tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia v tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia
tribos de gaia
tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia tribos de gaia
tribos de gaia tribos de gaia
tribos de gaia
tribos de gaia
 
Márcia Frazão




menu menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
menu
 

*"Onde já se viu deixar a casa em casa?"

 

 

Quando saía de casa, Vitalina carregava com ela a casa. E de nada adiantava tentar convencê-la do excesso de carga, porque ela não escutava. Simplesmente trancava os ouvidos e balançava os ombros com desdém, lançando a quem lhe aconselhava o mesmo olhar que dirigia aos estúpidos.

"Onde já se viu deixar a casa em casa?", perguntava com ar de reprovação. Ao conselheiro restava o silêncio e, na medida das hipóteses, a resignação de ajudá-la a carregar a sacola...

Certa vez, um conselheiro mais intrépido, recém-saído de um curso de Física, bem que tentou demonstrar a impossibilidade "física" do deslocamento das casas pela cidade. Vitalina, que naquele dia estava na posse do seu melhor humor ( ou quem sabe interessada nas leis da Física ), deixou que o pobre infeliz traçasse uma profusão de cálculos, retas, curvas, pontilhados, vetores e incógnitas sobre pilhas de papel.

 

Ao chegar na última folha, após uma exaustiva exposição do deslocamento da massa no espaço, o físico arrematou os cálculos com um pomposo resultado: IMPOSSÍVEL! Vitalina ficou por momentos em silêncio, rodando os polegares em direções opostas. Eu, que já conhecia o trajeto desses dedos e sabia muito bem aonde eles podiam chegar, bem que tentei impedir o desfecho, convidando o físico para conhecer as gardênias que acabavam de florescer. Mas os homens de ciência são teimosos e entre gardênias e definições sempre optam pelas últimas. Assim ele preferiu se agarrar aos seus cálculos e fechar os olhos para o trajeto assimétrico da curva dos polegares.

 

Se ele tivesse prestado atenção no movimento dos dedos de Vitalina, não ficaria tão espantado com a resposta que ela deu aos seus cálculos. Se pelo menos tivesse medido a trajetória e o ritmo daquelas curvas, não teria ficado com cara de tolo ao ouvir sua resposta. Ah, se ele tivesse apreendido aquele instante em que as curvas, dando um rodopio no tempo e no espaço, cessaram o movimento com movimento e pararam em lugar nenhum, isso o impediria de expor a face da burrice quando ela, categórica, lhe disse: "Onde já se viu deixar a casa em casa!"

 

Depois dessa resposta, Vitalina virou de costas e foi preparar a casa para um passeio. Na bolsa guardou o banheiro, o quarto e a sala. Na gola do vestido pregou a cozinha com um broche. No bolso da saia abrigou o quintal e os móveis. Abriu as janelas por detrás dos olhos e escancarou as portas do coração. Não levou chaves. Não trancou recintos.

 

Texto extraído de meu livro A Casa da Bruxa, publicado pela Editora Planeta.
 

 

www.marciarfrazao.blogspot.com  (se vc der um pulinho no meu blog eu vou adorar)




<<início<<<Márcia Frazão

|
 
 
 
tribos de gaia