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Luciana Onofre



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* Las y los despenadores

 

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A morte, personagem temida e apavorante, nem sempre é ludibriada no momento do seu encontro com o mortal, que com ela tem hora marcada.

Pode parecer tema esdrúxulo, ser entendido como mórbido e obscuro, por uma maioria considerável de pessoas, de pessoas que foram condicionadas a entendê-la como castigo, tortura, pena, fim do tudo.

No entanto, para alguns grupos, que cultuam tradições antiqüíssimas, de reverência quanto a ela, de respeito pelo momento derradeiro, e de práticas distintas às das massas, a morte é vista, não somente com naturalidade, familiaridade, mas como necessária para a continuidade da vida.

Perdidos em distintos pontos do planeta e tendo em comum às suas raízes pagãs, encontramos comunidades, de diversas etnias, povoados esquecidos pelos mapas, e outros mais, extremamente próximos, tanto geograficamente, como na temporalidade, e pequenas cidades "civilizadas" que, em comum guardam um segredo, (com caráter de segredo, pela condena estamental, e religiosa do mundo moderno): a existência de uma figura importante, resguardada do público, detentora de um ofício "sui generis", e incompreendido pelos outros. "La despenadora, el despenador".

Ainda que sob os mesmos meridianos, culturas opostas, convivem com esse ser, de rara profissão, que com aquiescência do moribundo, e da sua família, com um ato final de libertação, (o ato muda com a paisagem, porém com o resultado esperado de sempre), facilitam a partida daquele que se agarra à vida, sem ter condições para vivê-la com dignidade.

Mas então, quem é, o que faz o "despenador e a despenadora"? Chegado o momento correto, a família ou o indivíduo em crise, solicitam, com acuro, os serviços deste, pelos quais nada receberá, além da gratidão e do alívio do grupo.

Estando em lento sofrimento, agônico, em estertores cíclicos, irrecuperável, e tendo sido "desahuciado" pelo médico ou pároco, decide-se a hora da despedida. Membro a membro, em lento desfile, aproximam-se do sofrido corpo, e dizem adeus, um adeus breve, na certeza de um reencontro.

Lágrimas de solitude, de perdão, de desapego, são vertidas por todos. E em presença do profissional da morte, o silêncio se impõe.

Serio e comedido, penetra na morada e deixado a sós com o ancião, ou doente, sem palavras, o acomoda no leito e com movimentos rápidos e precisos, lhe quebra "el espinazo", ou sufoca com as mãos; mas se há entre ambos, algum laço parental, pode em meio à última conversa, onde bailam lembranças, anedotas e estórias, e pontos finais, ministrar-lhe pequena dose de veneno ou submergir suavemente, em águas tranqüilas, e esperar que após alguns minutos curtos, o corpo esteja inerte, sem vida, nem vontades.

O diálogo ocorre antes disto, sem palavras, com olhares, de forma muda; entre o "despenador" e o seu cliente, sem tensões, sem pânico, sem remorsos. Um oferece o fim da dor, o outro sente leveza ao saber que tudo, em frações de segundos, terminará, e poderá "descansar" um pouco antes, de decidir voltar ao mundo.

Concluído o ritual de passagem, o 'despenador' sai em completo mutismo, sem expressar nenhum sentimento. O grupo à espera, rompe em pranto, e agradece a dádiva de ter alguém, tão hábil como ele, em momento tão necessário.
Eis agora a pergunta e resposta: onde estão essas pessoas, onde ocorre tal ato, que em meio ao nosso moderno mundo, pode ser nomeado e catalogado como "eutanásia assistida"?
Em ilhotas do Panamá, muito antes de Colombo aqui aportar, e muito depois de partir. No Mato Grosso (sim aqui, em terras brasileiras), na aldeia dos índios 'bororos'.

Na cidade de Tucumán, Argentina. No México, em Jalisco. No Paraguay, com seus índios "chaquenos". No Sudão, citado em referências feitas por Heródoto. Entre os "arinta", na Austrália. Entre os espartanos, séculos atrás. Na Espanha, com seu "jicarazo" (xícara de chocolate quente e algo mais).

Enfim, em muitas e diversas comunidades. Atuais e antigas. Selvagens e civilizadas. Onde apesar das pressões exercidas pelas crenças cristãs, traços pagãos se manifestam, marcada e ativamente, neste ato, que põe fim, ao "tedium vitae", de alguns, como no caso específico de doentes graves e terminais, e dos idosos, ou da eliminação seletiva (dentro de códigos de ética que para nós resultam violentos e estranhos, como ocorre em certas tribos, onde os xamãs, decidem pela eliminação dos indivíduos dementes ou incapacitados fisicamente, e que ameaçam a sobrevivência do coletivo, em seu entender), ou da dor indomável que toma ao doente.



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A ação do "despenador", é consciente, reconhecida oficialmente dentro dos códigos de conduta do grupo ao que pertence, e aceita, tanto por quem morrerá, como pelos demais personagens que o cercam.

Em toda América do Sul, a figura do "despenador" é respeitada e acreditá-se, seja uma função vitalícia e herdada, assim como se julga que exista desde a época pré-colombina, pois dela, da profissão, há registros históricos que datam desse tempo.
Ainda que perseguidos por autoridades e pela igreja, continuam prestando seus serviços, sempre que solicitados, a um povo que não o encara como pecado venial, nem crime, e sim, como o facilitador da "viagem" para a eternidade "sem peso nem agonia".

Pesquisando em outras terras, e tendo tempo para "garimpar" dados, checar lendas, e histórias, encontramos a personagens semelhantes entre os antigos ibéricos, os celtas, os fenícios, os cartagineses, os gregos, os romanos e os etruscos.
Estas práticas ancestrais, onde não se eleva a morte acima da vida, mas que outorga o direito a uma passagem rápida, a quem após ter vivido, padece longamente, rumo ao outro mundo, perdura após 2.000 anos, de tentativas para apagá-las, para bani-las.

Não é proposta deste artigo, uma apologia à morte, ao suicídio, à eutanásia, muito menos ao assassinato "justificado", a tentativa ou objetivo do mesmo, é informar quanto à existência de outras interpretações e vivências, outros olhares sobre este temido e "inominável" tema: morrer.

Para os gregos, uma vida em péssimas condições não era digna de ser vivida. Para o medievo, esta sentença adquire outra roupagem, a do pecado, já que a "arte da morte" (ars moriendi) era parte da "arte da vida" (ars vivendi) e dela não poderíamos fugir, nem convidá-la a apressar-se.

A "mors repentina et improvisa", condenada, fadada ao inferno eterno. Como conclusão, entendemos, que ela, a morte, é como todos sabem "encontro certeiro", as atitudes perante ao ato de morrer, dependem da forma como se encara o ato de viver.

"El despenador", continuara a percorrer os caminhos dos que já morreram, mas não conseguem se desvencilhar dos seus corpos em falência.

Eles continuarão a ser provas vivas de um oficio, uma tradição herdada do paganismo, que o homem civilizado do século XX e XXI, tenta abolir.

O respeito para o caráter inviolável da vida, faz parte das nossas crenças, e das deles, o respeito a essa figura silenciosa, faz parte das crenças de centenas de culturas, que guardam resquícios do paganismo antigo, que valorizam a vida e permitem tecer um diálogo aberto "com o outro lado" e seu guardião: A Morte.


Bênçãos dos Antigos,


Luciana Onofre


São Luis, janeiro de 2007



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