Visões da Mitologia: Odin e a beberragem da Sabedoria
[de Gianpaolo Celli]
Odin novamente é o protagonista deste mito nórdico que faz uma ligação inequívoca entra a poesia - o poder da Palavra - e a Sabedoria num sentido maior, como a 'onisciência'. Inclusive, o 'elixir mágico' criado neste mito possui uma interessante semelhança com às Gotas da Inspiração do conto de Taliesin, que também eram preparadas num caldeirão.
ODIN e a BEBERAGEM DA SABEDORIA
Na musica do bardo está a verdade do vidente, e de todos os grandes bardos e videntes que já viveram, o maior deles foi Odin ... mas qual, você pode perguntar, foi o segredo de seu poder místico? O segredo está numa beberagem mágica feita de cuspe, mel e sangue. Ouça...
Há muito tempo atrás, havia duas raças de deuses, os Aesir e os Vanir, e havia uma guerra entre as raças. Quando todas as hostilidades cessaram e ambas as raças decidiram viver em paz, como uma amostra de que não havia ressentimento entre elas, todos os deuses das duas raças cuspiram numa grande jarra, e da junção de seus cuspes surgiu um homem. Ele se chamava Kvasir e era um grande sábio, o ser humano mais sábio em todos os nove mundos já criados.
Aonde Kvasir ia, ele dividia sua sabedoria com os outros. Assim, não demorou até que as novas sobre este prodígio chegassem aos ouvidos de dois anões, os irmãos Fjalar e Galar, os dois pilantras tão safados que você nem poderia imaginar.
Como todos sabemos a inveja é uma das sementes do mal, e estes anões não conseguiam agüentar que alguém tivesse algo e eles não, então fizeram um plano para capturar Kvasir.
Eles o convidaram para um banquete em sua caverna subterrânea - o que não era um convite interessante a se aceitar, tendo em vista que a caverna não era nada confortável para um banquete, pois era fria, escura e tinha goteiras. Os pratos em que a comida foi servida eram de ouro e encrustrados de jóias, os anões, afinal, eram conhecidos por serem possuidores de grandes tesouros, o que acabou por tornar o banquete um pouco mais aceitável...
Continuando a história...
Assim que os demais convidados partiram, deixando Fjalar e Galar a nós com Kvasir, eles levaram-no a um canto da caverna onde haviam preparado duas jarras, Son e Bodn, e um grande caldeirão, Odrorir, e lá eles desembainharam suas adagas e atacaram Kvasir ferindo-o - e atacaram novamente e novamente, numa orgia de sangue e morte. E a medida em que as adagas perfuravam o corpo de Kvasir, seu sangue espirrava para fora do corpo como que de uma fonte, caindo em Son, Bodn e Odrorir, até que o sábio ficasse sem sangue algum, ressequido e sem vida, caído na pedra fria do chão da caverna.
Quando questionados pelos deuses sobre Kvasir, os anões responderam que ele havia engasgado com suas palavras, pois eram palavras de sabedoria ricas demais para ficar com uma só pessoa.
E em segredo, eles misturaram mel no sangue, e colocaram a mistura em Bodn e Odrorir para ferver, fermentar e envelhecer até que a mesma se tornasse a mais milagrosa bebida - e a mistura transformou-se em hidromel, a beberagem mágica que tinha o poder de dar à qualquer um que dela bebesse a dádiva da sabedoria. E os anões não disseram nada a ninguém de sua beberagem secreta, deixando-a escondida em sua caverna.
Algum tempo depois, Fjalar e Galar novamente convidaram gente para sua caverna, desta vez foi um casal de gigantes, Gilling e sua esposa. Naturalmente, devido a suas naturezas impacientes e irascíveis, não demorou muito para que os dois estivessem discutindo com seus convidados.
Como todos sabemos, a raiva é uma das sementes da criminalidade. E foi assim que este evento terminou de maneira incomum, com os anões novamente se tornando assassinos, matando Gilling e sua esposa da maneira mais suja, violenta e nojenta.
Como os gigantes não retornavam para casa, seu filho Suttung saiu em busca deles. Questionados sobre o que havia ocorrido sobre os gigantes que eram seus convidados, Fjalar e Galar deram todos os tipos de desculpas - Sim, nós esperávamos por eles, mas eles não apareceram; não; lembrando melhor, eles chegaram e foram embora logo após chegarem; sim, eles disseram algo sobre eles darem uma volta pela costa e nós avisamos para tomassem cuidado com as marés traiçoeiras; foi assim - eles continuaram, mas Suttung não se convenceu e terminou por tirar toda a verdade deles. Ele estava quase os matando quando Fjalar e Galar gritaram, 'Espere! Nós temos um tesouro, uma beberagem mágica desconhecida por qualquer um nos nove mundos - e pode ser sua! É só você poupar nossas vidas!'
E foi assim que o hidromel, a beberagem da poesia e da sabedoria, mudou das mãos de Fjalar e Galar para as mãos de Suttung o gigante. Ele pegou Son, Bodn e Odrorir e escondeu-os no coração de sua fortaleza na montanha, Hnitbjorg, e colocou sua filha Gunnlod para guarda-los.
Suttung, entretanto, não era sutil como os antigos donos da beberagem, e notícias chegaram aos ouvidos de Odin sobre a bebida miraculosa, e ele decidiu trazer o hidromel para Asgard, lar dos deuses - Kvasir, afinal de contas, de cujo sangue era feito o elixir, havia sido criado de cuspe dos deuses.
Odin sabia que o gigante não iria dar-lhe hidromel por vontade própria: esta missão exigia métodos mais sujos. Disfarçado então, ele foi a casa de Baugi, irmão de Suttung, e lá, usando um estratagema, matou toso os nove thralls, os servos que trabalhavam em suas terras, de modo que Baugi ficou sem ajudantes para tocar a fazenda.
'O que eu farei agora?' perguntou o gigante, de maneira rude 'Quem irá arar os campos? E tem o cereal para ser colhido! E o feno para ser cortado! Como alguém pode ser tão sem consideração e matar todos meus ajudantes - será que ninguém pensa em mim? O que eu farei agora? Oh, é verdade, a vida de fazendeiro é uma vida ingrata!'
'Eu irei arar seus campos, colher seu cereal, e cortar seu feno,' disse uma voz. 'Pois apesar de ser somente um, eu tenho a força de nove homens. Deixe-me fazer o trabalho para você, e tudo o que peço em troca é um gole da beberagem de seu irmão.' E foi assim que Odin, sob o nome falso de Bolverk, colocou-se a serviço de Baugi.
Baugi, por sua vez, sabia que seu irmão nunca daria a ninguém nem uma gota do hidromel, entretanto, a necessidade de ajuda na fazenda era maior do que a honestidade de Baugi, ele então nada disse. E quando chegou o dia de pagar Odin por seu trabalho e Suttung recusou-se terminantemente a dar a Baugi sua beberagem mágica, Baugi foi persuadido, pela força da língua de Odin, a cavar um buraco através da montanha de Hnitbjorg até o aposento onde a beberagem estava guardada. Assim, no momento em o túnel estava pronto, Odin transformou-se numa serpente e, rápido com o raio da inspiração, rastejou até o local no meio da montanha onde Gunnlod estava guardando Son, Bodn e Odrorir.
Rapidamente, Odin reassumiu sua aparência normal - não a do ajudante de fazendeiro Bolverk, mas o de Senhor de Asgard em toda sua glória; Gunnlod, por sua vez, nunca havia visto alguém tão bonito antes e, como ficar tomando conta de dois jarros e um caldeirão todo o dia é muito entediante, ela deu prontas boas vindas a diversão oferecida por Odin.
Eeste então, falou macio com ela, cantando-a, sussurrando coisas bonitas junto a sua orelha. E ele fez isso tão bem que, no final a gigante estava apaixonada por ele, e tão tomada pelo desejo que aceitaria qualquer coisa que ele dissesse. Odin, então, deitou com ela por três noites, e quando chegou a hora dele ir embora, ele perguntou se podia, como um presente de partida, tomar um gole de cada um dos três recipientes de hidromel - 'Um para cada noite que estivemos juntos...' - Disse ele.
A apaixonada Gunnlod cedeu a seus desejos, e Odin bebeu de Son, e bebeu de Bodn e de Odrorir, e quando terminou de beber ele tinha deixado os três completamente secos. Então, mantendo o hidromel em sua boca, ele transformou-se em águia e voou em direção a Asgard, com Suttung, também transformado em águia, em seu encalço.
Quando os deuses notaram as duas águias se aproximando, eles logo carregaram para fora todos os canecos e jarros que puderam encontrar. E assim que Odin mergulhou para a salvação de Asgard seu caçador desistiu da perseguição. Ele então soltou a beberagem que tinha na boca nos receptáculos preparados.
Todo o hidromel foi, então, salvo - na verdade nem todo ele, pois na pressa de voar para casa, Odin deixou cair algumas gotas, uma porção pequena demais para ser considerada. E um respingo da beberagem da poesia, do elixir da sabedoria, caiu em Midgard, a terra dos homens, e é este pequeno respingo que, desde então, tem inspirado todos os poetas da terra.
Poderes Poéticos
Ao contrário da desvalia do baixo conceito que os poetas conseguiram na sociedade atual, eles uma vez pertenceram uma classe de sacerdotes com o mesmo poder dos reis, e eram reverenciados como os 'magos da Palavra'.
Os Skald
Na Escandinávia, tais poetas eram conhecidos como 'skalds', e o que eles prediziam em suas músicas sempre acontecia. Um grande 'skald' tinha a habilidade de, através de sua baladas funerárias, falar com a Deusa da Morte em pessoa.
Os Ollamh
Os 'ollamh' (se pronuncia ollave) eram bardos irlandeses da mais alta ordem, os quais haviam treinado por muitos anos para chegar a este nível. O poder de suas palavras era tanto que eles podiam, através da 'sátira' ou ar amaldiçoado (o sentido original desta palavra), fazer bolhas aparecerem na face de suas vítimas, ou diversas outras maldições - como enfeitiçar ratos para atacarem as vítimas de seus insulto mágicos.
Encantamento
Uma conecção entre o conceito de feitiço - a pronuncia das palavras que tem o poder mágico de efetuar mudanças - e as palavras cantadas pelo bardo podem ser encontradas na palavra 'encanto', que literalmente significa enfeitiçar alguém 'cantando para a pessoa' (en-cant-ando) ficar sob a influência do feitiço.
De: History of Myths Retold
Autora: Diane Ferguson
Traduzido e adaptado por: Gian Celli
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