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Luciana Onofre



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* Eles e nós

 

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"Debruçada sobre a água contemplo meu reflexo,
E me perco nas sombras que meu corpo causa nela.
Ondas leves e imperceptíveis desfiguram minha face e diluem meus contornos dando-me sombras distorcidas
Minha imagem passa de tênue à difusa
E de repente me sinto sob essas águas
Vendo não mais meu semblante, mas sim através dessa película hídrica o mundo lá fora.
Não sou mais daquele mundo,
Mas sim do outro onde não há limites nem consistências.
Sou liquido que se espalha e umedece tudo.
Minhas partículas deixam de ser minhas e são agora partes do tudo...
Vejo imagens através de mim mesma.
Como espelho aquoso indelével que impotente somente observa,
sem expressar o que sente...".

(Pensamentos Delas, Deles... das Divindades).

Deusas e Deuses foram opositores entre si, em alguns casos como é sabido, e defendiam por meios claros ou escusos seus desejos e premências. Seus domínios e particularidades. Panteões absorveram outros, o difusionismo ajudou e muito... Mas Eles lá estavam, era permitida a devoção pública ou particular...

Civilizações inúmeras se contrapuseram pelas mesmas razões, sucumbiram, e outras sobreviveram, umas caíram no esquecimento e outras permanecem na lembrança graças aos mitos, às mitologias que nos permitem apreendê-las como legado histórico oficial ou não.

Uma outra força se impôs a Eles, e às suas civilizações, uma força mascarada de religiosidade universal, mas movida pela política e poder, e foi o medo dos mortais o maior e melhor aliado para que isso ocorresse, para que o sucesso fosse deles, dos que suplantaram os Antigos e em seu lugar impuseram uma única deidade, um único caminho. Sem o medo, a nova religião monoteísta não teria soterrado crenças tão antigas.


Hoje uma película hídrica nos separa desse mundo, desse então, Deles, e hoje somos o mundo lá fora. Pode ser que Eles não estejam mais neste, como habitantes mortais e concretos, mas o cerne da nossa busca é devolver-lhes a vida mediante nossas crenças e fé... Sejam eles nórdicos, romanos, celtas, etruscos, gregos ou indianos, todos Eles.

Somos o que somos por escolha, não por imposição; decidimos adentrar e aventurar-nos pelos caminhos desconhecidos do Paganismo por que sentimos esse desejo, porque esses mitos, essas Deidades e o seu mundo se espalharam entre nós como partículas invisíveis que agora são partes do nosso tudo.

Permitimos que nossas imagens internas e porque não externas, sofressem alterações e adquirissem outros contornos, os contornos que plenamente fizeram ver reflexos completos e complexos de nós mesmos. Mas que foram alterados por livre e espontânea vontade, a nossa.

Dedicamos semanas, dias, horas infindáveis ao resgate das Suas histórias e lendas, as vivificamos com nossas falas, pensamentos, discursos e debates, com nossas dúvidas e trocas de informações, com a construção de espaços que permitam nossos encontros e desencontros.

Garimpamos em sebos e bibliotecas, na NET, em casa de amigos, e enciclopédias dados que construam nosso quebra-cabeça mitológico, e nós deixem chegar mais perto do mundo das Deidades.

Ficamos entusiasmados com encontros e congressos (mesmo que nem cheguemos perto de poder ir), nós preparamos meses a fio, poupando, imaginando, sonhando, e depois esperando; ao mesmo tempo em que tememos sentir-nos amuados ou envergonhados ao encontrar finalmente em carne e osso outros que como eu ou você, tentam trazer de volta o Paganismo. E ao concretizar esse tão almejado encontro muitos se escondem detrás do espelho como meros observadores, temerosos de dizer palavras erradas ou de pertencer à equipe errada: "Como espelho aquoso indelével que impotente somente observa sem expressar o que sente".

E me pergunto então, se sendo da "tua equipe" ou da "outra equipe", todos buscam o mesmo: o resgate dos Deuses, a liberdade de encontrar-nos com Eles, porque insistir em criar elaboradamente, estrategicamente cisões e desencontros?

Quantas vozes calam por sentir-se divididas entre o porquê devemos fazer parte de equipes do contra e a favor, entre a razão e a emotividade, entre um panteão e outro, um caminho ou outro, e nesses longos silêncios, Eles vão ficando de lado...


Todos nós, tradicionalistas, naturalistas, alexandrinos, gardnerianos, asatrü, streggas, wiccanos, ibéricos, helenistas, de todas as vertentes, hereditários, sem nome, simplesmente, pagãos, todos já tivemos nossa experiência mágica inesquecível. Aquele momento ou instante efêmero pessoal ou não, que nunca será esquecido. E que cisão alguma poderá abstrair ou condenar como não verdadeira ou válida!

Quem não se impregnou de um sentimento infinito de união e partilha ao longo da jornada de encontros (físicos ou virtuais) no Paganismo, de conexões e amizades?


Então qual a razão inquestionável e irrevogável que impede que todos os pagãos possam tentar coexistir? Estamos por um acaso de forma inconsciente permitindo que aqueles tempos idos, onde certa força se sobrepôs a nossa, volte e triunfe por conseguir aplicar a máxima de "dividir para conquistar?".

Recebi ontem um informe sobre um evento cujo nome me deixou pensando por horas "Aldeia Sagrada", li as premissas veiculadas e somente pude concluir que somos a "Aldeia Sagrada" e ainda não percebemos isso.

Tenho a absoluta certeza de que seja qual for o caminho que cada um siga, seja qual for a deidade que seja cultuada, todos, todos mesmo, somos em essência seres bons, seres que possuem infinitas possibilidades de vivenciar o Paganismo.

Para sermos bruxos, pagãos, não devemos por obrigatoriedade fazer cara de mau, vestir sempre a cor preta e usar o sarcasmo como a boa pedida, nem lançar ameaças de maldições irrevogáveis. E muito menos incentivar cisões entre nossa Aldeia Sagrada!

Para ser, temos que permitir a aproximação, o encontro, a partilha, de mente aberta e espírito desarmado...

Se por acaso, alguém não souber retribuir à altura diga: "pequenos detalhes não me atingem".

Mas siga em frente, siga resgatando os Antigos, trazendo-Os de volta do outro mundo, atravessando a barreira que um dia nós afastou Deles.

Acredite, ainda existem muitas pessoas que podem ser amigas, que podem coexistir, mesmo que pertençam a vertentes diferentes.

Bênçãos Deles!

Luciana Onofre
São Luis/MA 2008

Publicado em 12.12.2007

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