Visões da Mitologia: ISHTAR E TAMMUZ
[de Gianpaolo Celli]
Este mito babilônico explica, entre outras coisas, a mudança das Estações. A narrativa é focada nas figuras de Tammuz, um Deus da vegetação, dos cereais em particular, consorte da Deusa Ishtar. Sua morte é uma analogia obvia à colheita. Este mito inclusive é contraparte de mito sumério mais antigo onde Ishtar é Inanna e Tammuz é Dumuzi, seu consorte.
ISHTAR E TAMMUZ
O belo Tammuz era consorte de Ishtar, a Rainha do Céu. Era normal ver os dois andando juntos nos campos de ceral a medida que, lentamente, o verde se tornava dourado com a passagem da primavera para o verão. Mas um dia estava por vir quando Ishtar, após perder seu amado para a morte, teria de andar até os confins da Terra, agüentando heroicamente dor e sofrimento para traze-lo de volta.
Tudo começou nos escaldantes dias do final do verão, quando os camponeses vieram ao campo onde Tammuz descansava e cruelmente o assassinaram, ceifando a vida do Deus com suas foices, lançando sua carne à terra até que esta ficasse rubra com seu sangue, transformando seus ossos em pó e lançando-os aos ventos, como farinha numa pedra de moinho.
Quando a Deusa soube da morte de seu amado, ela foi tomada por tamanha dor que ficou como um cedro, alta, ereta e cheia de orgulho. E ela levantou a voz num lamento que ecoou por todo céu e terra, chamando por Tammuz, seu filho e por quem era apaixonada. E em sua dor, ela lamentou por todos os locais estéreis e vazios onde a vida existia, pois em seu mundo agora seu amado consorte não mais existia.
Ela cantou para o grande rio onde nenhum chorão cresce. Para os campos onde nem trigo nem cevada ou ervas crescem. Cantou para a trigo que está sem suas sementes. Para o lago onde peixes não vivem. Para os arbustos onde nenhuma flor desabrocha. Para as florestas onde não existe vida à sombra das árvores. Para as regiões selvagens onde nenhum cipreste cresce. Para os jardins aonde a vinha não cresce e os insetos não existem. Cantou para os campos onde as perenes anêmonas não florescem.
Fatigada de tanto chorar, a Deusa decidiu que ela deveria achar o espirito de Tammuz para tentar traze-lo de volta a vida, não importando os perigos que enfrentaria. E ela sabia exatamente onde procurar, pois sabia que ele estaria no sombrio reino de Irkalla, a Casa da Escuridão, onde a poeira se acumula nos portais, de onde não há retorno. Ele deveria estar com os edimmu, as almas dos mortos, tanto dos orgulhosos como dos humildes, todas presas, como pássaros, em roupas com asas, e cuja existência só era iluminada pela fraca claridade do poente, e cuja única comida é o barro.
Seria em Irkalla que Ishtar encontraria Tammuz, então para Irkalla ela foi.
Ocorre que a Senhora deste reino sem retorno era ninguém menos do que a irmã de Ishtar e seu nome era Erishkigal. E quando ela ouviu que Ishtar estava em meio a uma jornada para vê-la, ela ficou com medo que a irmã estivesse planejando tomar seu trono. Erishkigal então imaginou uma trama para roubar os poderes divinos de Ishtar.
"A Deusa deverá ser liberada para entrar" - disse ela, - "mas a medida que passe por cada um dos portões de entrada do submundo ela deve deixar algo que estiver usando, até que no final ela venha a mim nua.", pois sabia que sem suas vestes de poder, Ishtar estaria indefesa. E Ishtar foi forçada a aceitar tal ordem e, em cada um dos sete portais de Irkalla ela retirou uma peça de suas roupas ou um adorno.
Primeiro sua coroa; então seus brincos; seu colar; as jóias em seu peito; seu cinturão; os braceletes que usava nos pulsos e tornozelos; e finalmente o vestido que usava. Assim, nua como uma criança recém nascida, Ishtar se apresentou ante o trono de Erishkigal.
Mas ainda assim, Erishkigal continuava suspeitando da irmã. Ela aprisionou-a e faz com que sofresse os mais terríveis tormentos, finalmente impalando-a.
Entrementes, de volta a Terra e ao Céu, o pesar pela perda de Ishtar podia ser sentido em todas as coisas, que pareciam externar a dor, pois sem a influencia da Deusa, nada conseguia prosperar ou ser fértil. O touro se recusava a cobrir a vaca; o jumento não mais se aproximava da jumenta; e nas ruas da cidade, os homens não mais procuravam as mulheres.
O mundo foi lançado em tal desolação que finalmente Sin, a Deusa da Lua, e Shamash, Deus do Sol, pediram a Ea, Senhor da Magia e das Águas que nutrem a terra e possui toda sabedoria para fazer algo. E Ea então criou um mensageiro, Asushu-Namir, e mandou-o para Irkalla, a terra sem retorno, com palavras mágicas que se sobreporiam à vontade de Erishkigal.
E apesar de possuir grandes poderes, e de haver tentado impedir o mensageiro com um grande feitiço, Erishkigal não conseguiu resistir a magia de Ea, sendo forçada a liberar Ishtar. E quando a água da vida foi aspergida no corpo de Ishtar, ela acordou como que de um sono profundo, e todos seus ferimentos e cicatrizes desapareceram. Passando de volta pelo sete portais do inferno, Ishtar recolocou cada um das peças de roupa e adornos que ela fora obrigada a retirar, e a cada peça de sua vestimenta mágica que ela colocava, um pouco de seu vigor retornava, até que no final todo seu encanto, sua beleza e seu poder retornaram a ela.
E Tammuz, que todo este tempo havia passado miseravelmente em Irkalla, conseguiu retornar com ela à terra dos vivos. Mas como Erishkigal ordenara, havia uma condição. Tammuz deveria passar metade do ano em liberdade, mas a outra metade ele deveria retornar para viver com ela no submundo.
E foi assim que Tammuz passou a ser dividido entre as duas irmãs, uma a Rainha do Céu, a outra a Rainha do Submundo. E quando Tammuz estava com Ishtar na Terra, a Deusa ficava feliz e a natureza e a humanidade floresciam, mas quando ele retornava a Erishkigal no submundo, a consternação de Ishtar fazia com que toda vida morresse.
E tem sido desde o início dos tempos, e assim será até o final dos tempos.
Adonis
Uma divindade síria da vegetação, Adonis era uma das muitas incarnações do sumério Dumuzi e do babilônico Tammuz. Adonis era o consorte da deusa Astarte, a "Senhora de Byblos" e equivalente a Ishtar, e mais tarde, nos mitos gregos, sua contraparte era Afrodite. O nome de Adonis significa simplesmente "senhor", do semítico "Adon", provavelmente nada mais do que um dos títulos de honra dado a Tammuz por seus seguidores. Da mesma maneira que o Deus hebreu Yahweh é referido na bíblia como Adonai.
Mortalmente ferido por um javali enquanto caçava, o sangue de Adonis coloriu a anêmona vermelha, a qual tornou sua flor. Sua morte e ressurreição foram a causa da celebração de oito dias conhecida como Adonia, que acontecia na Síria, na Judéia, no Egito, na Pérsia, em Chipre e na Grécia.
Attis
O frígio Attis, outra divindade da vegetação e Deus sacrificial da região oeste da Anatólia, ele foi o amante da Deusa Cibele, cujo culto foi levado a Roma em 204 AC.
Filho da Virgem Nana, que o concebeu por haver comido uma amêndoa ou romã, ele também foi, como Adonis, morto por um javali, assim como castrou a si mesmo, como os sacerdotes de Cibele, sob um pinheiro, no qual ele logo depois se transformou. Violetas nasceram de seu sangue. Sua morte e ressurreição eram celebradas de 22 a 25 de março.
De: History of Myths Retold
Autor: Diane Ferguson
Traduzido e adaptado por: Gian Celli
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