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Tuga Martins




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Pirataria do Sagrado

 
O Brasil perde cerca de R$ 33 milhões de reais por ano com pirataria. O montante não inclui caminhos sagrados que, assim como o mercado, estão infestados de cópias mal feitas de conceitos ditados pela moda, que acabam obscurecendo a percepção do consumidor. Como não há lei que proteja a espiritualidade dos brasileiros, o convívio excessivo com fraudes leva à perda da noção do que tem valor. E o que realmente tem valor para os que escolheram trilhar um caminho sagrado, seja qual for? Somente a quietude pode trazer a resposta. E como encontrar a quietude em meio a tremendo bombardeio de informação?

Em poucos cliques é possível rastrear na Internet 127 mil links para a palavra bruxaria no Brasil, 116 mil para wicca, 11 mil para druidismo, 131 para tarot, 434 mil para celta -- incluindo o carro da Chevrolet --, 604 mil para espiritualidade e mais de 50 mil para paganismo. Acredito que a proporção deva seguir os índices da indústria fonográfica: 53% dos CDs comercializados no país são piratas. Há quem ache o percentual otimista.

O que leva à produção falsa é a mesma em qualquer setor. Ou seja, a ostentação de certas grifes pagãs, mesmo que contrabandeadas, pode sugerir oportunidade de prestígio e é tentador para os que gostam de desfilar com insígnias disso e daquilo. É tal qual a bolsa Louis Viutton comprada na 25 de Março para desfilar no Shopping Iguatemy. Indiscutível clima de Lua sobre condicionamentos sociais que escancaram a necessidade de preencher apenas as lacunas do ter. Não à toa, a pirataria na espiritualidade traz verdadeira parafernália de nomes mágicos, sobrenomes de ancestrais mais poderosos ainda, iniciações secretas feitas aos 7 anos de idade, ornamentos e brasões inimagináveis pelos mais criativos carnavalescos.

O resultado desse afã pela auto-importância é o desgaste do sagrado, o descrédito. Qualquer marketeiro de esquina sabe que nada é mais letal para uma marca ou um produto do que perder a qualidade, atributo catalizador da sensação de que se trata de algo sério. O valor existe pelo somatório do que orbita ao redor das coisas. Leia-se histórico, experiência, respeito, dignidade.

Se falta discernimento aos que buscam um caminho espiritual, falta mesmo é vergonha aos que oferecem. O surgimento de linhagens, seitas e tradições é tão absurdo, que arranca gargalhadas dos deuses mais sisudos, isso sem mencionar aqueles cuja ira acaba desperta. Além da proliferação de textos compostos por miscelânea de dados, a criação de instituições como meio de imprimir selo de qualidade é tão duvidosa quanto. Siglas e mais siglas agregam odor nauseabundo ao meio pagão.

Mas a questão não se esgota nas chacotas dos mais diversos panteões. Preocupante é: a partir de que ponto uma informação bizarra se transforma em referência? Será pela insistência? Seriedade na apuração e no trato do conteúdo ainda são condições essenciais para a conquista de uma audiência qualificada e determinante para o sucesso de qualquer coisa. Poderá uma pessoa que se diz séria afirmar a própria seriedade sabendo que não o foi no passado? Alguns discursos são inquietantes. Trazem na receita expressões que possam garantir consistência e demonstrar conhecimento. Mas falta arte no alinhavo das idéias porcamente pinçadas.

Mas ainda que tais conteúdos sejam mal expressados, mais desalentador e frustrante é o encontro com os que escrevem sobre paganismo. Vociferam determinados conceitos numa troca abusiva de seis por meia dúzia como se estivessem apresentando percepções inusitadas do sagrado.

O paganismo de qualidade é um projeto para o futuro. Cabe aos de responsabilidade oferecer núcleos substanciosos para que a geração futura possa se desfazer do excesso de badulaques e estar pronta para discutir e questionar sem delongas e chorumelas. Um pagão com conhecimento sólido e munido de instrumentos críticos que permitam avaliar com criatividade idéias e conceitos, tem tudo para trilhar o caminho sagrado com honra. Aliás, crítica e criatividade são indispensáveis para a prosperidade. Ao mesmo tempo, os que insistem em repetir e deformar idéias sem questioná-las garantem o atraso.

 

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