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Liberia Al Khadir



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*QuinzeMilSetecentosECinquenta!
por Libéria al Khadir

 

Era uma tarde de inverno e chovia muito. Helena olhava as gotas escorrendo pelo vidro da janela e não parava de pensar na razão de seu sofrimento.

Havia um único nome, um único corpo do qual sentia falta... E uma única época e um único dia da semana em que Helena se sentia mais viva, mas isso era passado.
Angustiada e sem ter com que se distrair, lembrou-se da única pessoa em quem confiava e que ela sabia teria paciência em ouvi-la reclamar da própria sorte: o BRUXO!

- Alô?

- Advinha quem é? – Adorava forçar uma voz diferente e ver se aquele “alô” se convertia naquela risada inconfundível que somente um bruxo sabe emitir. Pois todo BRUXO que se presa tem aquele dom de adivinhar as coisas e rapidamente dizer o que você deveria fazer da vida.

- Ah! É aquela moça? Aquela que gosta de se lamentar de vez em quando? – provocou Arthur.

- Talvez sim, talvez não... Diga-me você, que é um BRUXO! Capaz de adivinhar pensamentos, sentimentos... – e ela ria da própria infantilidade.

- HAHAAHAHAHAAH! – Pronto! Arthur dera a gargalhada tão esperada que “quebrava o gelo” e fazia Helena se sentir mais a vontade em falar.

- Diga Helena, estou te ouvindo! – disse o BRUXO.

- Não é nada, não! Na verdade, eu nem queria te incomodar, mas...

- Mas?...

- Quero um conselho seu, uma receita, um jeito de resolver um problema que me angustia...

- Estou te ouvindo... - repetiu ele, aguardando que na puxada do fio, todo o novelo se desenrolasse!

- Não tiro uma pessoa da minha cabeça, Arthur! Todo o lugar que olho eu a vejo... Tudo me lembra ela! – lamentava em tom rouco.

- Sim! – ele parecia conhecer toda a história como se a visse passar diante de seus olhos! Como numa tela de cinema.

- Não consigo trabalhar... Meus dias são monótonos e sem vida. Eu pareço andar em círculos e perco a noção do trajeto repetitivo que faço todos os dias de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Você acredita que às vezes eu me sinto tão fora de mim que pareço nem me lembrar do meu nome? - disse ela após uma longa expiração.

- Sim! Bem, vamos lá! Fale-me um pouco mais sobre esse sentimento de tristeza. Há quanto tempo se sente assim?

- Bom... Terminamos pouco antes do Ano Novo... ELA... Terminou comigo, inclusive... – admitindo sua sensação de impotência frente ao episódio.

- Eu bem que tentei convencê-la do contrário, mas... ela estava cheia de mim! Só sabia apontar meus defeitos... Falar de tudo o que eu tinha de errado... De como me achava volúvel... De como ela tentava sempre chamar minha atenção e que nunca ela se sentia amada e especial de verdade.

- Qual a idade dessa pessoa?

-Ah, bom... um pouco mais nova que eu...Recém completou dezenove anos! – respondeu tentando amenizar a diferença de quase dez anos de idade, que no fundo não importava tanto para ela, mas de alguma forma no fundo incomodava a sintonia de fatores e prioridades que as unia.

- E você tem?... Deixa eu ver....fez 28 em outubro, certo? Escorpião, Helena?... Deixe-me ver se localizo seu mapa aqui... Hã...

- Sim, sou do dia 25. Ascendente em Peixes, Lua em Libra?

- Sim, está aqui. Você me procurou pela última vez em novembro, fez o mapa astral, mas... Ela não deixou que você viesse aqui conversar, certo?

- É verdade... Foi um dos motivos também por que achei melhor terminar... Ciúme, posse! Ela é Ariana, sabe?

- Interessante! Não sabia. E o que te levou a me ligar afinal?

- Ah, Arthur, eu nem sei o que dizer, viu? – a voz rouca novamente.

- É só dizer o que sente, nas profundezas do teu coração... – era assim que ele falava sempre. A voz grave e pausada, como se recitasse um Missal. Mas era forte como a voz de um bruxo deve ser: penetrante, atravessadora, provocante!
Helena desatou a chorar compulsivamente. Precisava aliviar aquela tensão, do contrário a voz não sairia. O Bruxo aguardava pacientemente ela buscar aquelas palavras em meio às lágrimas da rejeição. Como Helena, não se recompunha ele disse:

- Quinze-Mil-Setecentos-e-Cinquenta!

-Quê? – ela respondeu atônita.

- Quin-ze-Mil-Se-te-cen-tos-e-Cin-quen-ta! – ele repetiu mais pausadamente.

- Que número é esse, Arthur? – Ela repetiu o número e curiosa, como todos devem ser com números, perguntou o que significava. Afinal, nada parecia fazer sentido para ela.

- Quinze-Mil-Setecentos-e-Cinquenta é o número de pessoas iguais a essa pessoa por quem você chora. Iguais em semelhança física e psíquica. Iguais no signo e até na data de nascimento, espalhadas pelo mundo todo.

- Como assim? Você está dizendo que ela não é a única? Existem outras iguais?

- Sim. Geneticamente a natureza cria exemplares iguais nas semelhanças físicas e até psíquicas, mas é impossível prever se todas essas - Quinze-Mil-Setecentos-e-Cinquenta – seriam capazes de rejeitá-la também. – complementou o BRUXO com mais uma risada sádica.

- Engraçado Você! Eu aqui me descabelando de chorar, num luto tremendo como se essa pessoa tivesse deixado o mundo dos vivos... E pior! Estou com crise de abstinência! Toda sexta-feira, que é o dia em que eu ia pra casa dela e a gente saía, transava, se curtia, conversava até amanhecer... Nada disso existe mais! Eu sinto um vazio muito grande que nada é capaz de preencher. Eu tentei beber até desmaiar, chorar até não ter mais forças para manter os olhos abertos... Ficar horas no chuveiro ouvindo a água cair até incomodar alguém ou alguém notar a minha falta e reclamar o quanto eu estou demorando no banho, desperdiçando água. Tentei comer chocolates até enjoar! Tentei sair a pé de casa sem rumo, dirigir sem destino... Visitar amigos e tentar esquecer ela, mas nada, nada disso adiantou!

- Sim! Nada supera o vazio de si-mesmo... Nada pode superar a ausência do sentido que você própria atribui á falta... mais do que é capaz de atribuir a vida. – professou o BRUXO.

- Mas dói!... Dói muito!... É uma tristeza que rasga o meu peito! E me faz morrer e renascer todos os dias com mais dor ainda... Amando loucamente, insanamente essa pessoa!

- Sim, Helena. Uma paixão doentia faz isso. Mas não se esqueça, preste muita atenção no que eu vou te dizer agora...

- Sim, tô ouvindo... pode falar... – disse Helena, ainda soluçando.

- A NATUREZA NÃO DESPERDIÇA TESÃO!

- Não entendi...o que significa?

- Não sei! Responda-me você! Eu sou um BRUXO não um Padre. – e complementou com uma gargalhada novamente sádica.

- Você está debochando do meu sofrimento.... – declarou Helena, em tom de birra.

- De forma alguma... Ouça com atenção: A VIDA DE TODO O SER HUMANO É UM CAMINHO EM DIREÇÃO A SI-MESMO. A TENTATIVA DE UM CAMINHO... O SEGUIR DE UM SIMPLES RASTRO! PESSOA ALGUMA CHEGOU A SER COMPLETAMENTE ELA MESMA, MAS MUITOS ASPIRAM EM SÊ-LO... OBSCURAMENTE ALGUNS... OUTROS MAIS CLARAMENTE. CADA QUAL COMO PODE!

Helena suspirou como que tentando engolir alguns comprimidos homeopáticos. Mas ainda se sentia vazia. Vazia de si, vazia da vida. O que fazer? Ela se perguntava? E em meio a um turbilhão de pensamentos lhe ocorreu perguntar:

- Mas porque - Quinze-Mil-Setecentos-e-Cinquenta? De onde você tirou esse número Arthur? Como é possível? Será que eu terei a chance de encontrar outra pessoa igual a essa, mas que me aceite como eu sou e me queira de verdade?

- Helena você pode sentar e esperar como num desfile, onde pessoas entram e saem e você se pergunta: - Talvez essa de verde seja melhor... ou talvez será aquela de preto? OU... Será essa de vermelho? Ou você pode perguntar se é isso mesmo que você busca... parar por alguns segundos e apenas respirar... E perceber...

- Respirar e perceber a mais bonita?

- Talvez seja a mais bonita, talvez a mais inteligente, ou talvez nem uma nem outra.

-Você está me confundindo. Como vou saber? Como terei certeza que é a pessoa certa pra mim?

- Sou um BRUXO não um médico, nem um psicólogo cheio de receitas prontas de como Ser, que remédio tomar ou se você deve arrancar essa ou aquela perna para resolver o problema da dor.

Helena ficou em completo silêncio esperando o que vinha depois...

- Alô?

- Tô aqui, Arthur.
- Helena, façamos o seguinte: Você pode sentar e fechar os olhos?... FAÇA ISSO AGORA MESMO! Está fazendo?

- Sim, estou...

- Pois bem, então é isso que você deve fazer: Fechar os olhos e respirar pro-fun-damente, va-ga-ro-sa-men-te.... E em seguida, visualizar o número: - Quinze-Mil-Setecentos-e-Cinquenta! Visualize cada número, um ao lado do outro. Está vendo?

- Sim, estou: - Quin-ze-Mil-Se-te-cen-tos-e-Cin-quen-ta!

- Muito bom!

- E agora? O que faço? – indagou Helena.

- Agora apague vagorasamente essa imagem da sua mente, como se evaporasse ou usasse um apagador, sabe?

- Sei... mas... Por quê?

- Ora, ora, ora! Você e seus “por quês”, Helena!!!! - Pense nas outras SEIS-BILHÕES-SEISSENTOS-E-SESSENTA-MIL espalhadas por todo o globo terrestre, de todas as raças, crenças... dos mais diversos países... com os mais diferentes hábitos e gostos musicais... Das mais diferentes culturas e que você nem se permitiu sequer imaginar... Que dirá conhecer um dia! – Já pensou?

- Não, mas você me deu um grande presente hoje! – agradeceu então Helena. Despediu-se do BRUXO com um largo sorriso, o qual ele respondeu com um: Até mais!

E nunca mais ela se esqueceu das palavras do BRUXO. Das “Quin-ze-Mil-se-te-cen-tos-e-cin-quen-ta” possibilidades que a Natureza lhe oferecia. E muito mais do que isso! Ela aprendeu que mesmo que essas: “Quin-ze-Mil-se-te-cen-tos-e-cin-quen-ta” pessoas lhe rejeitassem, haveria ainda outras tantas “SEIS -BILHÕES-SEISSENTOS-E-SESSENTA-MIL” possibilidades.

Pessoas de todo o tipo que ela poderia conhecer, desejar, se apaixonar novamente e quem sabe então amar de verdade... sem medo, sem certezas, sem jogos de palavras, falsos mimos, sem gaiolas douradas e outras armadilhas para aprisionar seus mais preciosos bens: a LIBERDADE e a CAPACIDADE DE AMAR sem MEDO!

Helena estava cheia de amor por si-mesma. Estava aberta novamente para um mundo de possibilidades e com a mente cheia de idéias... Quem sabe não encontraria a pessoa amada em outra Cidade, Estado ou país? Passou a imaginar se a encontraria logo ali ao atravessar a rua, no trajeto para o trabalho... Ou será que a encontraria na academia? Ou seria na Argentina... de repente! E aprenderiam a dançar Tango juntas!?

Ela ria de si mesma imaginando como seria essa experiência tão enriquecedora! Tão Viva, Mágicka e Bela!

Ela já não tinha mais certezas de nada. Muito menos se a pessoa que ela tinha conhecido, vivido , amado e sofrido por tanto tempo, tinha assim lá tanto valor, tanta importância!
Não mesmo! Não valia todo o tempo que ela perdeu sem olhar para os lados, para frente e para o mundo ao redor.
Claro que não! Frente a tantas outras possibilidades... Helena sabia que havia sido bom, que aprendeu bastante, amadureceu, mas... Já estava na hora de se desvencilhar das pesadas algemas e alçar vôo!

E voou Helena para o infinito das possibilidades que o mundo lhe oferecia, para os braços do AMOR VERDADEIRO!

NOTAS EXPLICATIVAS:

Por que Helena?
Faço referência a Helena responsável pela Guerra de Tróia. E como disse um grande BRUXO certa vez: “E não foi Helena quem colocou as palavras no falar do pequeno poeta para assim eternizar o milagre da creação? Sim, meus amigos, são muitas Helenas. Abençoadas todas elas!”


BRUXO: Neste caso é uma referência clara [e uma homenagem] ao SER especial de CARNE E OSSO, capaz de viver muito bem dentro de um invólucro de carbono e ir além sem perder-se no vasto deste mundo de Deus. Mas que sabemos todos nós que não pertence a este plano, nem a este tempo somente. E mesmo sendo o mundo tão amplo e magnífico o BRUXO se reconhece e se espelha nessa tamanha amplidão do mundo!
Arthur

Um significativo nome de BRUXO. Segundo dizia K Flemming em sua obra “Cartas Bruxas”: “E não foi Arthur o rei, o sol mágico que unificou o reino? E não foi Arthur em sua simplicidade creadora que libertou a Espada presa na pedra? E não foi Arthur aquele que fazia as árvores florirem e frutificarem? Não era para ele que Gaia mostrava-se em toda a sua amorosa pujança? E não foi Arthur que precisou revitalizar-se no grande segredo do Graal, meus amigos?"

“tentava sempre chamar minha atenção e que nunca ela se sentia amada e especial de verdade.”
Bem-aventurado todo aquele, ele ou ela, cuja busca de maior significado não esmaga o anseio de manifestação daqueles que estão à sua volta. Bem-aventurado aquele que não teme a maravilhosa diversidade de nossa espécie!

Quin-ze-Mil-Se-te-cen-tos-e-Cin-quen-ta!
Um símbolo numerológico complexo que pode ser lido também como: 15+700+50

O “15”, uma clara referência à décima quinta Lâmina do Tarô.
A soma de 1+5=6 reflete ao mesmo tempo a capacidade de um indivíduo perceber - se único e humano. Permitir-se viver a liberdade de conhecer o novo e a ele se expor. O 5 também é uma referência ao pentagrama e aponta para o 6, a forma como ele deve ser usado a favor da liberdade, sem aprisionar nada nem ninguém

700 Uma alusão ao incrível número de possibilidades e afinidades presentes no mundo. Refere-se muito mais á qualidade dessas possibilidades do que a quantidade, obviamente.

50 É um símbolo para um ciclo que se finda com sucesso, mas que não se encerra em si-mesmo.

A soma desse número complexo: 1+5+7+5+0 é igual à 9. Referência à Nona Lâmina do Tarô: a Temperança! Aponta também para a nona casa do mapa astral onde são reveladas as possibilidades de viagens longas ou ao exterior, as aspirações espirituais e os seus interesses quanto aos estudos superiores. Mas há muitos outros significados igualmente importantes.

E aprenderiam a dançar Tango juntas: O Tango é uma dança típica Argentina que se caracteriza pela sincronia dos movimentos do par. Em forma musical binária e compasso de dois por quatro, a coreografia é complexa e as habilidades dos bailarinos são celebradas pelos aficionados.

O Tango é mais do que simplesmente uma postura precisa e um passo estável. As pessoas precisam sentir o Tango sob a pele. O Tango é uma forma de estar na vida, uma linguaguem da alma. Uma metáfora para as diferentes faces do amor.
O Tango é dançado numa posição forte, peito com peito, face encostada ou cara-a-cara. O Nuevo Tango permite dançar também numa postura aberta o que permite uma gama de improvisações infinita.

O Verdadeiro Dançar é sempre inesquecível!
Tão Viva, Mágicka e Bela!

A expressão natural de toda pessoa que se sabe viva e liberta das peias internas.

Para os braços do AMOR VERDADEIRO!: Aqui se faz alusão ao abraço integral, verdadeiramente acolhedor. Ao Amor que rega , transforma e dá vida. É ao mesmo tempo encontro, plenitude, intensidade e liberdade; sem cobranças ou expectativas.

Escrito em: 28.01.09 - 04:19:00, em homenagem ao bruxo K Flemming (in memorian).


Libéria al Khadir

PUBLICADO EM TRIBOS DE GAIA EM 7/02/2009


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