
produção sueca de 1921 - mudo, em p&b.
duração: aprox. 80 min.
Sonorizado por Paulo Beto, músico e sonoplasta brasileiro especialista em sonorização de filmes mudos.
"Um dos filmes mais impressionantes do período mudo nórdico, em que
Christensen resgatou o espírito das telas de Hieronymous Bosch, Callot e
Goya para criar um inferno assustador e de notável senso plástico."
É um clássico. E, como tal, é bom que seja visto; talvez não como entretenimento, mas sim como cultura. Desperta a mente e a sensibilidade não somente dos interessados em Feitiçaria e apreciadores do Expressionismo, mas também dos que se interessam por Psicologia, Psiquiatria, Anti-psiquiatria, Michel Foucault e temas correlatos.
Levando-se em consideração os limitados recursos cinematográficos disponíveis na época, são incríveis (e também risíveis, claro) os “efeitos especiais” criados para ilustrar os supostos poderes atribuídos às Bruxas e ao Diabo no imaginário popular. George Lucas não faria melhor.
Häxan compara a caça às bruxas na Idade Média, em parte movida pela repulsa e o medo que causavam as bruxas, com a segregação que sofrem as mulheres da terceira idade, de baixa renda da sociedade moderna. E associa a estes mesmos determinados segmentos sociais as ditas bruxas de outrora. Ou seja, na Idade Média, como em 1920, e, o pior, como agora...a mulher velha, pobre, e/ou “louca” (ou seja, o indivíduo desviante do padrão, não apenas do sexo feminino, mas este é o gênero enfocado pelo cineasta, até porque, até bem pouco tempo, a Bruxaria, estava, indiscutivelmente, muito mais associada à mulher) repugna tanto a ponto de ser considerada como portadora do malefício, portanto, precisa ser apartada da sociedade.
O filme denota que a perseguição ao divergente não acabou e pode culminar, até, no extermínio. Portanto, suscita questionamentos sobre o que fazemos uns aos outros aqui e agora, afinal, a Inquisição pode assumir várias formas.
Um outro aspecto muito importante deste filme, é que, na década de 20, temos o início de descobertas na Psiquiatria como a da Histeria, doença atribuída somente às mulheres, o “furor uterino” que passou inclusive a ser uma forma de expressar conceitos depreciativos sobre aspectos do comportamento feminino socialmente indesejável; e, em Häxan, temos a analogia entre os métodos de identificação desta doença de caráter estigmatizante e sexista (exatamente como o é a perseguição às bruxas) com os métodos utilizados pelos inquisidores medievais para identificar suas vítimas. Entre eles, buscar pontos insensíveis em seus corpos espetando-as com agulhas. Um dos sintomas do transtorno afetivo chamado então de histeria, era insensibilidade em algumas áreas do corpo.
Com o dedo em riste, o médico dava o diagnóstico irrefutável e inescapável, e, como o veredicto do inquisidor, procede-se à condenação da pessoa ao confinamento, às torturas e a todo o subseqüente antiqüíssimo ritual de expurgo do socialmente “inadequado”. |