Visões da Mitologia: Taliesin da Face Brilhante
[de Gianpaolo Celli]
A 'vinda de Taliesin' está registrada no 'Mabinogion' (de mabinogi, 'instrução para jovens bardos'), uma coleção de lendas celtas da tradição do País de Gales. A figura do bardo, por si só, já é vista como algo mítico ou semi mítico, como a figura de Arthur. Ele usa a frase 'Eu tenho sido' como a 'Eu sou' usada pelos bardos irlandeses Amairgen quando pisaram, pela primeira vez, em solo irlandês, uma frase rica em simbolismo pois da a entender que o narrador pode transcender como um espírito eterno que existe fora e ainda dentro de cada coisa desde o início até o final dos tempos.
TALIESIN da FACE BRILHANTE
Há muito tempo atrás, quando o lobo rondava pelas florestas, a cotovia cantava no céu, e o mundo dos homens era cheio de mistérios e maravilhas, vivia uma mulher de grande sabedoria e poder conhecida como Cerridwen.
Cerridwen tinha um filho chamado Afagddu. Infelizmente, para o desgosto de sua mãe, o garoto não era nem bonito nem inteligente. E se sua feiura ofendia sua mãe, sua total falta de inteligência era pior ainda, então ela resolveu usar todas as habilidades mágicas a sua disposição para dar à ele o dom de toda sabedoria.
Sem perda de tempo a Deusa então começou a trabalhar, procurando em todos os seus livros de Arte da Fadas. Ela procurou até que, finalmente, entre os segredos de Virgílio, o gaulês, ela descobriu uma fórmula para fazer o Caldeirão da Inspiração.
Muitos ingredientes eram necessários para que a poção funcionasse - temperos, incenso, prata, trigo, mel, frutas silvestres e ervas, todas colhidas em seus momentos de maior potência de acordo com a posição das estrelas. Tudo isso Cerridwen colocou em seu caldeirão e - como o livro mandava - ela colocou no fogo para cozinhar por um ano e um dia, ao final do qual, marcado pelo aparecimento da lua, as primeiras três gotas deste Caldeirão da Inspiração dariam toda a sabedoria do mundo a quem as provasse.
Tendo preparado a mistura, Cerridwen ordenou a seu servo, um garoto chamado Gwion Bach para cuidar do caldeirão, mexendo a mistura enquanto a mesma cozinhava até que o período determinado terminasse. Gwion obedeceu e, dia e noite, ficou sentado ao lado do cadeirão fervente, mexendo diligentemente a mistura, que cada dia tornava-se mais forte. Finalmente, quando o período de um ano e um dia estava quase para terminar, três gotas da poção acidentalmente saltaram do caldeirão fervente em seu dedo - as três gotas destinadas a Afagddu, filho de Cerridwen.
Sem pensar, Gwion Bach levou o dedo aos lábios para aliviar a dor, e a dádiva de todo o saber tornou-se sua. Ele sabia, de repente, tudo que havia sido e tudo que haveria de ser. Entendia o que murmurava o vento e o que o corvo havia predito. Sabia porque a espuma do mar era branca e sua água salgada, porque o eco responde a si mesmo e quantos pingos há numa chuva. Sabia porque uma mãe ama sua criança e quais são os desejos e medos existentes no coração dos homens. E Gwion estava certo de que, como o sol brilha de dia e a lua durante a noite - que Cerridwen tentaria mata-lo.
Ele rapidamente saltou de seu banquinho, quebrando o caldeirão e fazendo com que seu conteúdo, agora um veneno mortal, vazasse. O som do caldeirão quebrando alertou Cerridwen que, já sabendo o que acontecera, começou a caçar Gwion.
Gwion Bach então transformou-se numa lebre e correu pelos campos. Mas Cerridwen transformou-se num cão de caça e seguiu seu cheiro, e a caçada continuou.
Gwion Bach então transformou-se num peixe e saltou na água. Mas Cerridwen transformou-se numa lontra e mergulhou, e a caçada continuou.
Gwion Bach transformou-se então numa pomba e voou. Mas Cerridwen transformou-se num falcão, e a caçada continuou.
Por fim, quando estava para ser pego, Gwion Bach transformou-se num grão de trigo e jogou-se numa pilha de grãos. Mas Cerridwen se transformou numa galinha negra e ciscou o monte até encontrar o grão de trigo no qual Gwion se transformara e, feito isso, engoliu-o inteiro.
Aquele grão de trigo ficou na barriga de Cerridwen por nove meses inteiros, período após o qual ela deu à luz um bebê. E apesar da criança ser meiga e possuir grande beleza, Cerridwen não conseguia ama-lo, então enrolou-o numa sacola de couro e jogou-o no mar.
A sacola de couro flutuou para longe seguindo o vai e vem das ondas, o vai e vem das marés, o vai e vem das estações, enquanto a cada dia o bebe crescia mais. E o oceano ninou o bebe, mantendo-o seguro em seu coração, até que chegasse o tempo dele ser encontrado.
Quando a Véspera de 1o de maio (May Eve) chegou, as ondas carregaram a sacola para a costa do Reino de Gwaelod, e lá deixou a sacola nas redes de pesca do Rei Gwyddno Garanhir, que reinava naquelas terras.
Era um costume do rei, nesta data, para aumentar a quantia pescada de alguém que ele quisesse favorecer, esta pessoa podia receberia a grande quantidade de peixes que as redes reais sempre pescavam naquela data, entre a costa entre Divi e Aberystwyth. Naquele ano, o rei decidira dar este direito a seu filho Elphin, um triste rapaz cujo destino sempre pareceu azarado, esperando assim que alguma sorte cruzasse seu caminho.
Assim, naquele May Eve, Elphin foi à costa verificar o que o mar havia deixado para ele nas redes de seu pai. Para sua tristeza, entretanto, ele notou que nada havia nas redes reais, nada além de um velha e surrada sacola de couro, descorada pela água do mar.
Apesar de amaldiçoar seu azar pelo ocorrido, Elphin abriu a sacola - e dentro dela viu um bebê cuja beleza nunca vira antes, e este possuía uma face tão radiante que, ao vê-lo, Elphin exclamou - Tâl iesin, que significa 'face radiante'. Com isso dando nome ao garoto, que passou a chamar-se Taliesin.
Elphin colocou o jovem Taliesin na sela atras dele e calmamente seguiu para casa. E apesar de desapontado por estar voltando sem nem um salmão somente enquanto outros antes dele houvessem encontrado as redes cheias, ele sentiu a tristeza dar lugar ao deslumbre ao ouvir o bebê atras dele cantar uma poesia de consolo, a qual dizia a Elphin que aquele havia sido o dia de mais sorte em sua vida, e que ele, Taliesin, seria para ele de mais serventia do que trezentos salmões.
Elphin correu ao castelo de seu pai, levando Taliesin ao rei e anunciando que ele havia conseguido algo melhor do que salmões - que ele havia pescado uma criança maravilhosa, um jovem bardo.
E quando o rei perguntou a Taliesin quem era ele e de onde havia vindo, foi com tais Palavras de Poder que ele respondeu:
'Eu vim da terra das estrelas de verão.
Estive com Noé durante o diluvio
E eu cantarei minha canção até o
final dos tempos.
Eu fui um salmão na rede,
um peixe na água, uma lebre nos campos,
uma pomba no ar.
Eu fui uma águia, um touro, um garanhão,
uma cobra,
um machado e uma espada.
Eu fui o cordel da harpa
do bardo.
Fui a espuma do mar
e as gotas de uma chuva.
Eu fui um grão de trigo que cresceu
numa montanha.
Três vezes eu nasci.
Meu nome é Taliesin.'
Nunca palavras tão belas havia saído dos lábios de alguém tão jovem, e o rei, assim como todos em sua corte, ficou maravilhado.
E Taliesin foi criado por Elphin e sua esposa desde o dia em que entrou na casa de Elphin, trazendo sorte a ele.
Mais tarde, com treze anos de idade, ele libertou Elphin, que havia sido aprisionado por seu tio Maelgan, confundindo os bardos de Maelgan com uma charada, criando um vento tempestuoso que levaram abaixo as muralhas do castelo, e dissolvendo as correntes de Elphin com uma música.
Nascido uma vez um garoto que provou três Gotas de Inspiração, crescido uma vez como grão de trigo, e uma vez entregue do coração do oceano, o três-vezes nascido Taliesin da Face Brilhante deve - se podemos crer em suas palavras - ainda estar conosco, no som das folhas ao vento, no relincho do garanhão e no pio da águia, no som das ondas chegando a praia, ou em qualquer outra forma que sua eterna presença escolha habitar.
Beltane
Beltane (may eve) foi a data do 'segundo nascimento' de Taliesin. Esta data, junto com a data exatamente oposta, Samhain, divide a metade escura do ano celta da metade clara.
Quebras na Roda do Tempo
Não é coincidência que Taliesin tenha sido entregue nas redes de Gwyddno justamente em May Eve - na inicio da noite de May Day (1o de maio) - esta, afinal, é uma data muito significativa no calendário celta. É o festival de Beltane, que marca o início do Samradh, a metade do ano referente ao verão, que vai até o Halloween, ou Samhain. Estes momentos por sua vez são limítrofes, quando a existência mantém-se entre dois estados energéticos, produzindo uma 'quebra' na Roda do Tempo e fazendo com que as regras que normalmente governam o mundo físico fiquem temporariamente suspensas, criando uma fissura na no tecido da realidade por onde o Outro Mundo passa a acessar o reino dos vivos.
Como Samhain, Beltane também é um momento estranho, de grande poder e magia.
Foi em Beltane, por exemplo, que os Tuatha Dé Danann, os deuses Celtas da Irlanda e ancestrais do povo das fadas, chegaram a Irlanda em suas carruagens de nuvem.
Um Povo da Noite
O fato de Taliesin ter sido descoberto no que os calendários modernos têm como May Eve (Véspera de Maio), ao invés de May Day (1o de Maio), está relacionado à maneira dos celtas de contar os dias. O dia, para eles, não começava a meia-noite, como ocorre atualmente, mas sim no poente do que, para nós, seria o dia anterior. Desde modo, a Véspera de Maio (May Eve) era considerado o início de Beltane. Foi esta maneira única de calcular os dias que levou os romanos a se referiram aos celtas da Gália como 'um povo noturno'.
Um Ano e Um Dia
O fato dos dias começarem no poente e de manter um calendário se mostra neste mito no período de 'um ano e um dia' que caldeirão deveria ficar cozinhando. Muito comum nos contos-de-fada, esta divisão aparentemente sem lógica refere-se a divisão lunar do ano. Se dividirmos um ano de 365 dias em ciclos lunares de 28 dias, isto nos dará 13 'Luas' e ainda sobrará um dia.
De: History of Myths Retold
Autora: Diane Ferguson
Traduzido e adaptado por: Gian Celli
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