Maru caiu sobre os joelhos cega pelo suor que
lhe incandescia os olhos. Os dedos das mãos, cruzados,
agarravam o punho da adaga numa luta árdua para que
não fosse engolida por Goibniu. O poder do ferreiro
do mundo inferior lhe causava frio na espinha, mas nem por
isso sentiu-se inibida em clamar ao barro seu mais profundo
desejo. Ergueu a arma sagrada do solo já sem a lâmina
e num engasgo rezou para que o metal entregue à revelia
pagasse por seus pedidos. As lágrimas de gratidão
antecipada clarearam a vista de Maru enquanto o sol esticava
as sombras chamando a noite. O canto doído saiu aos
soluços enquanto o mocho encharcado da névoa
buscava a toca na grande árvore.
A decisão de ferir a terra em busca de uma bênção
não foi fácil. Maru teve de escancarar o tormento
que a impotência humana nutria desde a quase morte do
filho, Nau. Enquanto recuperava o fôlego da dança
frenética que assumiu em volta do fogo, Maru lembrou
do dia em que não houve talismã capaz de segurar
a ira dos céus. Quis mexer na história registrada,
girar o mundo ao contrário, estancar a ampulheta em
dias felizes. Tudo em vão. A chuva havia espancado os
campos e transformado o remanso numa representação
de fúria transloucada, sem rota ou destino, que arrastou árvores
e pedras. Foi uma delas que desacordou Nau.
Quando as crianças da vila trouxeram Nau arrastado
pelos braços, formaram um sulco profundo na lama e na
alma de Maru, que sentiu o chão sumir sob seus pés.
As mãos gelaram e a fala calou. Mas a frágil
respiração do menino manteve as batidas do coração
da mulher. Tratou das feridas com ungüentos e ervas, hidratou
as costas com óleos e ceras, sussurrou encantamentos
nos ouvidos. Suplicou a doutores, sacerdotes e adivinhos que
encerravam as visitas sempre com muxoxos de desânimo.
Nau vagava em um oceano desconhecido sem o mapa de casa.
A mesma tempestade ditou o ritmo das horas de amor de Cliena
e Virme que ensoparam de suor os poucos panos que cobriam a
cama de palha, improvisada no depósito da colheita.
Cada trovão e cada raio eram abençoados por esticar
o tempo que permitia deixar os afazeres em troca do prazer.
Bem antes do toque irrecusável da pele, Cliena e Virme
viveram paixões comuns. Os pés enfiados na lama
gelada nas margens do lago, o cheiro da cópula dos carneiros,
o desafio dos ventos úmidos causavam aos dois prazeres
só superados depois que seus ventres foram unidos pelo
desejo.
A tempestade se foi, pelo menos do lado de fora. No íntimo,
Cliena começara a experimentar a revolução.
Brotava de suas entranhas uma vida que não era sua,
nem sabia se era desejada, mas algo a impelia a amar. Seria
algo dos deuses? Lembrou-se da mãe propagando o ato
de parir sob as bênçãos mais divinas. Os
seios ficaram enormes, transparentes e irrigados, o humor caiu
por terra e a libido foi levada para longe. Os morangos sim
tinham sabor especial, assim como as trutas frescas, a água
gélida do regato. O leite da cabrita, nem pensar.
Nove luas depois, a dor surgiu. Dominou os músculos
atrofiados de Nau que se retorcia à medida que as contrações
de Cliena encurtavam. O pio do mocho acordou Maru antes que
Virme batesse desesperado à porta atrás da parteira.
Por mais de 20 anos, ajudou a criançada da vila a deixar
as barrigas das mães. A urgência daquela madrugada
era tanta que Maru quase esqueceu de beijar a fronte de Nau.
Já estava a dez largos e apressados passos da porta,
quando voltou até a casa. Viu Nau de olhos fechados
num sono sereno. Sentiu-se cortada ao meio. Beijou o filho
e foi atrás da nova vida que chegaria por suas mãos.
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