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O DEUS DA GUERRA
por Sarasvati


 

   

 

Os animais lutam por comida, território e parceiros. Os humanos lutam pelas mesmas coisas. É o nosso lado animal, o lado que busca dominação. Algumas vezes, no entanto, a guerra é nobre – luta-se para defender a independência, para defender a honra. Cobiça ou necessidade, não há como fugir da guerra. É por isso que toda cultura precisa de um deus da guerra.

No Hinduísmo, Kartikeya era o deus da guerra. E, para ser o deus da guerra, ele tinha que ser viril, muito viril de fato. É por isso que as escrituras o descrevem como tendo um pai, mas muitas mães.

Nas histórias mais antigas, seu pai era Agni, o deus do fogo, e sua mãe era Swaha, a consorte de Agni, que tomou a forma de seis esposas (estrelas da constelação de Plêiades) de sete sábios (estrelas da constelação Ursa Maior) para satisfazer o desejo de seu marido que estava contemplando e seduzindo as mulheres dos sábios. 

Em histórias posteriores, Shiva é seu pai. Sendo um eremita, ele se recusava a ter filhos e seu sêmen, guadado por eons, tornou-se altamente potente. Os Devas estavam desesperados por um líder que derrotasse seus inimigos, os Asuras, que estavam sendo liderados por Taraka, um demônio que tinha a dádiva que ele somente poderia ser morto por um guerreiro de seis dias de idade.

Onde eles poderiam encontrar uma criança que seria grande o suficiente para lutar em seu sétimo dia de vida? Eles se dirigiram a Shiva. Shiva, perdido em meditação, era indiferente às súplicas dos Devas. As muitas tentativas dos deuses de casar Shiva e produzir uma criança se tornaram tema da canção de Kalidasa ‘Kumarasambhava’ ou a concepção de Kartikeya, também conhecido como Kumara, o eterno menino. Quando o deus do amor Kama tentou aguçar seus sentidos, Shiva abriu seu terceiro olho e o reduziu a cinzas. Finalmente os Devas conseguiram com que a deusa mãe Shakti forãsse Shiva a se tornar seu marido, demonstrando-lhe sua vontade e devoção.

Persuadido por Shakti, Shiva deixou que os Devas recolhessem sua semente, mas ela era tão potente que um único útero não seria capaz de carrega-la. Ela queimava mais que fogo e não podia ser resfriada pelo vento. Ela ferveu as águas do Ganges. Ela tacou fogo em uma floresta de junco e finalmente foi transformada em seis crianças. Essas crianças foram cuidadas pelas Krittikas ou as estrelas da constelação das Plêiades. Shakti então fundiu as seis crianças em uma criança com seis cabeças (daí o nome Shanmukha) e deu a ele uma lança. O filho de Shiva tinha então muitas mães – o fogo (Agneya), o vento, o rio, o junco (Sarvana), Krittikas (Kartikeya) e finalmente Shakti. 

Ele já era tão forte que no sétimo dia de vida ele liderou os Devas na batalha contra os Asuras e matou Taraka. Ele cavalgava um pavão, símbolo do orgulho masculino e da beleza. Sua bandeira mostra um galo, símbolo da masculinidade e da ordem hierárquica.

Na astrologia, Kartikeya está associado a Mangala, o planeta Marte, e é representado como um leão. Mangala está associado com agressão, dominação e instinto matador. Se esse planeta domina o mapa astrológico de alguém, essa pessoa teme que sua esposa não terá vida longa. 

Terça feira é o dia associado a Mangala. A palavra para terça no inglês, Tuesday, está associada a Tyr, o deus viking da guerra, que era tão corajoso que permitiu que seu braço fosse mastigado por um lobo gigante que ameaçava destruir o mundo. 

Na mitologia grega, Kartikeya é equivalente a Ares. O nome de sua irmã (segundo Hesiodo) era Éris, e ela era a deusa da discórdia. Ares não tinha mulher, mas teve um caso com Afrodite, a deusa da beleza e do amor. Ela era a esposa de Hefesto, o deus dos ferreiros que, ao saber do que sua mulher andava fazendo ficou tão furioso que teceu uma rede especial para aprisionar sua esposa e seu amante enquanto eles estavam na cama. Hefesto convidou todos os deuses para ver sua mulher e seu companheiro aprisionados em seu abraço passional. Depois desse evento, Ares, humilhado, não se casou com ninguém. Ares então criou o galo para anunciar a chegada do sol, alertando os amantes secretos da chegada iminente do espião solar.

Muito reverenciado como o chefe militar divino nos dias dos reis Muryan e Gupta, Kartikeya era visto como um rei não-casado no norte da Índia porque se considerava que o casamento amansava o homem. Mas no sul da Índia, onde sua adoração era muito popular, ele ficou conhecido como Murugan e tinha duas esposas: a filha de Indra, Devasena, e uma moça tribal local chamada Valli. Alguns dizem que elas não são mulheres, mas sim incorporações de seu exército e sua lança. Nos templos, onde Kartikeya nunca era mostrado com suas esposas, ele era caracterizado como um rapaz jovem, uma criança, que continha o espírito de seu pai, Shiva e sua mãe, Shakti. Acredita-se que essa ‘domesticação’ de Kartikeya como um menino-guerreiro e/ou marido romântico seja o resultado de uma cultura marcial em decadência e o crescimento de uma cultura monástica e devocional, no sul. Mas a verdade, assim como em todas as coisas mitológicas, nós nunca saberemos.






PUBLICADO NO TRIBOS DE GAIA EM 22/06/2009


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