Visões da Mitologia: O desaparecimento do Sol
[de Gianpaolo Celli]
Este mito japonês sobre o desaparecimento do Sol pode tanto ser uma metáfora para o ciclo do dia e da noite como também para a chegada do inverno, quando o Sol é menos presente e não aquece a Terra como no inverno.
O Festival das Primeiras Frutas citado no texto, inclusive, é, como Lughnasadh para os Celtas, uma celebração de colheita do outono que acontece antes do início dos meses mais escuros e frios do ano.
O DESAPARECIMENTO DO SOL
Amaterasu, filha de Izanagi and Izanami, era a luz do mundo. A luz de sua face era como o brilho intenso do amanhecer que precede a manhã, que aquece a terra, e sua luz, como seu calor, ajudavam no crescimento das plantações.
Amaterasu tinha um irmão chamado Susano--Wo, o Senhor das Tempestades. E um dia Susano-Wo ergueu-se até o palácio celeste de Amaterasu, estremecendo montanhas e causando terremotos à medida que subia.
A Deusa, entretanto, não confiava no irmão e, suspeitando de algo, perguntou a ele o que queria. Susano-Wo respondeu que desejava medir forças com ela, numa prova em que cada um deles deveria tentar criar crianças.
Amaterasu então pegou a espada do irmão, quebrou-a em três pedaços e mastigou-os, e de sua boca saiu uma névoa suave. E desta névoa nasceram três Deusas.
Susano-Wo, então, pegou os cinco colares de jóias que a irmã usava, quebrou-os com os dentes e, de sua boca saiu uma névoa suave, de onde nasceram cinco Deuses.
Amaterasu porém clamou a vitória para si, pois os Deuses haviam saído de suas jóias. Mas Susano-Wo não aceitou, e clamou para si a vitória, saindo então, num acesso de triunfo e raiva, numa orgia de destruição.
Ele destruiu os campos de arroz que a irmã havia criado; encheu os dutos de irrigação; colocou excremento nos santuários do Festival das Primeiras Frutas; e, em seu momento de maior fúria, arremessou um cavalo malhado, todo velho e acabado, no local onde Amaterasu e suas damas estavam sentadas costurando roupas para os Deuses.
Esta terrível visão assustou tanto uma das damas que ela caiu sobre seu tear e morreu. Aterrorizada Amaterasu fugiu, refugiando-se na Caverna do Céu, bloqueando a porta com uma rocha e escondendo sua face brilhante. No instante seguinte toda a Terra havia caído na mais profunda escuridão, manto sob o qual o mal e o caos nasceram e cresceram.
Desesperados por trazer de volta a luz ao mundo, um número incomensurável de Deuses seguiu o conselho do Deus Guarda-pensamentos, colocando em ação seu plano. Eles fizeram com que os galos cantassem no que seria o nascer do Sol, e colocaram pássaros canoros na frente da caverna. Na árvore de Sakaki, eles penduraram colares de brilhantes feitos por Tama-No-Ya, o Deus dos Joalheiros. No exato local onde apareceria seu reflexo luminoso quando ela saísse da caverna, eles colocaram o Jata-Kagami, o espelho divino feito por Ama-Tsu-Mara, o Deus dos Ferreiros de um olho só. Então Ame-No-Uzume, a Deusa da Dança, que vestia folhas de bambus e carregava uma lança e um tambor, tomou seu lugar, assim como fez Futo-Tama, o Deus dos Ancestrais, com seus artefatos mágicos.
Com todos prontos, a encenação começou: Os galos e os pássaros canoros começaram a cantar como se estivesse amanhecendo, Futo-Tama começou a recitar o sagrado ritual, e Ama-Tsu--Mara começou a uzume, sua dança erótica e cheia de rodopios. Batendo o tambor com seus pés e, chegando ao êxtase divino, ela livrou-se de suas roupas, enquanto os inumeráveis Deuses ali presentes começaram a gargalhar fortemente.
Intrigada pela cacofonia e pela comoção que acontecia fora da caverna, Amaterasu empurrou a rocha da entrada de modo a abrir uma fresta para que ela pudesse dar uma espiada, e um fino raio de luz do Sol apareceu fora da caverna. Quando ela viu então seu próprio reflexo no espelho divino, ela ficou ainda mais curiosa e aventurou-se um pouco mais para fora. Imediatamente, um dos Deuses puxou-a para fora da caverna enquanto outro amarrou uma corda mágica em volta dela, de modo que mesmo que quisesse entrar novamente, ela não pudesse faze-lo totalmente e sempre tivesse de voltar.
Deste modo, o Sol foi persuadido a deixar seu esconderijo. Amaterasu novamente tomou seu lugar no céu, e a luz, a vida e a fertilidade retornaram ao mundo.
Susano-Wo, por sua vez, foi severamente punido. Os demais Deuses cortaram sua barba e bigode, assim como as unhas de suas mãos e pés, e baniram-no do céu para sempre. Em reconhecimento a superioridade da Deusa do Sol, ele deu a Amaterasu sua espada, a qual ela, por sua vez, deu a seu neto, quando este desceu ao mundo dos mortais. Quanto ao espelho divino que refletiu a luz solar, ele foi dado como presente ao imperador do Japão.
De: History of Myths Retold e O Herói de Mil Faces
Autores: respectivamente Diane Ferguson e Joseph Campbell
Traduzido e adaptado por: Gian Celli
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