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A Lenda de Finn McCool
enviado por Ana Lúcia Merege

Finn McCool era um gigante de bom coração que vivia no Norte da Irlanda. Um dia, quando trabalhava na construção de uma ponte – com a qual pretendia unir a Irlanda à Escócia – Finn subitamente sentiu saudades de sua esposa, Oonagh, e decidiu atravessar as montanhas até sua casa, no topo da colina conhecida como Knockmany Hill.

Oonagh ficou muito feliz ao ver o marido. Depois de beijá-lo, ela lhe serviu um enorme jantar que incluía um boi inteiro e uma pilha de pãezinhos acabados de sair do forno, e os dois se puseram a conversar ao pé da lareira. Finn, no entanto, não tardou a se mostrar preocupado, porque um dos seus dentes começou a doer, o que sempre acontecia quando sua vida corria perigo.

   



- Oh, não! Ele está vindo! – lamentou-se, após alguns momentos. – Está ouvindo esse ruído tremendo, que mais parece uma tempestade subindo a colina? São os passos de Cucullin! Aposto que ele vem para me desafiar!
Cucullin era um gigante maior e mais poderoso do que Finn McCool, mas todos sabiam que sua força provinha do indicador direito. Pensando nisso, Oonagh rapidamente armou um plano para derrotá-lo, e se pôs a assar uma fornada especial de pãezinhos recheados com pedaços de ferro.
- Enquanto isso, Finn, meu querido, vista estas roupas de bebê e entre no berço – disse ela. Finn não gostou muito da idéia, mas obedeceu e deixou que Oonagh o cobrisse com uma manta. Pouco depois, o barulho de passos se tornou ensurdecedor, e logo o gigante em pessoa se espremia para passar pela porta.
- Bem-vindo, forasteiro – saudou Oonagh. – É uma pena meu marido não estar aqui para recebê-lo.
- Então, vou esperar por ele, pois me disseram que Finn McCool é o gigante mais forte da Irlanda. Quero ver se isso é verdade – disse Cucullin. Oonagh o convidou a sentar e abriu o forno, mas em seguida soltou um suspiro.
- Está ventando dentro da casa, e isso vai apagar o fogo – disse ela. – Você poderia mudar a casa de posição? Finn costuma me fazer esse pequeno favor.
Cucullin foi lá fora, levantou a casa e a repôs no lugar, com a porta voltada para a direção oposta. Vendo isso, Finn McCool ficou assustado, mas Oonagh não se mostrou surpresa e pediu que Cucullin fosse buscar um pouco d´água.
- Finn acha que existe uma nascente no interior da montanha – disse. Cucullin prestou atenção e, ouvindo a água correr, usou seu dedo mágico para abrir uma enorme fenda entre as rochas. Oonagh não deu mostras de admiração. Em vez disso, serviu ao gigante alguns dos seus pãezinhos, e à primeira mordida ele soltou um grito de dor.
- Aaaaaargh! Quebrei dois dos meus dentes, e fortes eles eram! – reclamou. – O que foi que você pôs neste pão?
- É apenas um pão comun – defendeu-se Oonagh. – Até o bebê pode comê-lo.
Dizendo isso, ela deu um pãozinho da primeira fornada – sem o recheio de ferro – ao marido disfarçado de bebê, e é claro que Finn não teve dificuldade de devorá-lo. Foi a vez de Cucullin ficar impressionado.
- Esse é o filho de Finn McCool? Ele deve ter dentes muitíssimo fortes!
- Sim, são bem fortes. Pode senti-los, se quiser – disse Oonagh. Agarrando a mão de Cucullin, ela meteu seu indicador na boca aberta de Finn... que não pensou duas vezes antes de arrancá-lo com uma dentada. Cucullin soltou um berro e tentou agarrar o falso bebê, mas sua força se fora com o dedo mágico, e percebendo isso ele se pôs a correr colina abaixo.
- Volte! Não vai esperar por meu marido? – perguntou Oonagh.
- Eu não! Se esse é o bebê, nem quero conhecer o pai! – foi a resposta. Finn e Oonagh viram Cucullin desaparecer lá embaixo, no vale, e entraram para acabar sossegadamente o seu jantar.
Dizem que, depois disso, Finn McCool continuou a construir a ponte, que hoje é conhecida como Giant´s Causeway (Passagem do Gigante). No entanto, ele deve ter se cansado antes de concluir o trabalho, ou então decidiu que valia mais a pena ficar em casa com Oonagh: Giant´s Causeway não chega a cobrir todo o caminho até a Escócia.

Obs. Adaptado a partir do reconto "The Giant´s Clever Wife: an Irish Tale", publicado em "A Treasury of Giant & Monster Stories", da Editora Kingfisher (Londres).

SOBRE A ANA LÚCIA MEREGE: Sou carioca, aquariana e a caçula de quatro irmãos. Filha de professores, aprendi a ler muito cedo, mas mesmo antes disso já inventava e contava minhas próprias histórias. Logo surgiria o desejo de escrevê-las, o que faço até hoje. Isso resultou em três livros: as novelas "O Caçador" e "O Jogo do Equilíbrio" e o manual para mediadores de leitura "Os Contos de Fadas: origens, história e permanência no mundo moderno". Pretendo lançar novas publicações dentro em breve. Além disso, trabalho na Biblioteca Nacional, pesquiso sobre escritas antigas, Mitologia e Literatura Fantástica e escrevo artigos voltados para o público mais jovem.

Sempre que posso, gosto de viajar, seja para lugarzinhos cercados de Natureza (de mochila) ou para destinos culturais, como as grandes cidades da Europa (de mochila maior). No entanto, não dá para viver o tempo todo na estrada, por isso arrumei meu canto entre a praia e o verde em Niterói (RJ), onde moro com meu marido, minha filha e dois aquários cheios de peixinhos.Para me conhecer melhor e a meu  trabalho, é só acessar meu blog

 

RE-PUBLICADO NO TRIBOS DE GAIA EM 25/04/2009

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