
da terra. Minha música chegará aos ninhos, minha
arte será apenas quebra-galho e minha cor vai depender
do humor do tempo. Lógico que o futuro preocupa, não
quero acabar como hashi num restaurante japonês, ou entre
os dentes de qualquer um. Móvel chique, nem pensar. Penso
que se não me for possível a eternidade, que eu
acabe como bruxa, queimada numa fogueira.
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