
Imagine que você está caminhando no meio da noite, numa noite de Lua Cheia...Seus passos lhe guiam através de uma floresta, você sente sob seus pés a grama orvalhada, úmida e fria; no rosto uma brisa leve lhe traz os odores do verde que lhe cercam. Siga em frente até chegar numa clareira, num espaço aberto iluminado pela Lua em seu ápice, Lua que ilumina uma mulher ou homem que, sem perceber sua presença, realiza um ritual, por você desconhecido...Mas que mesmo assim lhe transmite conforto, familiaridade, satisfação. Que preenche seu ser com um sentimento familiar, peculiar, de aconchego e gozo simultâneo.
Essa mulher-homem solitário naquele momento, cultua os Antigos, representados pela Lua Cheia ou pela natureza e sua mutações... O ritual é em sua honra, eles cercam-se da natureza, porque para seu intento é esse o melhor ambiente, por que ali a conexão com os instintos primevos e livres flui com naturalidade e por que ali, encontra paz e receptividade na terra.
À sua frente você descobre um altar, nele há instrumentos por eles manipulados, esses instrumentos, esses artefatos os empregam para realizar a sua conexão com essa força superior, com os Antigos, com a natureza, com a Terra.
Ao seu redor paira no ar uma energia, uma força que ganham maior intensidade no momento em que aquele ser se direciona, saúda os espíritos da terra, os Ancestrais e executa o que você considera ser uma prece ou algo similar.
Na verdade o que eles fazem naquele momento é uma invocação, um convite a outras energias, um convite para que elas - as energias-, os elementais, os Ancestrais, os Antigos, presenciem aquele ritual. A Eles pertencem aquela força, que antes você sentiu.
Natureza, altar (de pedra, de madeira, de chão), instrumentos (ou sem eles), energias, elementais, invocações, cânticos, deidades, a Deusa, o Deus, a Lua, ou os ciclos da natureza, uma mulher ou homem, tudo isso constituem uma única realidade, uma única estrutura, uma religião: a Bruxaria, o Paganismo, ou nome que você lhe proporciona ou com o qual aprendeu a denominar essas práticas pagãs.
Uma religião que se caracteriza por ser livre, aberta, mutante, flexível, dinâmica, positiva, e crescente, o que a torna desejável e interessante.
Os que dela fazem parte denominam-se pagãos, assim como atendem por outros nomes, streggas, wiccanos, asatrü, bruxos e bruxas naturais, tradicionalistas; homens, mulheres e crianças que se dedicam a realizar rituais de harmonização com a terra, a Mãe Natureza, celebrando-a, retribuindo-lhe o que nos proporciona, demonstrando gratidão e respeito. Homens, mulheres e crianças para os que, rituais como aquele que você acabou de visualizar, fazem parte do seu cotidiano; onde a magia torná-se também elemento marcante e constante.
Magia espontânea, e eficaz, positiva e acessível. Presente na vida do ser humano desde os primórdios da humanidade e que até algum tempo era encarada como um ato inerente à vida, sem a carga de mistificação que hoje lhe é atribuída... É neste ponto que devemos explicar de onde começa e de onde veio a Bruxaria, o que é essa senda espiritual: o Paganismo.
Como foi já exposto o Paganismo é uma vertente religiosa extremamente ligada à natureza, dela se vale para realizar seus rituais e para ela realiza suas celebrações. Dela extrai elementos para sua magia e para sua forma de vida. Por que cabe aqui dizer que o Paganismo vai mais além de uma religião, é um estilo de vida, e isto caso você continue nossa jornada, confirmará e quem sabe vivenciará na prática.
O Paganismo como qualquer outra religião, senda espiritual, possui uma estrutura, um corpo do qual fazem parte as divindades, energias superiores que o pagão cultua que se apresentam de diversas formas dependendo do foco ou maneira como o pagão pratica e celebra, partindo do conceito onde há o Deus que para nós representa o companheiro da nossa Deusa, em alguns casos, mas que não A supera em primazia nem em importância, pois é no equilíbrio que radica a força de ambos em complemento (cabe mencionar que alguns grupos somente enfatizam a polaridade feminina e que isso deve ser respeitado, pois dentro do Paganismo o respeito é uma das premissas que defendemos), e deidades que representam as múltiplas faces da Deusa e do Deus, para alguns ou várias deidades (Deusas e Deuses) que são apreendidos como únicos e plenos de por si, e que escolhemos, ou nós escolhem de acordo às nossas necessidades - afinidades, ou grupos aos quais podemos estar ligados ou não, de forma que aquela deidade escolhida, se identifique com cada um de nós ou com o momento que desejamos celebrar, e em outros casos prevalecem os cultos aos Ancestrais, ou sem menor importância, aos seres ou guardiões da natureza, da terra.
Não é possível demarcar um inicio no tempo para a Bruxaria, ela existe desde o instante em que o ser humano sentiu necessidade de ter controle sobre si mesmo e sobre os elementos da natureza que o cercavam. De que forma fez isso? Com um método muito similar a atual magia de imagens ou ao vodu...
A prova são os afrescos pré-históricos encontrados em muitas cavernas da Europa, África e aqui, na América do Sul, eles desenhavam nas paredes - daquelas cavernas que lhes serviam de lar - os animais sendo subjugados por eles, e assim ao realizar aquele ato "mágico de controle sobre o animal temido" eles transpunham para o mundo real seu desejo de ser mais forte e poderoso, o faziam sem deixar de respeitar o animal -leia-se respeitando a natureza-.
Podemos registrar esse ato, como sendo a primeira magia a ser realizada no nosso planeta.
Surge com essa prática, um personagem central e muito importante na vida daqueles grupos nômades e rudes, o xamã ou sacerdote, ser que servia como intermediador do desejo comum a todos, e as forças que permitiam que esse desejo fosse concretizado. O xamã realizava magia, sendo então considerado, bruxo. Entende-se desta forma, que esse é o começo da Bruxaria como prática e atividade religiosa.
Não podemos, nem devemos concluir apressadamente, que naquele momento, a Wicca, e outras sendas neo-pagãs, também se iniciavam como religião...Ela, a Wicca, não possui a antiguidade pré-histórica por muitos divulgada, ela possui sim, familiaridade com o Xamanismo, ela é também Bruxaria, e por essa razão pode considerar, esse longínquo começo - lá na pré-história, com o homem das cavernas - como sendo parte da sua ancestralidade como religião pagã, como sendo um significativo fragmento da sua história.
Permito-me citar a Wicca neste artigo, por ter sido esse o caminho de apresentação que me foi dado pelos Deuses para o Paganismo.
Sigamos nossa explanação sobre a Bruxaria. Teve seu inicio quase que com o surgimento da humanidade e seguiu acompanhando seu desenvolvimento e com ele aperfeiçoando-se e dispersando-se pelo mundo; com isto foi ganhando características próprias ao grupo em que se desenvolvia e também diversidade, por pertencer a mais de um grupo ou etnia. Aqui creio pertinente dizer que considerando esse começo, esse inicio, se torna incongruente dizer, afirmar que Bruxaria somente é aquela que pode ser rastreada até a Europa ou a origens indo-européias, pois estaríamos descartando as demais manifestações da Bruxaria, como as praticas africanas, asiáticas, americanas (do sul, centro e norte), as da Oceania, em fim muitas outras.
Nos primórdios, apresentava-se extremamente ligada à natureza, a seus ciclos, e a sobrevivência dos clãs ou grupos. Servia quase que exclusivamente como meio de garantir a existência daquele povo, que sobrevivia daquilo que caçava num principio, e depois daquilo que semeava. Orava, cantava e participava de rituais que visavam aplacar as necessidades da Terra e da Natureza, rituais que objetivavam servir de elo entre o homem e as deidades, rituais em que expressava seu maravilhamento com a Deusa - amante, doadora, protetora, mãe ou ceifadora da vida-, com o Deus, caçador, provedor, protetor, fecundador, Senhor, e assim, ele, o ser humano, prestava suas homenagens, acalmava as forças a ele superiores e cimentava as bases da primeira religião na terra, a Bruxaria. Como vemos, lá nas nossas raízes, todos começamos pagãos!
A Bruxaria segue seu trajeto ao longo da história sem muitos tropeços até que um imperador romano, chamado Constantino, condena toda e qualquer prática considerada por ele pagã, o que engloba todas as religiões que não fossem o cristianismo. Nega por tanto, as suas próprias raízes, já que é sabido por todos, que os romanos cultuavam mais de um deus, e não somente deidades masculinas como muitíssimas femininas, e que praticavam magia também no seu dia a dia.
Ocorre, aqui, a primeira grande perseguição de caráter religioso, onde muitos seres humanos se viram obrigados a negar seus deuses e crenças em troca da liberdade e do direito de viver e muitos outros perderam seus bens, famílias e vidas por não negarem sua religião.
Chegamos ao medievo, que por vários historiadores é considerado um período obscuro e difícil, e não por ser um período perdido no tempo, mas por ter mergulhado à humanidade nas trevas - nada a ver com a noção de trevas do cristianismo - mas sim das trevas da ignorância e atraso.
Isso se deve, ao fato de que o poder, em todos os sentidos, pertencia a um único senhor: a Igreja. Senhor que, para manter-se no poder, passa a conquistar reinos, não somente no que se refere a territórios e geografia, mas a conquistar reis e monarcas e desta forma impor sua religião, banindo as práticas pagãs que impediam que a nova religião, o cristianismo, prevalece-se. Lares são saqueados, à procura de ídolos ou demônios, palavra por eles empregada para referir-se a nossas deusas e deuses, famílias destruídas, templos desapropriados e transformados em igrejas e o mais grave, milhares de seres humanos assassinados por causa dessa perseguição sanguinária em nome de um outro deus, tido como benevolente (tal vez o fosse, em algum instante perdido nas brumas do senhor tempo), pena que a seu serviço estavam seres cegos de poder.
É aqui, que a prática da Bruxaria realmente se esconde e quase desaparece da face da terra, pelo menos publicamente deixa de existir.
Pequenos grupos de homens e mulheres, vindos das mais diferentes classes sociais, continuam encontrando-se às escondidas, usando a noite como manto e as florestas como refúgio. É ali, no meio do nada, em plena escuridão que bruxas e bruxos seguem dedicando-se a suas práticas, à magia, aos Antigos e a tudo o que eles representam.
É exatamente naquele ambiente que você poderia, caso viaja-se no tempo, encontrar aquela mulher-homem do nosso relato lá do inicio, era daquela forma que ocorriam os cultos aos Antigos.
Dando um grande pulo no tempo, chegamos ao século XX, mais exatamente à década de 50, na Inglaterra. Naquele momento é revogada a última lei que condenava a prática da Bruxaria.
Surge então um homem, que decide expor ao mundo sua condição de bruxo e mais ainda, divulgar a existência de mais de um grupo, que apesar de tudo, manteve suas crenças, e principalmente, viva a Bruxaria, como prática milenar e hereditária, de forma pública e aberta. Esse homem é Gerald Gardner.
Ele é a pessoa que afirmava ter permitido que o mundo soubesse-se sobre a Bruxaria, sua realidade e sua sobrevivência até os dias de hoje.
Ele divulga ter entrado em contato com um grupo de bruxos, que se mantiveram no anonimato durante séculos a fim de preservar a si mesmos e a Bruxaria, e que o teriam introduzido nesse mundo, que para a maioria era inexistente ou parte das lendas da humanidade.
Afirma ter sido iniciado na antiga Arte e pertencer a um coven antiqüíssimo. É entre tanto, condenado pelo seu grupo, por trazer à tona, segredos que muitos lutaram por manter intactos e "secretos", de fato.
Porém a Bruxaria, como senda espiritual pré-existe a Wicca, acompanha ao ser humano desde o momento do despertar para sua condição de "ser humano", de descoberta quanto ao seu mundo exterior e interior e vai se aperfeiçoando e sendo enriquecida com a evolução psíquica e espiritual do homem, e também com o desenvolvimento sócio-cultural do mesmo.
Ganha cores e matizes, formas e manifestações diversas, mas continua cultuando deidades, encarando a magia de forma natural, inerente a nossa condição humana e permitindo-nos, ser mágicos assim.
Hoje, em voga estão os conceitos que defendem as iniciações, a linhagem, a hereditariedade, conceitos que devem ser respeitados sempre e quando eles mesmos respeitem os conceitos daqueles que fazem parte do universo pagão, que são bruxos e bruxas, mas que não contam com esses itens nos seus "curriculum vitae".
Por que perante Eles somos aquilo que manifestamos no nosso cotidiano, mediante atos, não somente palavras e nomes infindáveis a serem citados.
Uma nova, novíssima geração entra em cena, e me refiro aqui aos filhos dos pagãos do hoje, que amanhã podem optar por seguir nosso caminho, e creio ser por demais negativo e derrotista negar-lhes o direito de ser pagãos como seus pais, pelo fato de terem pais que não possuem linhagem hereditária, ou atestado de autenticidade.
Nessa viagem no tempo, voltamos ao agora, e após ter sentido cheiros, ventos, tempestades e conexões, será que podemos esquecer e deixar de lado essa jornada que veio a nosso encontro e que nos seduziu e despertou o que estava adormecido dentro do nosso espírito?
Bênçãos dos Antigos!
Luciana Onofre
São Luis-MA, junho de 2006
Bibliografia consultada:
O Significado da Bruxaria - Uma introdução ao universo da magia. Gerald Gardner. Ed. Madras. 2004.
Origens da Bruxaria Moderna - A evolução de uma religião pelo mundo. Ann Moura. Ed. Gaia. 2004.
Ritual - Um guia para o Amor, a Vida e a Inspiração. Emma Restall Orr. Ed. Hi-Brasil. 2002.
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