Muito tem se falado e escrito sobre Deusas e Deuses na dança, ora exaltando o Arquétipo da Grande Mãe, ora representando orixás, ora escolhendo alguma dança exótica ou inventando uma nova modalidade étnica contemporânea.
A dança como obra criativa é um processo interior que se expressa através do mergulho nas sensações externas e internas, do gestual, do ritmo que se percutem os pés no chão, transcendendo estados de consciência onde a técnica prevaleça. Falo do mergulho profundo no psiquismo, da soltura das peias internas que tanto oprimem e dificultam a corporificação da essência. Faço referência a experiências únicas de reconhecimento dos portais multidimensionais do corpo.
Um assunto aparentemente complexo, que na prática pode ser mais simples do que se imagina. Gradualmente intenso e profundo como saborear algo novo, nunca antes experimentado.
Não se trata de intelectualizar o processo interno de auto-descoberta ou criar generalizações sobre como se pode alcançar a plenitude ao dançar.
Até porque, a plenitude ao dançar é um estado que depende única e exclusivamente do indivíduo, de onde ele se coloca e como trata o seu Sagrado durante a vivência.
Há muito se fala sobre o Sagrado, sobre danças ancestrais de resgate do feminino. Mas se esquecem do Resgate do Masculino Sagrado também muito necessário. E se esquecem da harmonia entre as diferentes potências, que são complementares.
Erguem-se bandeiras "pró-matriarcado" e "anti-patriarcado", vestem-se padrões de comportamento preconceituosos ás avessas, com uma roupagem rebuscada de resgate ancestral e valorização da espiritualidade, do "não-materialismo".
Escrevem livros, criam filmes onde o Sagrado é colocado de forma no mínimo estranha, distante.
O Sagrado no mundo do capitalismo decadente foi colocado à venda por trás do Segredo do Sagrado! Onde somente alguns poucos prevalecerão , terão acesso e obterão vantagens em relação a outros não-iniciados nestes mistérios.
Você já se deixou levar ou conhece alguém que já se deixou levar pelas irônicas crenças:
"O Sagrado agora é facilmente adquirido em pacotes de 25, 50 e 100g na lojinha de esotéricos."
"O Sagrado é facilmente encontrado num workshop de final de semana ou numa tarde de domingo após uma seção pipoca com um filme motivacional!"
"O Sagrado se mimetiza, se transfere ou magicamente se transplanta ao se vestir um traje exótico ou se portar um talismã, cujo valor é afiançado por outrem."
"O Sagrado só poderá ser recebido à medida que um Guru, um Deus ou Deusa, conceda ao pobre mortal um dom, um talento, um conhecimento que fará de você alguém especial, distinto dos demais pobres mortais."
O que se vê na realidade é um mercado onde você deve adquirir algo para "Ser". E "Ser" neste caso significa incorporar um personagem mal lapidado, falso, imposto de fora para dentro por alguma pseudo-autoridade no assunto.
Estamos diante de pessoas que tomam atitudes desesperadas por estarem sedentas de algo que não se sabe dizer "o que". Por vezes têm atitudes agressivas, competitivas, defensivas ou intempestivas. Não percebem, mas se colocam imersas em situações alienantes e relações pessoais infrutíferas que mais parecem relações comerciais de troca de mercadorias, serviços terapêuticos que nada tem de novo, só para ter um pouco de atenção e se sentirem especiais.
Trazer à luz as frustrações, mexer no lodo dos traumas infantis, nos mecanismos de defesa, repressão e controle social, isso sim não é tarefa fácil.
Quantos estariam dispostos?
Aqueles que buscam a dança como caminho de libertação e evolução se distinguem daqueles que a buscam somente para serem aceitos por um grupo social, ou para estarem na mídia e assim receber o reconhecimento por seu padrão de beleza, seus valores morais, seu status financeiro e social permitem que sua expressão seja aceita e afirmada.
Os primeiros a que me refiro, ainda que sejam poucos ou mesmo sem a real consciência da importância de seu papel social transformador, são verdadeiramente corajosos e dignos. Corajosos e dignos por darem o primeiro passo em direção ao desconhecido, ao abismo desafiador e repleto de possibilidades de desenvolvimento pleno.
E que fique muito claro que qualquer que seja a dança escolhida como arquétipo da liberdade, será ela a verdadeira expressão da essência do indivíduo e, portanto, única. Não se pode ensiná-la. Apenas apresentar meios para se chegar até ela.
Demonstrar em primeiro lugar a si-mesmo, a atitude libertária que ignora padrões técnicos e estéticos socialmente impostos, questionar o que se apresenta diante dos olhos como modelo de belo, valoroso, aceito, é sem dúvida alguma, sinal de lucidez e hombridade.
A dança arquetípica está muito longe de ser uma fórmula ou doutrina que se vende ou se impõe por uns e outros.
Pretendo nos próximos artigos abordar questões que permeiam a prática da dança como caminho e inspirar aqueles, homens e mulheres, bruxos e bruxas que partilham desse sentimento de respeito e elevação da essência através dessa pratica milenar.
Prática Inicial
A você que busca essa experiência, comece agora mesmo: saia da frente do computador e tire alguns minutos do seu tempo para fechar os olhos, respirar e escutar a música de seus próprios órgãos.
Ouça o ritmo do seu coração, o pulsar do seu sangue. Você é capaz de ouvir a música do seu próprio corpo?
Sinta o ar entrando e saindo dos pulmões. Toque seu abdômen, sinta-o relaxar e contrair levemente enquanto você respira. Faça isso sentado, faça isso em pé. Faça isso enquanto transfere o peso do seu corpo para um lado e para outro, para frente e para trás.
Tenha coragem de tirar os sapatos, as meias, sentir a planta do pé tocando o chão. Flexione os joelhos, relaxe balançando quadril em movimentos circulares.
Solte as nádegas contraídas! Estique os braços e alongue a coluna. Solte as pernas e braços em movimentos de vai-e-vem para frente e para trás, para um lado e para outro.
Eis um teste de flexibilidade! Em pé, encoste o queixo no peito e enrole a coluna vertebral abaixando o tronco como se pudesse tocar o chão com as pontas dos dedos ou as palmas das mãos. Solte os braços, inspire e expire! Balance-os... Em seguida balance o quadril levemente de um lado para outro relaxando e alternando a flexão dos joelhos.
Agora, em sentido horário desenhe um círculo bem grande com o tronco, elevando os braços à esquerda, subindo até ficar com o corpo totalmente ereto. Desça gradativamente pela direita alongando os braços e o tronco e concluindo o desenho do círculo.
Inspire pelo nariz, expire soltando o ar pela boca.
Repita duas ou três vezes o desenho do círculo com o tronco, vagarosamente.
Para finalizar, abaixe o tronco, flexione os joelhos e com o queixo encostado no peito comece a desenrolar a coluna imaginando cada vértebra se encaixando uma a uma. Por último e vagarosamente, levante a cabeça, inspire e expire três vezes profundamente, soltando o ar pela boca.
Como se sente?
Espero que essa prática simples e rápida possa ajudar você na busca de sua própria música e dança interiores.
Sinta-se livre para compartilhar sua experiência comigo: liberia@liberia.com.br
Kulu am wa antum bi-khair! [ Que você fique bem !]
Libéria al Khadir