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Luciana Onofre



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* Os Banhos

Desde sempre o ato de banhar-se esteve presente nas vidas de todos os seres humanos. Sendo tido como algo positivo ou negativo, sempre fez parte do cotidiano da humanidade.

Banhos com diversas finalidades, terapêuticas, de higienização, ou ritualísticos, fazem parte da cultura de milhões de pessoas, a milhares de anos. Sejam vistos como atos mecânicos, quase automáticos ou como atos de purificação eles adquirem ao longo da história importância dentro da evolução sócio-cultural do homem.

Na antiga Grécia, eram usados como meios terapêuticos, de cura, de inúmeras doenças físicas ou mentais. A hidroterapia, termo hoje usado para esse tipo de tratamento, já era utilizada com essa finalidade por gregos, romanos e egípcios, entre outras culturas do Oriente.

O ato de banhar-se nessas culturas, representava um instante de relaxamento, regeneração e purificação, onde o homem se harmonizava e restituía sua vitalidade e força física, aliada ao nível de tranqüilidade mental advindos daquele momento.
Esse caráter quase místico se faz ainda mais presente na magia e em suas crenças e práticas.

Usamos o banho como sistema de limpeza, não somente corpórea, mas também astral, espiritual, que nos permite atingir um determinado nível de concentração necessário, para direcionar nossas energias rumo ao objetivo que por nós foi traçado, como um ritual, uma magia, um encantamento ou uma meditação.

O banho em si, a sua preparação e idealização, já se constituem em um ritual, um ritual que se inicia muito antes do momento em que nos molhamos com a mistura por nós preparada.

Neste ritual utilizamos a água como veículo para a alquimia por nós criada, onde misturamos ervas, essências, óleos e a nossa intenção, principalmente. Estes ingredientes mágicos nos aproximam do relaxamento, concentração e conquista de nossos propósitos.

E, o que a principio pode parecer-nos um ato simples de interação entre água e ervas, se constitui em um ato de conhecimento herbário e de magia.

Antes de nos aventurarmos no preparo dos banhos mágicos, devemos tentar adquirir algum conhecimento sobre plantas, métodos de cozimento e sobre outros elementos que também farão parte desse processo, tais como as deidades a serem invocadas ou convidadas, o momento adequado, os aromas corretos, as velas e seus significados, a regência planetária, entre outras coisas.

Transformamos nossos banheiros em santuários de magia, os tornamos o lugar especial da casa onde executaremos o pequeno ritual de limpeza e reconstituição das nossas energias. Por ser um lugar isolado, nele nós sentimos à vontade para realizar nossas práticas mágicas objetivando o bem-estar físico e mental.

Para isso, devemos criar todo um cenário, que nós facilite atingir um nível de compenetração e concentração adequadas para aquele momento.

Usamos velas, incensos ou difusores, selecionando as essências ou aromas compatíveis com o ritual.
Mergulhamos na nossa banheira previamente preparada com nossas misturas especiais ou simplesmente nos banhamos e concluímos usando-as.

Certamente sairemos renovados e energizados, seja qual for o banho selecionado, ele trará bons fluídos e alterará nossa aura e transformará nossa percepção sobre nós mesmos e sobre os outros.

Podemos escolher o banho de acordo ao nosso propósito, tomar um banho de proteção e prevenir-nos de agressões externas; um banho para evitar o mau-olhado e a inveja e estaremos criando um escudo contra as energias negativas. Se necessário tomaremos um banho afrodisíaco para aguçar nossos sentidos e emitir ondas de atração.

O certo é que, para todas as nossas necessidades e desejos, haverá sempre um banho, uma água especial que permitirá realizá-los!

Jamais devemos esquecer que tudo aquilo que faz parte dos nossos banhos advêm da natureza, a água, as ervas e por essa razão é nosso dever, além de reverenciá-la, repor aquilo que dela retiramos e incentivar não somente a nossos conhecidos, como a nossa comunidade a cuidá-la e preservá-la.

Os banhos e a história

Se fizermos uma retrospectiva histórica sobre a evolução da humanidade desde os primórdios, até a atualidade, perceberemos que dentro de nossa cultura o ato de banhar-se sempre esteve presente.

A água como elemento purificador faz parte de rituais simples ou elaborados, seja qual for à orientação religiosa à qual pertença.

Em quase todas as civilizações conhecidas, encontramos na arquitetura de suas cidades, espaços dedicados ao banho.

Na Índia, na cidade de Monhenjo-Daro (2.000 ac), no palácio de Cnossos, em Creta (1.700-1.400 ac), no Egito em Tell el-Amarna (1.350 ac), no território pertencente ao Império Romano, em todas estas regiões, a população encarava o ato de banhar-se como privilegio e contato com seu íntimo e com os Deuses.

No território romano, as termas e banhos eram dedicados quase sempre a uma deidade, havendo em seu interior imagens e altares, constituindo-se assim, em ambiente de celebração e recolhimento religioso.

Com a chegada do cristianismo e a assimilação de seus costumes durante o medievo, manteve-se a princípio o hábito de banhar-se, porém com o tempo a igreja e seus preceitos contra os costumes romanos (pagãos) se impuseram, com suas alegações de que os banhos romanos eram recintos promíscuos, dedicados à perversão e incentivando a população a dar mais importância à limpeza espiritual do que a física.
Lentamente o povo abandona este hábito (o do banho), e dessa forma, até a imponente arquitetura dos banhos públicos caem no esquecimento, privando a todos de seus jardins, salas de massagem, longos corredores, salões, vestuários, salas de exercício e bibliotecas.

Dada toda essa infra-estrutura, podemos constatar a importância que para aquela cultura possuía o banho e a perda que trouxe consigo o abandono incitado pela igreja... Não somente cerceou um hábito saudável, como afastou toda uma população daquele convívio social e cultural, criando uma imagem negativa sobre o corpo humano.

Em diversas outras regiões, a cultura do banho esteve sempre presente; na Escandinávia sobressaíam os banhos a vapor e saunas, preparados em pequenas habitações de madeira, onde as pedras eram aquecidas a altíssimas temperaturas, para depois serem aspergidas com água, criando o vapor.
Os muçulmanos ao ocuparem o sul da Espanha, trouxeram consigo a sua boa contribuição no que se refere ao asseio pessoal, como podemos comprovar na Espanha com o "Baño Real" do Palácio da Alhambra em Granada e os banhos do Palácio de Medinat al-Zahara, em Córdoba.

Do outro lado do mar, na Turquia, encontramos ainda hoje estruturas romanas dedicadas ao banho; hoje conhecidas mundialmente como "banhos turcos", e que se tornaram eventos sociais, aos quais os freqüentadores dedicam com exclusividade, boa parte do seu dia, quando a ele comparecem.

Na Ásia, práticas milenares de banho são características de quase todas as culturas daquela região. No Japão, é uma atividade familiar e interfamiliar; são famosos os banhos de ofurô, os banhos de ervas e as casas de banho japonesas, hoje em dia.

Os banhos e suas mágicas atribuições foram esquecidos e banidos por um longuíssimo período, que se estende desde o início o medievo, até os séculos XVIII e XIX. Época na que foram caindo por água a baixo às duvidosas teorias do cristianismo sobre a higiene e o hábito de banhar-se.
Passamos séculos submersos em águas obscuras de ignorância, intolerância e medo, e podemos afirmar que essa obscuridade não se limitou ao quarto de banho, mas a uma triste época da história da humanidade, onde tudo se transformava em pecado e danação.

Uma época que não somente nós afastou da higiene, mas principalmente nós privou de ter e manter uma relação saudável como nossos corpos, com a natureza e tudo o que ela representa. Ao manter-nos afastados dela, nós manteve afastados de costumes e práticas tidas como pagãs e afastou-nos de nossos deuses e deusas.

A partir do século XIX, restabeleceu-se a prática do banho, e incentivou-se o uso de águas medicinais e de balneários, há então, um "boom" dentro da sociedade, que passa a freqüentá-los, usufruindo maravilhosos complexos turísticos, criados para essas atividades.

Banhos públicos e particulares retornam ao uso geral da população, ao seu cotidiano, tornando o banho um ato natural, necessário e sadio.


Os banhos e a nossa cultura

Fazemos parte de um imenso caldeirão étnico e religioso.
Somos afortunados, porque encaramos a coexistência da nossa diversidade com algo natural e positivo.

Nos deslocamos com facilidade e agilidade entre mundos diferentes e opostos, sem sentirmos culpa ou remorso.
Podemos experimentar e provar situações e momentos que para muitos é negado ainda hoje, em pleno século XXI.

Tudo isto, porque vivemos numa sociedade muito mais tolerante e aberta, do que a maioria das demais, mundo afora.
Estudos e pesquisas apontam o Brasil como sendo um espaço aberto e acessível ao surgimento de religiões e culturas inovadoras ou "paralelas", apontam o Brasil como solo fértil e maduro para a semeadura de inúmeras realidades sócio-culturais; tudo isso facilita que pensamentos sejam expostos, teorias publicadas, e idéias concretizadas.

Nós, pagãos somos testemunhas reais disto...

Pertencemos a um grupo sócio-religioso que em outras terras não possuem a liberdade de expressão e ação que aqui encontramos. Somos parte de um grupo que durante anos, centenas de anos, receberam a denominação de "pagãos" de forma pejorativa, e que hoje usamos o mesmo termo, para identificar-nos como um modo de vida, uma opção religiosa e como indivíduos livres.

Tal vez seja por esta razão, e por nosso histórico, que sabemos -como poucos- apreciar e respeitar as manifestações culturais e religiosas de outros grupos.

Essa diversidade existente de forma única neste país nós permite ter acesso a um extraordinário leque de informações, conhecimento e cultura. E graças a isso, podemos partir para uma abordagem suscinta, sobre os banhos no Brasil, não como ato higienizante, mas como aspecto marcante em algumas das religiões presentes nestas terras.

São conhecidíssimos os banhos preparados nas religiões de origem africana - Umbanda, Candomblé, etc-, os banhos de cheiro da região do Amazonas, os banhos de origem indígena, os banhos ciganos e muitos mais, e é isso tudo o que permite que os banhos mágicos e ritualísticos, praticados por pagãos, sejam aceitos com naturalidade e interesse pela população em geral.

A existência desses banhos na cultura brasileira permite que a crença e a fé nos banhos e ervas seja efetiva de fato, e não somente um ato físico.

É grande a procura que se verifica pelos banhos de ervas e pela reposta que deles se espera, são vistos como efetivadores, realizadores de desejos e protetivos.
Em quase todo mercado ou feira livre, há sempre um espaço oferecendo plantas, raízes, folhagens, em fim, ervas com propriedades curativas ou mágicas, e sua venda é quase sempre certa, pois a procura é estável.

A presença destas bancas de ervas é mais freqüente no norte e nordeste do país, nas demais regiões, elas não são achadas lado a lado das bancas de frutas e legumes, mas sim, em lojas especializadas. Lojas que em quase todo o território nacional, oferecem aos praticantes de magia, uma considerável diversidade de produtos naturais, porém quase sempre em estado desidratado.

A preferência de nove em dez bruxas, é usar aquilo que a natureza nós presenteia fresco e verdinho, viçoso e suculento, porém nada desmerece o uso de ervas desidratadas, até porque nem sempre é fácil encontrar algumas espécies em todas as regiões, e se você desejar algum dia manufaturar os banhos para vendê-los, usará a secagem em suas ervas, certamente.

A venda de banhos já prontos embalados em saquinhos é também muito freqüente, e geralmente são efetivos, claro que cabe a você verificar a idoneidade do produto e sua origem, pois como tudo, há no mercado banhos bons e aqueles nem tão bons!

A preparação dos banhos por você mesma, possui a vantagem de permitir que os ingredientes sejam selecionados e escolhidos pessoalmente e que você se familiarize com o mundo encantado das plantas e aromas essências, sem mencionar a energia que de você emanará, durante o preparo.

No Paganismo, essa familiaridade é uma constante, porque dentro de nossas crenças, o respeito pela natureza e a manipulação de tudo aquilo que dela provêm, é uma das nossas prioridades, assim sendo, conhecer e utilizar produtos de origem vegetal faz parte do nosso dia-a-dia, sendo um prazer verdadeiro dedicar-nos a seu estudo.

Existem à venda, ótimos livros que irão introduzi-los à botânica e a fitoterapia, verdadeiros tratados sobre o aspecto medicinal das plantas regionais e nacionais. Há também, quase sempre na literatura pagã ou de magia natural, seções dedicadas à listagem de ervas, suas aplicações e usos mágicos.

Meu conselho e o de que você procure munir-se do máximo de informação sobre este tema, de forma que você mesmo descubra combinações e fórmulas.

Em algumas regiões do norte e nordeste do país, a preparação dos banhos de cheiro, (de ervas), começam com um dia de antecedência, iniciando com a maceração manual ou cozimento da planta, feito isto, o caldo obtido é deixado para descansar ao ar livre, durante a noite, a fim de colher o orvalho. No dia seguinte, usa-se esse caldo ao final do banho normal e esfregam-se as ervas pelo corpo, mentalizando o problema ou aflição que se deseja afastar.

Menciono este fato porque é mais uma possibilidade de preparo dos nossos banhos e porque certamente temos muito a aprender com a antiga sabedoria popular.

A continuação, apresento uma pequena lista das ervas mais utilizadas nos banhos de cheiro, deixo claro que não são todas as existentes, somente as mais conhecidas:

Arruda (galhos)
Alecrim-de-horta (folhas)
Alfavaca (folhas)
Alho (a planta inteira)
Cedro-rosa (folhas)
Cipó-caboclo (folhas)
Comigo-ninguém-pode (folhas)
Chama (galhos)
Chega-te a mim (folhas)
Cipó-caatinga (folhas)
Carrapatinho de laranjeira (folhas)
Café (grãos, folhas, flores)
Espada-de-são-jorge (folhas)
Babosa (folhas)
Benjoim (folhas)
Cana-de-açúcar (bagaço)
Gervão (folhas)
Guinê-pipi (folhas)
Hortelã-pimenta (folhas)
Jucá (folhas)
Laço-de-amor (folhas)
Lágrimas-de-nossa-senhora (a planta toda)
Limoeiro (folhas)
Louro (folhas)
Louro-rosa(galho) venenoso/não comestível
Mirra (folhas)
Patchulí (galhos)
Piprioca (maços)
Palha benta (galhos)
Palha de alho (pedaços)
Trevo-torcidinho (galhos)
Sucupira (sementes)
Verbena (folhas)
Violeta (pétalas)


Não podería deixar de mencionar estas ervas, nem os banhos de cheiro neste artigo, pois considero que fazem parte a muito tempo da realidade brasileira e merecem reconhecimento e perpetuação dentro desta cultura, jamais caindo no esquecimento, são parte do legado da magia natural.

Então mãos à obra, a preparar banhos, de cheiro, de magia, mas simples e refrescantes!


Luciana Onofre

São Luís/MA, Maio de 2006

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