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Sarasvati



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* A Força Criadora

 

Na tradição hinduísta dravidiana (pré-ariana), Shiva é a força idealizadora do mundo. É a força centrífuga, a explosão, o princípio de tudo, o próprio Big Bang. No entanto toda essa energia de nada serviria e se dissiparia pelo mundo sem um poder executivo, uma força de coesão, centrípeta. Essa energia, que permite a organização da matéria, é a contrapartida feminina do deus, sua primeira manifestação. Essa energia é Shakti. Sem ela, Shiva é um "corpo sem vida" (sem Shakti, Shiva é shava).

Imaginem então dois pólos opostos, duas energias (centrífuga e centrípeta, masculina e feminina). Só que o mundo não é energia, e sim matéria (energia organizada no espaço-tempo). A matéria é a corrente que une esses dois pólos. A substância da criação não é Shiva nem Shakti, mas sim a centelha que jorra entre eles, a atração (râga), o gozo (ânanda), o prazer (kâma), o amor. A união sexual de duas energias opostas é a própria criação do universo. O gozo é a matéria do mundo, é o que nos aproxima dos deuses.

A união sexual tem como objetivo primário o gozo, a criação do mundo. A reprodução e a fecundidade são apenas conseqüência. A união de Shiva e Shakti é estéril. Apesar de fazerem sexo por milênios, eles não têm nenhum filho juntos. Shiva fez Skanda sozinho. Durante sua união com Shakti, os outros deuses acharam que ambos estavam se tornando muito poderosos, afinal sexo é a criação da matéria do mundo, e resolveram interromper. Quando abriu a porta, Shiva deixou cair uma gota de seu sêmen, que Agni engoliu. Mas como conter o esperma divino? Nem mesmo o Fogo Sacrificial (Agni) agüentou segurar tamanha energia e acabou por deixar cair essa semente sagrada em um rio onde se banhavam sete mulheres. Elas engravidaram e assim nasceu Skanda. Shakti também tem seu próprio filho Ganesha, o Senhor das Portas, sem a ajuda de Shiva. Isso nos remete à união de Zeus e Hera, a representação máxima do casal divino, que mesmo após uma lua-de-mel que durou trezentos anos, não possuem filhos juntos.

Essa visão hindu da criação do mundo também é muito parecida com a visão européia pré-ariana. No princípio havia o Caos, a energia da explosão, a força masculina. Mas foi Eurínome que, com sua dança (a força centrípeta) criou Eros, a atração. Só assim, através do amor, a matéria do mundo pôde ser criada (leiam "A Eterna Caminhante", de Gwydyon Drake).

Por ser a fonte de todos os aspectos da manifestação, a deusa tem múltiplos nomes e múltiplas formas. Ela é virgem e mãe, terrível e benévola, exterior a nós mesmos e presente em nós mesmos. Quando realizamos rituais que visam realizações imediatas, dirigimo-nos à Ela, que é mãe e amante. Afinal de contas, é ela quem permite a realização da obra criadora. Ela vai interceder junto ao deus, controlar sua imaginação, sua loucura criadora ou destruidora.

Parvati, a consorte de Shiva, um dos aspectos de Shakti, é a deusa das montanhas e senhora dos animais. Ela é filha de Himavat (o Himalaia). É através do cume das montanhas que a energia terrestre sobe aos céus, é onde Céu e Terra se unem, é a ligação de deus com o nosso mundo. As européias Réia/Cibele/Potna Thérion/Magna Mater, a Grande Mãe, também são deusas das montanhas e dos animais. É a montanha que nos deixa mais perto do deus, é a mãe que nos aproxima do deus.

Mas a deusa além de mãe benevolente é também terrível. É dela que tudo surgiu e é para ela que tudo retorna no fim. Esse aspecto da mãe é Kali, a "Potência do Tempo", a morte. Shiva, o destruidor, é associado a Kala, o tempo (o Cronos dos gregos). Kali é a destruidora. Ela também é Durga, a Inacessível. Ela surgiu durante uma guerra, quando todos os deuses se uniram para derrotar um demônio. Ela dança no campo de guerra, matando tudo que se aproxima. A ela eram oferecidas as cabeças dos guerreiros inimigos mortos em batalha.

A morte é um retorno ao seio da mãe, à terra de onde viemos. Kali é invocada por seus fiéis como "Mãe", como protetora. A quem mais se pode implorar clemência, senão à toda-poderosa do Tempo?

Uma outra consorte de Shiva, anterior a Parvati, é Sati, a fidelidade. A lenda dessa união mostra os fracasso da fusão dos panteões dravídico e ariano. Sati é filha do rei-sacerdote ariano Daksha, que tinha aceitado conceder a mão de sua filha para Shiva por razões políticas, para simbolizar a aceitação do antigo deus dravidiano entre os arianos. Ele diz: "A contragosto, instigado por Brahma, concedi minha filha a esse impuro, destruidor dos ritos e das barreiras sociais, que ensina os textos sagrados aos homens mal-nascidos. Ele é um demente, que erra pelos cemitérios, cercado por espíritos malignos. Nu, com os cabelos revoltos, ele ri, chora, cobre-se de cinzas e porta como único ornamento um colar de crânios e de ossadas humanas. É louco, adorado pelos loucos. Possa esse pretenso soberano, o último dos deuses, jamais receber uma parte das oferendas dos sacrifícios." (Bhagavata Purana, IV, caps. 2-7). Ele resolve realizar um sacrifício em honra a todos os deuses, mas exclui Shiva, considerado uma divindade não-védica e impura. Mas mesmo não tendo sido convidada, Sati resolve aparecer na casa do pai durante a cerimônia. Ao ver que não havia ali oferendas reservadas a seu esposo, e insultada pelo pai, ela se matou jogando-se no fogo sacrificial onde os sábios védicos faziam as oblações. Ela representa um aspecto do papel da mulher que deve fidelidade a seu esposo e abandona qualquer laço com sua família e seu clã de origem.

O shaktismo, culto à deusa, é então o culto da força de coesão, a força que mantém o mundo. Após a invasão ariana, esse princípio foi substituído por Vishnu, o mantenedor. Mas esse culto é muito mais antigo e não é exclusivo da Índia. Ele representa a ligação do homem com a mãe, a vagina, a caverna de onde ele saiu.

Sarasvati


Publicado em 12.12.2007

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