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Sarasvati



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"Veto à inteligência"

 

(Embrião humano, cinco a seis dias após a fertilização, chamado de blastocisto)

Já é fato notório que o presidente americano há muito deixou de se interessar pelo futuro da ciência e pensa apenas no que os criacionistas que o apóiam permitem. Mas o que o excelentíssimo senhor Bush fez essa semana passa dos limites. Usando pela primeira vez seu poder de veto, ele decidiu proibir o uso de células-tronco apenas para satisfazer o grupo cristão conservador que o elegeu e reelegeu, para a tristeza de todo o resto do mundo.

O problema maior é que as células-tronco que seriam utilizadas nas pesquisas seriam obtidas dos embriões descartados em clínicas de fertilização. Agora, em vez de terem alguma utilidade, eles simplesmente serão jogados fora.

A maneira como o veto foi anunciado foi o que mais chocou: utilizando o apelo emocional, Bush emitiu sua decisão cercado de crianças que nasceram de embriões que tinham sido descartados depois de tratamentos de fertilidade, antes de serem "adotados" pelos seus pais.

Por que esse veto é tão significativo? A resposta é simples. As células-tronco são como páginas em branco, elas têm o potencial de se converter em qualquer tipo de tecido do corpo humano. Isso abre caminho para o desenvolvimento de terapias contra várias doenças degenerativas e, até mesmo, para a recuperação de pessoas com graves lesões da medula espinhal. Embora existam outras fontes dessas células, as embrionárias são consideradas as mais promissoras para o estudo científico e as possíveis futuras terapias. No Brasil, a Lei de Bioignorância (ops! Desculpem) Biossegurança também restringe as pesquisas a células de embriões congelados em clínicas de reprodução assistida. Por isso, esse veto não é nada mais que uma vergonhosa demonstração de crueldade, hipocrisia e ignorância.

Mas a questão maior por trás disso tudo é moral/ética. O que se alega para limitar as pesquisas de ponta nas ciências biomédicas é que o uso de embriões, mesmo para o combate de moléstias devastadoras e incuráveis, representa a eliminação de vidas humanas. Tsc tsc tsc... Os blastocistos (embriões a serem utilizados) não passam de um aglomerado de algumas centenas de células indistintas e são menores que uma cabeça de alfinete ou que o ponto final dessa frase. Eles não possuem órgãos ou mesmo um sistema nervoso que lhes permitisse experimentar sensações.

Para que o argumento do parágrafo anterior seja válido faz-se necessário, antes de tudo, saber quando a vida começa. Os cientistas, por exemplo, acreditam que a vida humana começa concomitantemente com a autoconsciência, ou seja, com o início da formação do sistema nervoso central. Por isso também se diz que a vida cessa quando cessa a atividade cerebral, quando o ser humano perde a consciência de si. Já a Igreja afirmava, de acordo com Santo Agostinho e São Tomás de Aquino (os principais teólogos da cristandade), que a vida humana se inicia quando o bebê recebe o sopro divino em sua primeira respiração, assim como Deus fez com Adão ao soprar a estátua de barro para dar-lhe vida e alma. Atualmente esse posicionamento mudou. O Vaticano prega que todo o sêmen é sagrado, e por isso a vida humana inicia-se no momento da concepção.

Mas essas divergências filosóficas e científicas de nada importam, já que o Estado e a religião há muito se situam em lados diferentes nas esferas de poderes. Dessa forma, o presidente da maior economia do planeta é obrigado a se abster de proselitismo religioso. Já que a pessoa física só surge em razão do nascimento com vida, o uso de embriões não constitui a eliminação de vida, já que nunca nasceu.

Por isso é deplorável o retrocesso imposto por Bush à ciência. No entanto, nós aqui na terra brasilis só podemos lamentar e esperar que o nosso presidente não escolha Bush como exemplo a ser seguido...

 

Sarasvati
23.07.2006

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