A história de Etain
[Recontado por Amanda Evans e traduzido por Sarasvati]
Nota: Os irlandeses têm lendas que contam sobre uma raça de pessoas, as Fadas, que parecem com humanos normais, mas são imortais e invisíveis aos humanos, a não ser que queiram ser vistas.
Era uma vez, há muito tempo atrás na Irlanda, vivia uma linda garota. Ela era a a mais bela donzela do lugar e filha de um rei. Seu nome era Etain.
A donzela tinha cabelos longos e dourados e suas faces eram tão rosadas quanto as flores dedaleiras da montanha. Seus olhos eram azuis como o botão de jacinto, e sua pele tão branca quanto a neve. Seu corpo era esbelto, altivo e macio. Etain era a donzela mais maravilhosa já vista pelos olhos dos homens.
Num lindo dia de primavera, um nobre foi visitar Etain e seu pai. Ele cavalgava um cavalo branco e vestia um manto verde. Ao seu lado carregava uma espada e levava às costas um escudo prateado.
O cavaleiro desmontou e disse: "Grande rei, meu nome é Aengus Mac Oc, e eu vim da terra das Fadas em busca de sua filha, Etain. Meu pai adotivo, Midir, rei das Fadas, deseja se casar com ela."
Os olhos de Etain demonstraram sua alegria ao pensar em ir morar com as Fadas.
"Eu não a darei pra você a não ser que cumpra o que ordenar," respondeu o rei. "Você irá limpar para mim doze planícies em meu reino para que sejam usadas para pastorear gado, casas para meu povo, e para jogos e reuniões e fortalezas."
O coração de Etain ficou desesperado, porque ela sabia que a tarefa que seu pai exigiu demoraria anos para ser realizada.
"Você terá o que deseja," disse Aengus. "Será feito."
Na manhã seguinte, os soldados do rei anunciaram que as planícies haviam sido limpas durante a noite, como que por mágica. Aengus voltou ao pai de Etain para buscá-la.
"Eu pedi ajuda a meu verdadeiro pai, o bom Deus das Fadas, e sua exigência está cumprida. Agora levarei Etain comigo," disse Aengus.
"Oh, eu quero ir com ele!" gritou Etain.
"Eu não deixarei minha filha partir tão facilmente," disse o rei. "Você não poderá levá-la até que faça doze grande rios trazer peixes do mar para meu povo."
Etain achou que o bom Deus das Fadas deveria ser muito poderoso para limpar doze planícies em uma noite, mas criar doze rios deveria ser impossível.
Novamente, durante a noite, doze rios apareceram, vindos do
mar. Com suas águas frias e cheias de peixe, os rios corriam no reino em canais que não estavam lá no dia anterior.
Uma terceira vez, Aengus apareceu na frente de Etain e seu pai. O rei suspirou e disse, "Eu exijo o peso da donzela em ouro e prata."
Aengus saiu e voltou com pilhas de ouro e prata equivalente ao peso de Etain. Seus homens amontoaram o ouro e a prata no chão do castelo do rei.
Com grande tristeza, o rei disse a Aengus, "Você realizou a minha vontade. Leve minha filha amada a seu pai e seu reino."
Etain abraçou seu pai e despediu-se de sua família. Então Aengus a pegou em seus braços fortes e carregou-a em seu cavalo. Ele colocou Etain sobre as costas do corcel e montou atrás dela. Entrelaçando firmemente seus dedos na crina do cavalo, com Aengus segurando tanto ela quanto as rédeas, Etain viu seu pai e suas irmãs ficarem menores com a distância enquanto ela se afastava de sua casa.
Assim que o castelo saiu de vista, Aengus parou o cavalo e disse, "Agora eu vou colocar a magia do véu das Fadas em você para que você possa entrar no nosso reino e ser uma de nós. Você não sentirá nada incomum, mas humanos mortais não podem vê-la a não ser que o véu seja levantado."
Aengus colocou suas mãos sob a cabeça de Etain e entoou,
"Através da força do céu,
Luz do sol,
Raio da lua,
Esplendor do fogo,
Rapidez da luz,
Suavidade do vento,
Profundidade do mar,
Estabilidade da terra,
E firmeza da rocha,
E chamo pelos nove elementos
Para faze-la desaparecer dos suspiros humanos."
Quando terminou o encanto das Fadas, Aengus estalou as rédeas duas vezes, e o cavalo começou a galopar. Logo Etain viu uma grande casa se aproximando. Era alta, grandiosa e com muitas terras ao redor. Havia amplas áreas de pedra na frente de cada porta e decorações de prata e vermelho. Quando eles chegaram em frente ao portão central, Aengus desmontou e Etain continuou no cavalo.
"Este é seu novo lar," disse Aengus a ela, "e aqui está meu pai, Midir, seu marido."
Etain viu um homem bonito e majestoso se aproximando. Ele vestia uma capa roxa afivelada com broches de prata na forma de leões e serpentes, e a coroa em sua cabeça era feita de ouro puro.
"Bem vinda, Etain, minha esposa!" ele disse à medida que a tirava de cima do cavalo. Então ele colocou seus braços em volta dela e caminhou por seus jardins, falando suavemente e docemente com ela. Quando eles entraram na casa, uma mulher se apresentou a Midir.
"Etain," disse ele, "essa é Fuamnach. Ela irá lhe mostrar seus aposentos."
Etain seguiu a mulher, que, assim que Midir saiu, de repente parou e apontou para uma cadeira.
"Sente-se, garota," ela ordenou. Etain sentou. "Eu sou a esposa de Midir, e agora ele trouxe uma segunda mulher para a casa! Meu pai é um grande feiticeiro, e eu aprendi mágica poderosa com ele. Eu estou muito descontente com você."
Observando atentamente Etain, Fuamnach caminhou para um canto da sala e pegou uma varinha de madeira esculpida em sorveira escarlate. Ela segurou a varinha sobre a cabeça de Etain e depois a tocou-a com ela.
Etain sentiu suas roupas ficarem molhadas, apesar de não haver água alguma na sala. Ela caiu da cadeira onde estava sentada e não conseguia mais se levantar. Caída no chão, sua pele se espalhou pelo chão frio de pedra, e seus ossos e órgãos se derreteram em líquido. Etain se transformou em uma poça de água naquele exato lugar no meio da casa.
"Eu devo deixar esse lugar e ir à casa de meu pai!" gritou Fuamnach.
Ao ouvir o grito de Fuamnach, Midir foi ao lugar onde Etain tinha se transformado. Ele segurou Fuamnach pelo braço, e olhou para sua cara louca e desvairada.
"O que você fez com Etain?" ele perguntou.
"Ela se foi. Eu a mandei embora," respondeu Fuamnach, livrando-se do domínio de Midir e se afastando nervosa.
Midir enviou rápidos cavaleiros para procurar por Etain perto e longe. Ele deixou a casa, já que esta lembrava-o seu pesar em perd~e-la, sem saber que Etain ainda estava lá como uma poça de água.
Logo, o calor do fogo da lareira e uma suave corrente de ar tocou Etain na superfície de suas águas. A terra se moveu ao redor dela, e Etain sentiu outra transformação acontecer. O fogo a trouxe ao calor da vida animal, e o ar deu-lhe respiração. A terra pressionou-se sobre ela, tirando-lhe toda a água e tornando-a muito, muito pequena. Etain foi transformada de uma poça de água para uma pequena lagarta.
Ela rastejou para fora da casa e encontrou uma planta com folhas bonitas e bem verdes para comer. Depois de um tempo, ela ficou com muito sono, e se enrolou embaixo de uma folha bem grande. Ela fiou para si um cobertor de seda e dormiu por muitos dias. Quando acordou, ela bocejou e espreguiçou, e duas finas asas se desdobraram em suas costas. Ela tinha se transformando em uma linda borboleta violeta. O som de sua voz era mais doce que música, e seus olhos brilhavam como jóias.
Etain vooou em busca de seu marido, Midir, e quando ela o encontrou, disse a ele o que tinha acontecido.
"Fuamnach um dia pagará pelo que fez," ele disse a Etain. "Agora você está comigo de novo, minha querida esposa."
Etain acompanhava Midir para onde que que ele fosse, em suas terras e em casa. Midir amava Etain, mesmo como uma borboleta, e não trouxe mais nenhuma outra esposa. Quando as pessoas chegavam a Etain, sua fome e sede desapareciam, e o movimento de suas asas curava todas as doenças.
Depois de um tempo, a primeira esposa de Midir, Fuamnach apareceu para uma visita.
"Você não deveria ter colocado um feitiço em Etain," Midir disse para Fuamnach. "Isso foi muito tolo da sua parte."
"Eu não me arrependo do que fiz," respondeu Fuamnach, "porque eu prefiro fazer bem para mim do que para outra pessoa. Eu prejudicarei Etain enquanto ela viver, em qualquer forma que ela esteja."
Fuamnach colocou seus olhos na linda borboleta roxa de Midir. "Eu sei que esta é Etain e que você não ama nenhuma outra mulher!" ela gritou.
Furiosa, Fuamnach agitou um vento de mágica que levou Etain para longe de Midir.
Por sete anos, o vento de Fuamnach soprou Etain. Sempre que ela tentava pousar em um monte ou árvore, o vento soprava mais forte e a mantinha longe. O único descanso para Etain era nas rochas do mar e nas ondas do oceano. Após o sétimo ano, Etain foi ao lugar onde o filho adotivo de Midir, Aengus, morava, e pousou sobre seu ombro.
"Até que enfim encontrei alguém da família do meu marido," ela pensou.
Aengus olhou para a linda borbolota violeta e percebeu imediatamente que era a esposa de seu pai, e a abrigou em sua casa
"Bem vinda, Etain, viajante cansada," disse ele. "Você encontrou grandes perigos através da astúcia de Fuamnach."
Ele à levou a sua mansão e mostrou a ela seu jardim, cheio de ervas aromáticas e com muitas janelas através das quais a luz do sol brilhava. Ele a convidou para ficar lá e ser feliz, já que Aengus era o deus das fadas que dava descanso e paz às almas cansadas. Etain passou alegremente seus dias voando de um lado para outro das janelas e descansando ao sol.
Uma manhã quando Aengus estava for a de casa, Fuamnach apareceu. "Vocè é amada e honrada por Aengus, e eu não vou ter isto!" ela gritou. Então ela intimou a mesma rajada de vento que carregou Etain por sete anos para levá-la embora por mais sete.
Depois de viajar por mais sete anos, Etain chegou à casa de um grande guerreiro, cuja mulher estava bebendo de um cálice dourado.
Exausta depois de tanto tempo sem descansar, Etain pensou, "Eu tenho sido levada pelo vento de lugar em lugar sem chances de amar ou ser feliz. Ficarei eu como uma borboleta pelo resto de meus dias? Se pelo menos eu pudesse ter uma vida nova e começar mais uma vez."
Etain voou por uma janela aberta para perto da mulher com o cálice. Suas asas começaram a cair, e ela se sentiu caindo pelo ar. Assim que a mulher ergueu sua taça, Etain foi pega dentro dela. A mulher, sem perceber, deu um gole e engoliu a borboleta. Etain sentiu o calor do corpo da mulher ao seu redor, e ela caiu em um sono muito profundo.
Nove meses depois, Etain renasceu como um bebê da mulher. Ela foi criada por sua nova mãe e tinha como companhia as filhas dos comandantes da Irlanda. Quando ela cresceu, se tornando mais uma vez a mais bonita donzela de toda a terra, Etain casou-se com o rei dos comandantes.
Quando Aengus descobriu que Fuamnach tinha jogado sua mágica tola sobre Etain, ele perseguiu a feiticeira até a casa do pai dela. Lá Fuamnach encontrou sua morte, para nunca mais prejudicar Etain.
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