
Em 2005 foi lançado aqui no Brasil um livro que só agora tive a oportunidade de ler: “O Gene de Deus”, de Dean Hamer, geneticista americano doutor em Harvard e ganhador de vários prêmios. Fiquei tão empolgada com a idéia do livro que não podia deixar de comentar aqui com vocês. Em resumo geral, o autor afirma ter encontrado um gene, entre muitos, que é o responsável pela nossa espiritualidade. Mas como isso funciona?
A grande maioria das pessoas, principalmente entre os leitores do nosso site, apresenta alguma forma de espiritualidade. Ela é uma das forças mais onipresentes da vida humana, estando presente desde os mais antigos habitantes desse nosso planeta. Ela é uma das heranças genéticas fundamentais, assim como o instinto. Mas por se um trabalho científico, o primeiro obstáculo era como medir a espiritualidade?
A espiritualidade é uma atividade extremamente pessoal. Envolve sentimentos, idéias e revelações pessoais, normalmente difíceis, se não impossíveis, de descrever, quanto mais compartilhar. Ao contrário da espiritualidade, a religião não se transmite primariamente por genes, mas por memes: unidades culturais auto-reprodutíveis, conceitos passados de uma pessoa para outra por meio da escrita, da fala, de rituais e imitações. Embora sejam nossos genes, inicialmente, que nos tornem receptivos à espiritualidade e à fé, são nossos memes que transmitem a religião de uma geração para outra e que diferenciam as religiões entre si. Ou seja, medir quantas vezes uma pessoa vai à igreja, ou reza, não nos dará uma quantificação de sua espiritualidade.
O autor resolveu utilizar uma medida desenvolvida por Robert Cloninger, chamada de autotranscendência. A autotranscendência é um termo usado para descrever sentimentos espirituais independentes da religiosidade tradicional. Ela trata do cerne da crença espiritual: a natureza do universo e onde nos encontramos nesse universo. Ela é composta por três aspectos: o auto-esquecimento, a identificação transpessoal e o misticismo.
Nessas férias resolvemos arrumar o nosso templo no sítio. Após acordar e tomar o café, íamos para o templo munidos de pincéis e tintas para decorarmos as paredes. Quando olhávamos no relógio, já eram 3 horas da tarde. Apesar do calor, a atividade era tão prazerosa que o tempo passou e nem percebemos. Alguma vez você já ficou tão envolvido com seu trabalho que até se esqueceu de onde estava ou de que horas eram? A maioria das pessoas passa por esse tipo de experiência ao menos algumas vezes na vida. As pessoas espiritualizadas tendem a passar por elas mais freqüentemente. Uma atividade ou assunto se torna tão fascinante que você se deixa absorver por inteiro. A noção de espaço e tempo se evapora, os problemas e preocupações desaparecem. A concentração é direcionada e torna-se plena. É o que pode ser chamado de “estado de fluxo”. Auto-esquecimento significa ter, regularmente, esse tipo de “fluxo”.
Há pessoas que possuem um sentimento de conexão com o universo e com tudo o que há nele – animado e inanimado, humano e não-humano, toda e qualquer coisa que possa ser vista, ouvida, cheirada ou percebida de qualquer outra maneira. Às vezes sentimos que tudo faz parte de um único organismo vivo. Esse é o conceito da identificação transpessoal. É ela que nos leva a fazer sacrifícios para ajudar os outros, a nos sensibilizarmos com coisas que não nos afetam de forma direta. Um exemplo disso foi o que aconteceu no final do ano passado, quando o país inteiro enviou roupas, alimentos, produtos de limpeza, brinquedos e até água mineral para as vítimas das chuvas em Santa Catarina.
O terceiro aspecto da autotranscendência é o misticismo. Eu vou me usar como exemplo. Sempre fui uma pessoa super cética, com uma formação científica forte e um caráter um tanto contestador. No entanto, muitas vezes sinto uma conexão com coisas que não posso explicar. É uma poesia ou um texto que me toca a alma, que me emociona. A idéia do misticismo é esse fascínio por coisas que a ciência não pode explicar. É ver uma mancha na janela e lembrar de Nossa Senhora, ou uma vaga de estacionamento no momento exato como prova da existência de um poder superior. É acreditar em milagres. O misticismo é a parte da espiritualidade que tem ligação mais clara com a espiritualidade e as religiões tradicionais, devido ao fato de englobar a crença no sobrenatural. Mas não é preciso ser religioso para ser místico. Albert Eistein é um exemplo disso.
“A emoção religiosa mais bela e profunda que nos é possível vivenciar é a sensação do místico. E essa misticidade é o poder de toda ciência verdadeira. Se existe algo como um conceito de Deus, esse é um espírito sutil, e não uma imagem de um homem, como tantos têm definida na mente. Minha religião, em essência, consiste em uma humilde admiração por ilimitado espírito superior, que se revela nos pequenos detalhes, os quais somos capazes de perceber em nossa mente frágil e impotente”.
Em resumo, a autotranscendência proporciona uma medida numérica da capacidade das pessoas de ir além de si mesmas, de ver tudo o que existe como parte de um grande todo.
Então aplicando um questionário com questões como: Já esteve tão apaixonado por alguém, que teve a sensação de que eram um só? (auto-esquecimento); Você se preocupa em preservar plantas e animais? (identificação transpessoal) e Você freqüentemente se emociona com um bom discurso? (misticismo); em pares de gêmeos e irmãos, o autor conseguiu obter provas de que as a autotranscendência era um fator fortemente hereditário: gêmeos idênticos obtiveram uma pontuação em autotranscendência muito mais parecida, já que partilham do mesmo código genético, do que pares de irmãos que, apesar de terem sido criado no mesmo ambiente, partilham apenas 50% das informações contidas no DNA. Um aspecto interessante, e que não pode ser explicado até o momento, é que as mulheres obtiveram uma pontuação cerca de 18% maior em autotranscendência do que os homens.
Tendo estabelecido esse fator hereditário, o próximo passo seria estudar os genes que fazem com que as pessoas tenham fé. Mas como achar um único gene, ou melhor, uma diferença nesse gene entre as pessoas, no meio de 35 mil genes??? Mesmo que se conhecesse a função bioquímica de todos os genes, não se pode simplesmente observar a seqüência do genoma e dizer onde os genes de Deus se encontram. É preciso ter uma lista de genes adequados para serem pesquisados.
Algumas pistas levaram os cientistas à escolha dos genes. A farmacologia deu uma ajuda. Embora não existam drogas que influenciem diretamente a espiritualidade, há várias que parecem, pelo menos superficialmente, aumentar ou imitar o estado de alteração da consciência no cerne do misticismo e da autotranscendência. Todas essas drogam agem no cérebro sobre um conjunto de substâncias químicas conhecido como monoaminas (como a serotonina e a dopamina). O ponto de partida para a pesquisa foi procurar por genes que influenciassem os sinais das monoaminas no cérebro. O gene escolhido foi o VMAT2, que codificava uma proteína que agrupava todas as monoaminas em vesículas secretoras. Depois de se analisar as amostras de DNA de 1.001 pessoas, os resultados foram surpreendentes.
Havia uma associação clara entre o polimorfismo (variação genética) do VMAT2 e a autotranscendência. Aqueles que tinham um C no DNA (em um dos cromossomos ou em ambos), tiveram pontuações significativamente mais altas do que aqueles que possuíam um A. A variação do gene contendo um C estava presente em apenas 28% dos cromossomos, contra os 72% restantes que carregavam um A. Mas como tanto o genótipo CC como o CA (um vem do pai e o outro da mãe) tinham mostrado um aumento nas pontuações de autotranscendência, em comparação com o genótipo AA, concluiu-se que 47% das pessoas que participaram do estudo faziam parte do grupo que apresentava alta espiritualidade, enquanto os 53% restantes estavam no grupo de baixa espiritualidade, resultados que corroboravam os índices de autotranscendência obtidos nos questionários preliminares. Embora esse gene provavelmente não tornasse alguém um santo, profeta ou vidente, parecia que sua presença era suficiente para influenciar as escalas de espiritualidade e a predisposição à espiritualidade.
Mas como esse gene funciona? As monoaminas desempenham um papel importante na consciência ao agregar valor às percepções. São as monoaminas que provocam as sensações de prazer e sofrimento, e as sensações intermediárias a elas, em relação às pessoas, ao ambiente e às experiências. Sem elas, não haveria significado para aquilo que realizamos ou para as experiências que vivemos.
Imagine duas pessoas sentadas lado a lado no banco de uma Igreja. Ao ouvir o coro entoando canções de louvor, os dois concentram toda sua energia mental na área de associação do cérebro. O resultado é a diminuição das atividades da área de orientação, resultando em vários níveis diferentes de excitação mental, dependendo de cada indivíduo. Em uma pessoa, com a versão AA do gene, esses sinais geram apenas uma modesta alteração na sinalização da monoamina. É provável que a mente dessa pessoa divague sobre questões como o porquê dos bancos das igrejas serem sempre feitos de uma madeira ou o que vamos ter para o almoço. Já a outra pessoa possui a versão CC do gene. Nela, os mesmos sinais causam efeitos mais drásticos, os fluxos de dopamina, serotonina e noradrenalina entram e saem das vesículas, alterando a comunicação entre as regiões do cérebro. Essas mudanças causam nessa pessoa uma profunda sensação de alegria, satisfação e paz.
É por essa razão que sentimentos de espiritualidade estão relacionados às emoções em vez de ao intelecto. Nós não entendemos Deus; nós o sentimos.
Mas quais as vantagens seletivas, ou por que os humanos evoluíram com esse gene? Seria ele um simples efeito colateral da evolução da mente ou nos oferece uma vantagem evolutiva mais direta? Um dos papéis mais importantes do gene de Deus na seleção natural é proporcionar aos seres humanos um senso de otimismo inato. O otimismo é a vontade de continuar vivendo e procriando apesar de a morte ser, afinal, inevitável. O otimismo e a fé parecem promover uma saúde melhor e uma recuperação mais rápida de doenças, vantagens que nos ajudariam a viver o suficiente para ter e criar filhos e, assim, transmitir nossa herança genética.
A idéia de que a espiritualidade é herdada geneticamente não é nova. Em As mascaras de Deus, de Joseph Campbell, um xamã tungue afirmou: “Uma pessoa não pode se tornar um xamã se nunca houve um xamã em sua família”. Essa relação tem sentido. A espiritualidade está mais relacionada à maneira como concebemos o mundo e o papel que nele desempenhamos, um processo intermediado pela consciência. Alterando-se a consciência de uma pessoa, pode-se ajuda-la a perceber que ela não é o centro do universo e que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Não faz diferença se essa alteração foi causada por uma variação na seqüência do DNA do gene VMAT2, por uma droga como a psilocibina ou por uma experiência mística vivenciada após anos de meditação. O que realmente importa é ter uma nova visão de mundo.
Nossos genes podem nos predispor a acreditar. Mas eles não nos dizem em que acreditar. Não importa se é Jesus Cristo, Alá, Shiva ou Apollo, o mais importante é sentir-se parte desse universo divino.
Em 2005 foi lançado aqui no Brasil um livro que só agora tive a oportunidade de ler: “O Gene de Deus”, de Dean Hamer, geneticista americano doutor em Harvard e ganhador de vários prêmios. Fiquei tão empolgada com a idéia do livro que não podia deixar de comentar aqui com vocês. Em resumo geral, o autor afirma ter encontrado um gene, entre muitos, que é o responsável pela nossa espiritualidade. Mas como isso funciona?
A grande maioria das pessoas, principalmente entre os leitores do nosso site, apresenta alguma forma de espiritualidade. Ela é uma das forças mais onipresentes da vida humana, estando presente desde os mais antigos habitantes desse nosso planeta. Ela é uma das heranças genéticas fundamentais, assim como o instinto. Mas por se um trabalho científico, o primeiro obstáculo era como medir a espiritualidade?
A espiritualidade é uma atividade extremamente pessoal. Envolve sentimentos, idéias e revelações pessoais, normalmente difíceis, se não impossíveis, de descrever, quanto mais compartilhar. Ao contrário da espiritualidade, a religião não se transmite primariamente por genes, mas por memes: unidades culturais auto-reprodutíveis, conceitos passados de uma pessoa para outra por meio da escrita, da fala, de rituais e imitações. Embora sejam nossos genes, inicialmente, que nos tornem receptivos à espiritualidade e à fé, são nossos memes que transmitem a religião de uma geração para outra e que diferenciam as religiões entre si. Ou seja, medir quantas vezes uma pessoa vai à igreja, ou reza, não nos dará uma quantificação de sua espiritualidade.
O autor resolveu utilizar uma medida desenvolvida por Robert Cloninger, chamada de autotranscendência. A autotranscendência é um termo usado para descrever sentimentos espirituais independentes da religiosidade tradicional. Ela trata do cerne da crença espiritual: a natureza do universo e onde nos encontramos nesse universo. Ela é composta por três aspectos: o auto-esquecimento, a identificação transpessoal e o misticismo.
Nessas férias resolvemos arrumar o nosso templo no sítio. Após acordar e tomar o café, íamos para o templo munidos de pincéis e tintas para decorarmos as paredes. Quando olhávamos no relógio, já eram 3 horas da tarde. Apesar do calor, a atividade era tão prazerosa que o tempo passou e nem percebemos. Alguma vez você já ficou tão envolvido com seu trabalho que até se esqueceu de onde estava ou de que horas eram? A maioria das pessoas passa por esse tipo de experiência ao menos algumas vezes na vida. As pessoas espiritualizadas tendem a passar por elas mais freqüentemente. Uma atividade ou assunto se torna tão fascinante que você se deixa absorver por inteiro. A noção de espaço e tempo se evapora, os problemas e preocupações desaparecem. A concentração é direcionada e torna-se plena. É o que pode ser chamado de “estado de fluxo”. Auto-esquecimento significa ter, regularmente, esse tipo de “fluxo”.
Há pessoas que possuem um sentimento de conexão com o universo e com tudo o que há nele – animado e inanimado, humano e não-humano, toda e qualquer coisa que possa ser vista, ouvida, cheirada ou percebida de qualquer outra maneira. Às vezes sentimos que tudo faz parte de um único organismo vivo. Esse é o conceito da identificação transpessoal. É ela que nos leva a fazer sacrifícios para ajudar os outros, a nos sensibilizarmos com coisas que não nos afetam de forma direta. Um exemplo disso foi o que aconteceu no final do ano passado, quando o país inteiro enviou roupas, alimentos, produtos de limpeza, brinquedos e até água mineral para as vítimas das chuvas em Santa Catarina.
O terceiro aspecto da autotranscendência é o misticismo. Eu vou me usar como exemplo. Sempre fui uma pessoa super cética, com uma formação científica forte e um caráter um tanto contestador. No entanto, muitas vezes sinto uma conexão com coisas que não posso explicar. É uma poesia ou um texto que me toca a alma, que me emociona. A idéia do misticismo é esse fascínio por coisas que a ciência não pode explicar. É ver uma mancha na janela e lembrar de Nossa Senhora, ou uma vaga de estacionamento no momento exato como prova da existência de um poder superior. É acreditar em milagres. O misticismo é a parte da espiritualidade que tem ligação mais clara com a espiritualidade e as religiões tradicionais, devido ao fato de englobar a crença no sobrenatural. Mas não é preciso ser religioso para ser místico. Albert Eistein é um exemplo disso.
“A emoção religiosa mais bela e profunda que nos é possível vivenciar é a sensação do místico. E essa misticidade é o poder de toda ciência verdadeira. Se existe algo como um conceito de Deus, esse é um espírito sutil, e não uma imagem de um homem, como tantos têm definida na mente. Minha religião, em essência, consiste em uma humilde admiração por ilimitado espírito superior, que se revela nos pequenos detalhes, os quais somos capazes de perceber em nossa mente frágil e impotente”.
Em resumo, a autotranscendência proporciona uma medida numérica da capacidade das pessoas de ir além de si mesmas, de ver tudo o que existe como parte de um grande todo.
Então aplicando um questionário com questões como: Já esteve tão apaixonado por alguém, que teve a sensação de que eram um só? (auto-esquecimento); Você se preocupa em preservar plantas e animais? (identificação transpessoal) e Você freqüentemente se emociona com um bom discurso? (misticismo); em pares de gêmeos e irmãos, o autor conseguiu obter provas de que as a autotranscendência era um fator fortemente hereditário: gêmeos idênticos obtiveram uma pontuação em autotranscendência muito mais parecida, já que partilham do mesmo código genético, do que pares de irmãos que, apesar de terem sido criado no mesmo ambiente, partilham apenas 50% das informações contidas no DNA. Um aspecto interessante, e que não pode ser explicado até o momento, é que as mulheres obtiveram uma pontuação cerca de 18% maior em autotranscendência do que os homens.
Tendo estabelecido esse fator hereditário, o próximo passo seria estudar os genes que fazem com que as pessoas tenham fé. Mas como achar um único gene, ou melhor, uma diferença nesse gene entre as pessoas, no meio de 35 mil genes??? Mesmo que se conhecesse a função bioquímica de todos os genes, não se pode simplesmente observar a seqüência do genoma e dizer onde os genes de Deus se encontram. É preciso ter uma lista de genes adequados para serem pesquisados.
Algumas pistas levaram os cientistas à escolha dos genes. A farmacologia deu uma ajuda. Embora não existam drogas que influenciem diretamente a espiritualidade, há várias que parecem, pelo menos superficialmente, aumentar ou imitar o estado de alteração da consciência no cerne do misticismo e da autotranscendência. Todas essas drogam agem no cérebro sobre um conjunto de substâncias químicas conhecido como monoaminas (como a serotonina e a dopamina). O ponto de partida para a pesquisa foi procurar por genes que influenciassem os sinais das monoaminas no cérebro. O gene escolhido foi o VMAT2, que codificava uma proteína que agrupava todas as monoaminas em vesículas secretoras. Depois de se analisar as amostras de DNA de 1.001 pessoas, os resultados foram surpreendentes.
Havia uma associação clara entre o polimorfismo (variação genética) do VMAT2 e a autotranscendência. Aqueles que tinham um C no DNA (em um dos cromossomos ou em ambos), tiveram pontuações significativamente mais altas do que aqueles que possuíam um A. A variação do gene contendo um C estava presente em apenas 28% dos cromossomos, contra os 72% restantes que carregavam um A. Mas como tanto o genótipo CC como o CA (um vem do pai e o outro da mãe) tinham mostrado um aumento nas pontuações de autotranscendência, em comparação com o genótipo AA, concluiu-se que 47% das pessoas que participaram do estudo faziam parte do grupo que apresentava alta espiritualidade, enquanto os 53% restantes estavam no grupo de baixa espiritualidade, resultados que corroboravam os índices de autotranscendência obtidos nos questionários preliminares. Embora esse gene provavelmente não tornasse alguém um santo, profeta ou vidente, parecia que sua presença era suficiente para influenciar as escalas de espiritualidade e a predisposição à espiritualidade.
Mas como esse gene funciona? As monoaminas desempenham um papel importante na consciência ao agregar valor às percepções. São as monoaminas que provocam as sensações de prazer e sofrimento, e as sensações intermediárias a elas, em relação às pessoas, ao ambiente e às experiências. Sem elas, não haveria significado para aquilo que realizamos ou para as experiências que vivemos.
Imagine duas pessoas sentadas lado a lado no banco de uma Igreja. Ao ouvir o coro entoando canções de louvor, os dois concentram toda sua energia mental na área de associação do cérebro. O resultado é a diminuição das atividades da área de orientação, resultando em vários níveis diferentes de excitação mental, dependendo de cada indivíduo. Em uma pessoa, com a versão AA do gene, esses sinais geram apenas uma modesta alteração na sinalização da monoamina. É provável que a mente dessa pessoa divague sobre questões como o porquê dos bancos das igrejas serem sempre feitos de uma madeira ou o que vamos ter para o almoço. Já a outra pessoa possui a versão CC do gene. Nela, os mesmos sinais causam efeitos mais drásticos, os fluxos de dopamina, serotonina e noradrenalina entram e saem das vesículas, alterando a comunicação entre as regiões do cérebro. Essas mudanças causam nessa pessoa uma profunda sensação de alegria, satisfação e paz.
É por essa razão que sentimentos de espiritualidade estão relacionados às emoções em vez de ao intelecto. Nós não entendemos Deus; nós o sentimos.
Mas quais as vantagens seletivas, ou por que os humanos evoluíram com esse gene? Seria ele um simples efeito colateral da evolução da mente ou nos oferece uma vantagem evolutiva mais direta? Um dos papéis mais importantes do gene de Deus na seleção natural é proporcionar aos seres humanos um senso de otimismo inato. O otimismo é a vontade de continuar vivendo e procriando apesar de a morte ser, afinal, inevitável. O otimismo e a fé parecem promover uma saúde melhor e uma recuperação mais rápida de doenças, vantagens que nos ajudariam a viver o suficiente para ter e criar filhos e, assim, transmitir nossa herança genética.
A idéia de que a espiritualidade é herdada geneticamente não é nova. Em As mascaras de Deus, de Joseph Campbell, um xamã tungue afirmou: “Uma pessoa não pode se tornar um xamã se nunca houve um xamã em sua família”. Essa relação tem sentido. A espiritualidade está mais relacionada à maneira como concebemos o mundo e o papel que nele desempenhamos, um processo intermediado pela consciência. Alterando-se a consciência de uma pessoa, pode-se ajuda-la a perceber que ela não é o centro do universo e que as coisas nem sempre são o que parecem ser. Não faz diferença se essa alteração foi causada por uma variação na seqüência do DNA do gene VMAT2, por uma droga como a psilocibina ou por uma experiência mística vivenciada após anos de meditação. O que realmente importa é ter uma nova visão de mundo.
Nossos genes podem nos predispor a acreditar. Mas eles não nos dizem em que acreditar. Não importa se é Jesus Cristo, Alá, Shiva ou Apollo, o mais importante é sentir-se parte desse universo divino.
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