Na minha última coluna, comecei a falar sobre as Mahavidyas, as deusas da sabedoria, que emanaram de Parvati quando, após uma discussão com Shiva, ele tentou fugir. Para evitar que isso acontecesse, a deusa se dividiu em 10 e cada uma ficou em uma direção, cercando o Grande Senhor. Elas representam a verdade essencial, e mostraram para Shiva o poder feminino.
Já falei de: Kali, Tara, Shodashi, Bhuvaneshvari e Chinnamasta. Agora vou dar prosseguimento à lista.
Bhairavi - A deusa da deterioração
Criação e destruição são dois aspectos essenciais do universo, que está continuamente sujeito a essa alternância. Ambos são igualmente dominantes e dependem de si mutuamente. Bhairavi incorpora o aspecto da destruição e se torna presente sempre que o corpo começa a decair. Ela é a deusa dos hábitos destrutivos, como comer comida tamásica (comida associada a ignorância e luxúria) e beber álcool, que enfraquecem o corpo e a mente. Dizem que Ela também está presente na perda de sêmen, pois isso enfraquece o homem (pelo menos temporariamente). Raiva, ciúme e outros sentimentos egoístas fortalecem a presença de Bhairavi no mundo enquanto que um comportamento correto a deixa mais fraca. Resumindo, ela é uma deusa que está sempre presente, e que corporifica os aspectos destrutivos do mundo. Mas sabemos que destruição não é negativo e que, sem ela, não há criação. Isso fica claro no processo de nutrição e metabolismo, quando a vida se alimenta da morte, afinal de contas a criação só se dá através da energia transformada da destruição.
Bhairavi também é identificada com Kalaratri, um nome associado com Kali que significa "noite negra" e se refere ao aspecto destrutivo de Kali.
Ela também é identificada com Mahapralaya, a grande dissolução que acontece no final de um ciclo cósmico, quando todas as coisas, após terem sido consumidas em fogo, são dissolvidas nas águas da procriação. Ela é a força que leva à dissolução e que está presente em cada pessoa à medida que envelhecemos, enfraquecemos e finalmente morremos. Destruição está em todo lugar, e por isso Bhairavi também está presente em todo lugar.
Dhumawati, a Deusa que se faz viúva
Dhumawati é feia, instável e irritada. Ela é alta e se veste com roupas sujas. Suas orelhas são feias e grosseiras, ela tem dentes grandes e seus seios são caídos. Ela é nariguda. Ela tem a forma de uma viúva. Ela anda em uma carroça decorada com o emblema de um corvo. Seus olhos são assustadores e suas mãos tremem. Em uma mão ela carrega uma cesta e com a outra ela faz um gesto de conferir dádivas. Sua natureza é rude. Ela está sempre com fome e sede, e insatisfeita. Ela gosta de criar conflito e tem uma aparência horrível.
A lenda da origem de Dhumawati diz que uma vez, quando Sati (primeira esposa de Shiva) estava morando com ele nos Himalaias, ela ficou com muita fome e pediu a ele algo para comer. Quando ele se recusou a dar-lhe comida, ela disse: "Bem, então eu vou ter que comer você". Depois ela engoliu Shiva, e ficou viúva. Ele a persuadiu a devolvê-lo, e quando ela fez isso, ele a amaldiçoou, condenando-a a assumir a figura da viúva Dhumawati. Esse mito explica a tendência destrutiva de Dhumawati. Sua fome só é satisfeita quando ela consome Shiva, seu marido e que em si contém todo o mundo. Ela é a incorporação dos desejos insatisfeitos. Ela se faz viúva engolindo Shiva, o que pode ser considerado um ato de independência.
O corvo, que aparece como seu emblema na carroça, é um comedor compulsivo e um símbolo da morte. Na verdade, ela mesma parece um corvo.
A cesta que ela carrega na mão representa sua necessidade de discernir a essência interior das realidades ilusórias das formas exteriores. Suas roupas foram tiradas de um cadáver do campo de cremação. Dizem que ela é a corporificação da guna Tamas, as qualidades associadas a luxúria e ignorância. Ela gosta de bebidas alcoólicas e carne, ambos tamásicos. Dhumawati também é interpretada como o aspecto da realidade que é velho, feio e repulsivo. Além disso ela é geralmente associada com tudo o que não é auspicioso e acredita-se que mora nas áreas desoladas da terra, como desertos, em casas abandonadas, em disputas, em crianças de luto, na fome e na sede, e principalmente, em viúvas.
Bagalamukhi, a Deusa que trava a língua
A lenda por trás da origem da deusa Bagalamukhi é a seguinte:
Um demônio chamado Madan realizou sacrifícios pessoais e ganhou a dádiva de vak siddhi, e tudo o que ele dizia acontecia. Ele abusou desse dom, assediando pessoas inocentes. Enfurecidos com esse comportamento, os deuses chamaram Bagalamukhi. Ela parou o demônio segurando sua língua e impedindo suas palavras.
Mas, antes que ela pudesse matá-lo, ele pediu para ser adorado juntamente com ela, e ela cedeu. Por isso ele é mostrado com ela. Quase sempre a deusa é representada nesse ato, segurando um porrete em uma mão, com o qual ela abate seu inimigo, e com a outra mão puxando sua língua. Nesse mito, ao parar a língua do demônio, ela exercita seu poder sobre a fala e seu poder de congelar, paralisar.
Esse ato de puxar a língua do demônio é único e cheio de significado. A língua, órgão da fala e do paladar, é geralmente considerada como uma entidade de mentiras, ocultando o que está na mente. Por isso, puxar a língua é um símbolo da Deusa removendo o que é na verdade um perpetuador do mal.
Matangi, a Deusa que ama impureza
Uma vez Parvati, sentada no colo de Shiva, disse a ele que ele semrpe dava tudo o que ela pedia e que agora ela desejava visitar seu pai. Ele deixaria que ela fosse ver seu pai Himalaia? Shiva não ficou muito contente com a idéia, mas no final acabou por deixa-la ir, mas disse que se não voltasse em alguns dias ele iria lá para faze-la voltar. A mão de Parvati enviou uma carruagem para levar Parvati à casa de sua família. Como ela não voltou depois de alguns dias, Shiva disfarçou-se de artesão e foi para a casa de seu sogro. Ele vendeu ornamentos de conchas para Parvati e, querendo testar sua lealdade, pediu para que ela fizesse sexo com ele como forma de pagamento. Parvati ficou indignada com o pedido do mercador e estava pronta para amaldiçoa-lo, mas ela percebeu que esse vendedor de ornamentos era na verdade seu marido, Shiva. Sem dizer que sabia sua identidade, ela disse: "Tudo bem, mas não agora".
Um tempo depois Parvati se disfarçou de caçadora e foi à casa de Shiva, onde ele se preparava para fazer as orações vespertinas. Ela dançou, vestida de vermelho. Seu corpo era gracioso, seus olhos eram belos e seus seios eram grandes.
Ao admira-la, Shiva perguntou: "Quem é você?". Ela respondeu: "Eu sou a filha de um Chandala. Eu vim aqui pra fazer penitência." Ao dizer isso, ele pegou sua mão, beijou-a, e se preparou para fazer amor com ela. Enquanto eles faziam amor, Shiva transformou-se em um Chandala. Nesse momento ele percebeu que a mulher era a sua esposa Parvati. Depois que eles fizeram amor, Parvati pediu a Shiva uma dádiva, que ele concedeu. Seu pedido foi: "Como você (Shiva) fez amor comigo na forma de uma Chandalini, essa forma deve durar para sempre e ser conhecida como Uccishtha-matangini (agora conhecida popularmente como Matangi)."
A chave para essa lenda é a palavra Chandala. Os Chandalas são considerados a casta mais baixa na crença Hindu.
Associados com morte e impureza, eles sempre sobreviveram às margens da sociedade. O rótulo Chandala é extremamente depreciativo, e se tornou um dos piores tipos de ofensa. Assim, ao se disfarçar como Chandalini, Parvati assume a identidade de uma pessoa de casta muito baixa, e ao sentir-se atraído, Shiva permite-se identificar com ela. Ambas as deidades conscientemente se associam com a periferia da sociedade e cultura Hindus. A identidade Chandala é então sacralizada, com o surgimento da deusa Matangi. Essa deusa resume em si o impuro e o proibido.
Outro mito relacionado a Matangi reforça essa crença. Uma vez, Vishnu e Lakshmi foram visitar Shiva e Parvati. Eles presentearam Shiva e Parvati com comidas finas, e alguns pedaços caíram no chão. Desses restos surgiu uma dama dotada de belos atributos. Ela pediu os restos de comida (uccishtha). As quatro deidades ofereceram-lhe os restos como prasada (a comida que se torna sagrada após ter sido provada pelas deidades). Shiva então disse à bela moça: "Aqueles que repetirem seu mantra e a adorarem, terão suas atividades frutificadas. Eles serão capazes de controlar seus inimigos e conseguir seus objetos de desejo." Desse momento em diante essa dama ficou conhecida como Uccishtha-matangini. Ela é a doadora de todas as dádivas.
Essa lenda enfatiza a associação de Matangi com restos de comida, que são geralmente considerados muito impuros. Na verdade, ela emerge das sobras da mesa de Shiva e Parvati. E a primeira coisa que ela pede é o sustento na forma de restos de comida (uccishtha). Os textos que descrevem sua adoração especificam que os devotos devem oferecer-lhe uccishtha com suas mão e bocas manchados com restos de comida. Ou seja, os adoradores devem estar em um estado de impureza, sem se lavar depois de terem comido. Isso é uma reversão aos protocolos de adoração a deidades.
Geralmente os devotos são cuidadosos em oferecer comida pura ou comida que a deidade gosta. Depois que a deidade comeu, a comida é considerada abençoada e volta ao devoto para se partilhada, e acredita-se que essa comida tenha as graças da deidade. Esse ritual enfatiza a posição inferior do devoto, que serve à deidade e aceita seus restos como algo a ser prezado. No caso da Matangi ocorre o inverso, e os adoradores a presenteiam com seus próprios restos impuros e eles mesmos estão em um estado de impureza quando fazem isso.
Em alguns rituais as pessoas lhe oferecem uma peça de roupa manchada com sangue menstrual para conseguir a dádiva de ser capaz de atrair alguém. O sangue menstrual é um tabu na realização de funções religiosas, mas no caso da Matangi esses tabus são desconsiderados.
Kamala, a última mas não a menor
Kamala, como a décima e última das Deusas da Sabedoria, mostra a completa revelação do poder da deusa na esfera material. Ela é tanto o começo como o fim de nossa adoração à deusa.
Ela tem uma pele bonita e dourada. Ela está sendo banhada por quatro elefantes que derramam jatos de néctar sobre ela. Em suas quatro mãos ela segura duas lótus e faz os sinais de doação de dádivas e segurança. Ela veste uma coroa resplandecente e um vestido de seda.
O nome Kamala significa "aquela do lótus" e é um epíteto comum da Deusa Lakshmi. Na realidade, Kamala é a deusa Lakshmi. Apesar de ser listada como a última das Mahavidyas, ela é a mais conhecida e popular. Vários festivais anuais são realizados em sua honra. Um desses, o Diwali, é o mais celebrado. Esse festival relaciona Lakshmi a três temas interrelacionados: prosperidade e riqueza, fertilidade e colheita, e boa sorte durante o ano vindouro.
Os elefantes jorrando néctar nela são símbolos de soberania e fertilidade. Eles expressam a associação de Kamala com essas qualidades muito desejadas.
Apesar de ser equivalente a Lakshmi, existem diferenças importantes quando Kamala é incluída no grupo das Mahavidyas. A mais importante é que ela nunca é descrita ou mostrada acompanhando Vishnu, que geralmente é sua companhia constante e dominante em todas as suas representações.
Diferente de Lakshmi, Kamala é quase que completamente removida do contexto do casamento. Ela não faz o papel de esposa e sua associação com comportamentos dhármicos e sociais não é importante no contexto Mahavidya. Aqui, o importante é a independência da deusa. As Mahavidyas são vistas como deusas poderosas por si mesmas. Seu poder e autoridade não derivam da associação com as deidades masculinas. Ao invés disso, é o seu poder que penetra nos deuses e os capacita a realizar suas funções cósmicas. Quando as deidades masculinas são mostradas, elas são papéis coadjuvantes.
Conclusões
É impressionante como a temática feminina e as mulheres são o centro do conceito das Mahavidyas. Elas são mostradas dominando divindades masculinas. Kali e Tara estão sobre Shiva, enquanto outras como a Shodashi estã sentada no corpo de Shiva que está deitado em um leito cujas pernas são quatro deidades masculinas. Além disso, nenhuma das Mahavidyas é mostrada como a esposa ou consorte tradicionais. Até mesmo Lakshmi, que é amplamente conhecida por sua posição como a esposa leal de Vishnu é mostrada sozinha. É de se notar também que as cabeças cortadas que decoram o corpo da deusa são masculinas, assim como os cadáveres que estão abaixo delas.
Os textos tântricos sempre mencionam a importância de se reverenciar as mulheres. O Kaulavali Tantra diz que todas as mulheres devem ser vistas como manifestações de Mahadevi (A Grande Deusa). O Nila Tantra afirma que você pode abandonar pais, gurus e até mesmo deidades antes de insultar uma mulher.
A pergunta que fica no final é: Por que alguém iria querer adorar uma deusa como Kali, Chinnamasta, Dhumawati, Bhairavi ou Matangi, sendo que cada uma incorpora qualidades marginais, impuras ou subversivas à sociedade? Essas deusas são assustadoras e perigosas. Elas geralmente ameaçam a ordem social. Em suas associações com a morte, violência, impureza e papéis sociais marginais e desprezados, elas põem em dúvida os "bons" sociais como conforto, segurança, respeito e honra. A adoração a essas deusas sugere que o devoto experimenta uma espiritualidade libertadora em tudo o que é proibido pelas ordens sociais estabelecidas.
O objetivo principal aqui, de acordo com a crença Tântrica, é aumentar a nossa consciência para além do convencional, nos desvencilhar das normas sociais, papéis e expectativas. Ao subverter, ridicularizar ou rejeitar as convenções sociais, o adepto busca liberar sua consciência do que é herdade, imposto e provavelmente inibe as categorias de apropriado e inapropriado, bom e mau, impuro e puro.
Viver nossas vidas de acordo com as regras de pureza e impureza, e casta e classe social que ditam como, onde e exatamente de que maneira todas as funções corporais devem ser exercidas, e com quais pessoas podemos, ou não, interagir socialmente, pode criar uma sensação de aprisionamento do que queremos escapar. Talvez essas deusas, por serem marginais, bizarras e estranhas, facilitem essa fuga. Ao nos identificarmos com o proibido ou marginalizado, podemos adquirir uma nova perspectiva da cela de respeitabilidade e previsibilidade. Uma aventura mística, sem a qual qualquer jornada espiritual ficaria incompleta.
Referências Bibliográficas:
· Danielou, Alain. The Myths and Gods of India: Vermont, 1991.
· Frawley, David. Tantric Yoga and The Wisdom Goddesses: Delhi, 1999.
· Jansen, Eva Rudy. O Livro das Imagens Hinduístas: os Deuses e Seus Símbolos: Ed. Totalidade, 1995.
· Kinsley, David. Tantric Visions of the Divine Feminine: New Delhi,1997.
· Kumar, Nitin. Wisdom Goddesses - Mahavidyas and the Assertion of Femininity in Indian Thought. Exotic India, 2002.
Sarasvati
Publicado em 02.03.2008
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