Visões da Mitologia: O Deus Enforcado
[de Gianpaolo Celli]
Odin era apaixonado pela sabedoria e pelo conhecimento mágico. O poema que narra a mais estranha de suas aventuras é o 'Havamal', encontrado no manuscrito conhecido como 'Codex Regius', composto de 900 à 1050 DC.
O DEUS ENFORCADO
Odin era o mais sábio dos deuses, e a obtenção de sabedoria sempre foi seu maior desejo. Foi pela sabedoria que ele sacrificou um dos olhos em troca de um gole da Fonte da Iluminação Espiritual, a qual era guardada pela cabeça falante do sábio deus Mimir. Assim, sempre que alguém visse Odin, o reconheceria imediatamente, devido a seu único olho, seu chapéu de abas largas e seus corvos, Huginn e Muninn, Pensamento e Memória, que sempre estavam a seu lado.
Entretanto, de todos os feitos e sacrifícios de Odin em busca da poder da omnisciência, o maior foi o de sacrificar sua própria vida, se enforcando em Yggdrasil, de modo a obter o conhecimento dos mistérios conhecidos somente pelos mortos.
Yggdrasil era o gigantesco freixo que mantinha o universo. Ele sempre havia existido. Sua primeira raiz enterrada em Asgard, lar dos deuses, e sob ela estava o Poço de Urd, guardado pelas três Nornes, as deusas do destino, cujos nomes eram Destino (Fate), Realidade (Being) e Necessidade (Necessity). Sua segunda raiz se enterrava junto a Jotunheim, a terra dos gigantes, e sob esta raiz nascia a Fonte de Mimir, de onde Odin bebeu. Sua terceira raiz crescia até Niflheim, terra dos mortos, e sob ela nascia a Fonte de Hvergelmir, de onde nasciam os onze rios. Em seus galhos mais altos sentava uma águia com um falcão lhe sentando entre os olhos; abaixo da raiz mais profunda se escondia o dragão Nidhogg, para sempre preso a madeira; e sem nunca parar, para cima e para baixo entre os galhos e a raiz, corria o esquilo Ratatosk.
Yggdrasil dava abrigo e sustentava toda a vida, e hidromel pingava de seus galhos.
E foi a este enorme freixo, então, que Odin foi um dia, em sua busca por sabedoria. Ferindo a si mesmo com sua lança, ele pendurou-se em um dos galhos, oferecendo a si mesmo como as vítimas humanas que lhe eram sacrificadas.
E lá ficou o deus, enforcado (em algumas versões crucificado), pendendo para frente e para trás como um corpo dançando à vontade do vento que balançava os galhos.
Uma noite se passou, duas noites, três, então quatro, e assim ficou por nove dias e nove noites inteiras. Durante esse tempo todo ninguém apareceu para aliviar-lhe a dor e da fome; nenhum pão ou chifre de bebida foi lhe trazido.
Finalmente, ao sentir que morria, Odin olhou para baixo e viu, escrito bem abaixo dele, letras mágicas conhecidas como runas. Usando suas derradeiras forças e toda sua força de vontade, ele abaixou-se e levantou as runas.
O esforço, entretanto, o fez gritar de agonia e cair novamente.
Mas Odin manteve-se segurando, mesmo que de qualquer maneira, as runas em suas mãos, e com isso um milagre aconteceu; pois ele sentiu um novo vigor correndo em suas veias, uma nova vitalidade chegando a seu corpo. As runas haviam restaurado-lhe a vida.
Depois disso, uma coisa rapidamente levou a outra: quantas runas lia, mais runas ele conseguia ler, e a medida que as lia, mais coisa coisas aprendia a fazer. E ele aprendeu nove Músicas vindas de seu tio materno; aprendeu feitiços para curar os enfermos e aliviar a dor e a angustia; aprendeu os segredos que somente os curandeiros sabiam; aprendeu magias para desarmar seus oponentes e livrar-se de correntes e cadeados; aprendeu como desviar as flechas de seus adversários e a aumentar a força de seus aliados na batalha; aprendeu a extinguir o fogo, a manter o vento, a destruir a raiva, a confundir as feiticeiras, e desfazer magias feitas contra ele; aprendeu a trazer os enforcados de volta a vida e como prevenir que os jovens caiam durante a batalha; aprendeu como trazer força aos deuses e glória aos elfos e a todos que ele falava o nome, um a um, e como obter mais sabedoria; aprendeu como ganhar o amor de uma mulher e a devoção incondicional de uma donzela; e o último feitiço que aprendeu era um segredo, o qual ele nunca contaria a ninguém a não ser a sua própria irmã ou à uma mulher com que houvesse passado uma noite, pois a magia mais poderosa é a que guardamos para nós mesmos.
E quando Odin terminou de aprender todos os feitiços, os quais eram dezoito no total, e os sons e os encantamentos, o número de runas chegava a três vezes nove.
E foi assim que Odin sacrificou sua própria vida em busca da sabedoria, e como ele se tornou o mais sábio dos deuses.
A Árvore Sacrificial
A comparação entre esta história e a crucificação de Cristo na 'árvore' da cruz é notória, embora o auto-sacrifício de Odin siga padrões estritamente das tradições pagãs, e tem muito em comum com os ritos xamânicos da Ásia central (Odin era um dos Aesir, ou deuses 'Asiáticos' do panteão Nórdico), os quais envolviam estados de morte aparente como o transe e meditação. Além disso, existem evidências históricas de que vítimas sacrificiais eram feridas com uma lança e oferecidas à Odin, da mesma maneira que ele 'sacrificou-se para si mesmo', enquanto no século onze, vítimas eram vistas enforcadas de maneiras semelhantes nos bosques sacrificiais próximos ao templo de Odin, Thor e Freyr em Uppsala na Suécia. Odin, inclusive, era conhecido como 'Deus dos Enforcados'.
O Tarot
A carta do enforcado do tarot sugere a morte do velho dando lugar ao novo, evocando assim o sacrifício de Odin.
De: History of Myths Retold
Autora: Diane Ferguson
Traduzido e adaptado por: Gian Celli
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