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Luciana Onofre



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* O feminino, vida, religiosidade...

 

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O feminino hoje em dia difere da noção que antigamente se possuía ou se lhe proporcionava, pois dependendo da época esse termo assumiu diversas conotações.

Se uma moça ou jovem mulher fosse inquirida sobre a significância deste termo em plena década de 40 ou 50, ela de imediato se remeteria à condição de jugo ou subserviência ante o masculino e a sua capacidade como mulher em manter-se dentro dos padrões que deveria ter para ser considerada como um ser feminino, e para possuir essa catalogação ela deveria corresponder a esse padrão que não fora ditado por outras imagens femininas, mas pela figura masculina patriarcal, ou seja, cumprir com seu dever de fêmea procriadora, administradora do lar e da família, como a abnegação ao casamento e a criação da prole, e geralmente a omissão quanto aos seus desejos e vontades.

Hoje ao referir-nos ao "feminino" acionamos uma gama de significados e significâncias assim como valores que outrora poderiam incorrer na desclassificação da mulher como ser "feminino".

As regras são outras, e dentro do feminino encerramos também a nossa capacidade de procriar, mas sem tê-la como cerne das nossas vidas, encaramos a nossa feminilidade com suavidade e respeito sem ter a obrigação de masculinizar nossas opções para sermos aceitas e absorvidas pelo mundo, nosso universo é mais diverso por que nosso feminino é hoje mais elástico; a maternidade, o lar, o sexo, são complementos não finalidades e dentro dessas opções, nossa capacidade de decisão é mais imperativa do que nunca.

Dentro dessa nova cosmovisão do nosso feminino, o homem aprende a se descobrir também como ser possuidor também desse lado, deixando para atrás a postura severa, sisuda e castradora do homem "macho/machista", que inibe emoções e se dedica somente "a assuntos sérios". Entre os quais a religiosidade ficava excluída se não fosse um "hábito de família" ir à igreja ou aos cultos, mas sem ter um maior envolvimento.

A religiosidade que descobre o "feminino" como eixo permite essa abertura rumo à apreensão e práticas pessoais da religião que se mantêm conexa ao cotidiano, permitindo que o contato com as divindades seja mais próximo, mais vivido, sem ter que esperar pelo dia e hora marcada. E abre as portas para discutir temas que podiam outrora surgir na mente, mas jamais seriam externadas, como questionar os conceitos petrificados de pecado, culpa danação e condena eterna que as religiões centradas no masculino difundiram ao longo dos tempos e terras; assim como a sexualidade e uma nova postura quanto a ela, onde se torna complemento aprazível para ambos, não somente para o homem, nem como exclusivo momento para gestação da prole.

as Permitir uma postura reflexiva religiosa, não implica em "criar" novos conceitos ao gosto do praticante, mas sim ter a liberdade de reconhecer ou não os conceitos já existentes e poder analisá-los sem pressões externas castradoras, mutiladoras do livre pensamento e ação.
Deve ser distinguido este caminho espiritual, da generalização que por anos vem ocorrendo, onde se coloca às crenças matrifocais como sendo a crença wiccaniana, o que é uma assertiva errada, pois nem todo individuo comprometido com a crença matrifocal é por via de regra membro da religião Wicca.
Então deve ser elucidada claramente esta questão. Onde as deidades femininas, e os ritos a Elas celebrados não estão comprometidos exclusivamente com a Wicca.

Descobrir a religiosidade matrifocal, a existência do culto milenar às Deusas, não exclui a crença em divindades masculinas, mas abre lugar e espaço para a fêmea dentro das atividades sacerdotais e ritualísticas. Se aceita, porém a leitura exclusiva do culto às Deusas, sem consorte, sem companheiro, e deve ser respeitado como tal, pois a diversidade dentro do culto à Deusa o permite, sem bandeiras opostas nem opositores que se digladiem em arenas. Mas entendendo a leitura que muitas mulheres optam por realizar, onde o masculino é deixado de lado, por uma série de acontecimentos e escolhas.

No entanto, nesse fazer e acontecer da religiosidade centrada em crenças matrifocais, mesmo que haja hoje uma consciência mais equilibrada quanto a temas de gênero, há quem para esta escolha lance constantes ataques usando uma verborragia chula e que denigre a si mesmo por denotar preconceito e sexismo, quando não ignorância, e à mulher, seja ou não ela seguidora desta crença.

Esse ataque descompenssado, e sem bases, atemoriza a muitos. Muitos, pois nem todo seguidor do culto às Deusas, é do sexo feminino, impedindo que pessoas se identifiquem abertamente com esta prática, e às vezes (muitas vezes) calando e omitindo-se, perante piadas nada simpáticas onde o objeto da crítica é o divino feminino, e a categoria que ele assume dentro da fé e religiosidade de muitos pagãos.


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Então creio eu, hoje o feminino se mostra mais leve e distendido, abrangendo posições que antes resultariam contraditórias à nossa condição de fêmeas.
Ser fêmea e defender o feminino hoje não se torna um estandarte de luta classista, mas um modo de vida operante...

Ser fêmea e pagã hoje é uma opção sem conotações de feminismo tresloucado, nem clube das mulheres, identificar-se com o feminino divino, hoje é uma opção onde cabem homens e mulheres, de todas as idades sem preocupações excludentes nem devaneios...

O Feminino dentro do paganismo permite que todos possam se manifestar, opinar, dialogar, discutir sem medo, nem frases de opressão?

Depende de cada um dos que nessa crença estão envolvidos, do respeito que conseguem gerar dentro de si para com os outros e para consigo mesmo.


E preponderantemente abrir mão de forma definitiva das velhas pré-noções, que dentro de nós possam tentar sobreviver e perpetuar a exclusão, o preconceito, a falsa moralidade e o desrespeito pelas crenças diferentes às nossas.

Bênçãos Deles,

Luciana

Publicado em 05.11.2007


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