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Tuga Martins




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"Cores e Flores"

 

Ganhei uma fita do senhor do Bonfim, vermelha, amarrada com sete nós por uma baiana que arremeteu aquelas pupilas inchadas para dentro da minha alma. Fazia tempo que meu pulso esquerdo não recebia uma benção, algo bem importante para uma ambidestra. É com a mão esquerda que como, escovo os dentes, agarro qualquer coisa lançada em minha direção. É o lado do reflexo. Com a direita manuscrevo e com as duas, ponho as idéias em texto. Para quem passa o dia reportando fatos, digitar o que vem da alma não é tarefa fácil. O crivo é torturante. Mas o desafio de escrever sobre magia para o Tribos de Gaia instiga. E toda magia que experimento tem raiz no interior de São Paulo, onde nasci e vivi até os 18 anos. Mais tarde a relação com a metrópole adocicou os sentidos

Cores e flores

A ansiedade dominava a respiração de Maria, que só não avançava nos quindins ajeitados sobre a toalha de renda branca porque teria de retocar o batom alaranjado e lamber os dentes para evitar o sorriso amarelo. Era 13 de junho e na véspera tinha dedicado algumas horas na frente da bacia d’água à espera de que os rolinhos de papel rompessem o nome do futuro marido. Rezou forte e jurou ser boa esposa, recatada e fiel às coisas do lar. Foi para a janela à espera da procissão com o decote ajeitado ora mais abaixo, ora mais acima. Queria e temia exibir os seios alvos, dignos de moças caseiras. Os dedos tamborilavam irrequietos no parapeito e a ladainha para o casamenteiro começava a descer a rua num ritmo mais lento que o coração da moça.

Que aflição mais doida era aquela que punha em xeque a fé de Maria e o poder do santo? Tudo estava nos conformes. Maria reviu passo a passo a simpatia ensinada pela avó e quando esboçava o sorriso da certeza viu o amado saltitar rua abaixo de braço dado com outra Maria, de cabelo vermelho trançado em flores de laranjeira. Ah, as flores! Estava ali o erro. Maria havia esquecido das flores. Olhou para o vaso da casa e viu um antúrio desfalecido cercado de folhas amareladas.

Cuspiu o ódio pela janela, entregou-se aos quindins, soltou o coque comportado, assustou as galinhas quando quebrou o vaso no quintal. Trocou o nome de batismo por algo impronunciável.

Acendeu velas e dançou olhando a lua. Antes espalhou sal pela soleira. Abaixou o decote e salpicou o colo de carmim, beliscou as bochechas, rasgou o olhos com lápis preto, pegou uma rosa vermelha do jardim e prendeu na gargantilha de veludo. Abriu a porta de casa e a procissão já ia longe num escuro recém-chegado.

A ansiedade dominava a respiração daquela mulher de nome impossível de dizer. Quando deu o primeiro passo equilibrado sobre o salto surrupiado da mãe sentiu a noite cochichar-lhe no ouvido segredos que a própria intimidade tinha medo de revelar. A conversa pervertida com o desejo lhe soltou os quadris e alargou o sorriso. Alcançou a procissão e vislumbrou o santo casamenteiro de costas se afastando, ficando pequeno. Sentiu um calor subir pelas costas e juntou as mãos em súplica por amor. Salivou pela luxúria. Virou-se entregue a um beijo desconhecido e semanas mais tarde casou-se de branco sob as bençãos de Antônio e das juras de recato e submissão. Antes da núpcias, jogou para trás o buquê de laranjeira em flor que acabou agarrado com bravura por outra Maria, ainda sem cor.

Tuga Martins

08/09/2005



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