
O que se percebe em listas de discussão, grupos, ou comunidades cibernéticas é uma forte tendência a apontar erros de outros grupos, a emitir críticas confusas e eufóricas insufladas por conceitos que supostamente estão incorretos, a levantar tópicos ou questões contra as religiões monoteístas ou outras, a incutir segmentarismo, condena a tradições não ortodoxas em suas práticas ou que fogem dos parâmetros propostos pelos autores mais conhecidos ou tidos como 'sábios' da Antiga Arte.
Assim vai evoluindo a discussão proposta em uma série de ataques e defesas de conteúdo duvidoso ou quando não completamente vazio, mas que faz presumir ao envolvido, um saber e ativismo pagão inexistente.
É 'vendida ' ao membro interessado a imagem do pagão revolucionário, crítico, enfático quando não fanático, que sendo assim será o 'respeitado' pelo número de reclames e denuncias contra seus correligionários pagãos. Dando desta forma inicio a "uma caça às bruxas pelas bruxas".
Nessa emotiva e inacabada troca de pontos de vista e lados obscuros, o tempo vai se perdendo em temáticas que nada somam quanto a informações válidas sobre o Paganismo. Dúvidas e indagações normais de serem levantadas e discutidas e que realmente tornariam os grupos e comunidades oportunas e positivas como acionadores de interação e debate entre simpatizantes, praticantes e curiosos, são completamente deixadas de lado ou sequer discutidas.
Sinalizando rumo a uma emergente tomada de atitude e mudança de postura, onde o criticismo deve assumir um caráter qualitativo no quesito conteúdo, e não de ataque/condena ao que difere do conceito apreendido em livros ou demais fontes de informação.
Qual seria essa postura saudável e lucrativa? Empregar os meios, a mídia de forma inteligente e otimizada.
Muitas pessoas sentem-se fascinadas com o universo proposto pelo Paganismo onde a imagem de Deusas e Deuses surgem em infindáveis manifestações, das mais diversas origens e culturas.
Elas, as pessoas, ao estarem em estado de 'maravilhamento' tendem e submergir inteiramente a principio em busca do êxtase advindo desse contato, que para muitos é o primevo com o conceito de divindades plurais, humanizadas e semelhantes em hábitos e costumes, com a diferença logicamente marcante de serem manifestações supranaturais, com poderes superiores aos dos humanos, possuidores de dons mágicos e que devidamente lembrados e cultuados proporcionarão a quem os cultua satisfação espiritual, física e mental.
A compartimentação de suas esferas de atuação e influência pode levar a conceitualização equivocada de que todos os panteões apresentam divindades que regem as mesmas áreas e que por conseqüência são iguais quanto ao escopo particular de cada uma delas. Isto pode,e de fato gera uma onda ilimitada de cultos superficiais, baseados em fórmulas genéricas que se mostram aplicáveis a todas as deidades, sem envolver em pormenores a cultura da qual é oriunda e suas crenças específicas.
Desta forma, pessoas pelo mundo afora passam a correlacionar Deusas e Deuses com elementos e fases lunares, e ritualizam invocando-as a partir da generalidade dessas correlações, eliminando a especificidade de cada uma, o que leva a crer que o ritual ou celebração pode levar a nada, ou inclusive gerar a energia oposta que foi desejada atingir.
Não é suficiente saber o nome e dados superficiais dos deuses invocados, e idealizar uma conexão com esse Deus em base a isso deriva em um apanhado de informações supérfluas e confusas que mutam dependendo da fonte doadora dos conceitos e que termina perdendo força ao longo das simultâneas alterações ou adaptações que o individuo envolvido exerce nelas.
Livros, sites, pessoas, grupos, são responsáveis não somente pela difusão de um conceito e cultura, mas também pela desinformação ou informação equívoca sobre como interagir com as deidades escolhidas como arquétipos ou deidades pessoais com as quais as pessoas tendem a se espelhar, seja pela semelhança quanto a qualidades, admiração ou por Elas exporem aquilo que a pessoa não é, mas deseja ser.

Nessa identificação empática, muitos esquecem intencionalmente, ou por desatenção completa, de iniciar uma relação profunda com uma deidade em específico, que tenda a fazer conhecer no âmago o perfil, a ritualística, a história, o lado sombra e o lado luz, as qualidades e falhas dessa deidade.
Abraçar um sem-número de deuses e deusas, de culturas completamente alheias ao individuo pela gana de celebrar, de invocar, de acionar energias, de participar em rituais abertos ou fechados, banaliza a conexão espiritual que supostamente é o cerne dessas práticas.
Listar nomes de divindades, saber de cor seus nomes, e elementos que elas regem não tornam ninguém detentor de poder e magia, manifesta sim superficialidade, imaturidade e dispersão.
A fórmula válida é tentar adquirir experiência não em práticas aleatórias, mas sim experiência em pesquisa, saber, conhecimento, e permitir-se desacelerar o tempo que urge para cada um, antes de jogar-se nos braços da ritualística.
E a internet e o menu rico em propostas de grupos e comunidades pode ser um caminho gentil para com o buscador de uma espiritualidade em processo crescente numerário e qualitativo.
Não é a quantidade de grupos que surgem o que determina o nível de expansão do Paganismo no Brasil, mas sim o nível dos conteúdos expostos neles, e a relevância ou não que dão a necessidade do abandono de trocas de farpas e espinhos e a abordagem de pesquisa e partilha que possa delas resultar.
Bênçãos dos Antigos e uma boa jornada, frutífera e sapiente em escolhas e debates neste "maravilhoso mundo novo": a internet.
Luciana Onofre
São Luis, MA. 16 de outubro de 2006.
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