Poucas vezes presenciei o milagre da transubstanciação.
E, embora a professora de catecismo afirmasse que ele acontecia
quando a hóstia era engolida, a explicação
não me convencia. Para mim, o corpo de Cristo não
era uma lâmina insossa, desprovida de volume e líquidos.
Não, definitivamente as hóstias não eram
o corpo de Cristo! Eu já o tinha visto pendurado entre
os seios fartos de Vera. Já o tinha flagrado banhando-se
no rio de suor que descia pelo colo dela. Já tinha testemunhado
seu amor quando, por causa de um abraço mais
apertado de Raimundo, louco de ciúmes ele se cravou
no peito de Vera.
A mancha de sangue nunca mais desgrudou do vestido e ficava
ainda mais nítida com as lavagens. Vera até tentou
tingir a roupa, mas foi em vão. A mancha ficou ainda
mais viva. Com o tempo, o vestido transformou-se num Santo
Sudário doméstico e vieram mulheres em
romaria para vê-lo e tocá-lo. Cristo, aconchegado
entre os seios de Vera, aprovava.
Gostava de ouvi-las reclamando
das patroas e fazendo planos para o Carnaval. Gostava de vê-las
desnudas em frente ao espelho experimentando roupas. Gostava
tanto, que nessas horas a
mancha ficava molhada.
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