por Libéria Al Khadir
“Queria apenas tentar viver aquilo que brotava espontaneamente de mim.
Por que isso me era tão difícil?”
Hermann Hesse in Demian
“ESTÁTUA – tudo que é rigidez de comportamento ou de caráter, tudo o que é repetição, hábito, rotina, lógica, automatismo, regulamento, instituição. INCONSCIÊNCIA.
BAILARINA – tudo o que é espontâneo, livre, improvisado, surpreendente, criativo, inesperado, intuição. CONSCIÊNCIA.”
José Ângelo Gaiarsa in A Estátua e a Bailarina
Conheço uma bailarina que trabalha com estética. Uma não várias. Mas uma em específico me chamou muito a atenção.
Ela foi uma das minhas primeiras alunas. Logo que chegou na aula comentou sobre as dores nas pernas, na coluna e no pescoço. Anos se passaram e ela se convencia que a dança lhe fazia muito bem.
Relaxava, compensava a dor que ela sentia ao tratar pessoas em sua clínica.
Um trabalho que proporcionava bem-estar a outrem, mas ela própria tinha uma qualidade de vida duvidosa. A dança foi portanto, logo de início uma muleta.
Ela escolheu a dança do ventre (não escolheu qualquer dança), que é uma dança popularmente conhecida como sensual.
E ela almejava isso. Ser sensual, atraente, sair de um relacionamento afetivo infeliz e estagnado, melhorar profissionalmente para poder criar seu fico com independência, enfim ser dona do seu nariz.
Atualmente ela é uma profissional da dança. Trabalha com estética durante o dia, leciona e dança à noite e nos finais de semana se apresenta.
Bem ela conseguiu em parte realizar o que se propôs. Mas pergunte a ela das velhas dores nas pernas, na coluna e no pescoço?
Pasmem, ainda estão lá!
Mas antes de falar nas dores que ‘não saram’ e do significado delas, quero relatar um outro caso interessante.
Ao contrário da aluna anterior, contarei a história de uma bailarina que virou estátua.
Quero falar de um seqüestro corporal, afetivo, intelectual. Quero falar de um corpo que perdeu a ligação com sua essência criativa, divina. A essência bailarina.
Uma jovem hiperativa que encontrou na dança a salvação para uma vida cheia de respostas corretas, sentimentos controversos e erros duramente castigados.
Ela dançava com sua alma logo de início quando mal sabia “encaixar o quadril”.
Mesmo quando dançava no lugar era como se estivesse flutuando por todo o espaço da sala de aula. Como se sua energia pudesse exalar um perfume por todo o ambiente.
Após alguns meses de aula, veio a proibição dos pais: nada de dança!
Enquanto ela não cedesse às pressões da família para concluir a faculdade na área de humanas ou saúde desistindo do curso na área de exatas que a fazia aspirar por uma posição digna e bem-remunerada no mercado de trabalho. E o pior, enquanto não fosse trabalhar com o pai numa conceituada instituição financeira, nada de dança.
Nada de dança significava, nada de grana para pagar as aulas. E ai dela se comentasse que iria se apresentar em algum lugar! A repressão era drástica e a feria profundamente direto na alma!
Apenas com as economias de transporte (ela andava a pé por longos trechos ), ficava difícil prosseguir nos estudos.
Me compadeci desta situação e vi um pouco da minha história refletida ali. Quando ainda criança meus pais não tinham condições de pagar pelas aulas de jazz.
Mas o caso dela era diferente. O pai podia pagar, mas não queria. Ele se negava e fazia ela aquela menina passar por uma verdadeira tortura.
Resolvi propor uma bolsa a ela e fui negociar na época com o proprietário da academia.
Ela nunca soube, porque eu nunca disse, mas paguei cada centavo daquela bolsa.
Sentia que aquilo me fazia bem. Não a caridade em si, mas cada aula que ela vinha e parecia tirar um peso da cabeça, das costas, das pernas, da alma....
A angústia às vezes pesa mais do que qualquer outra coisa.
Mas talvez a palavra correta não seja angústia, mas sim rejeição!
Coincidentemente, essa aluna sofreu de problemas gástricos e intestinais ao ponto de comer e logo mais expelir toda alimento perdendo o prazer nas refeições.
O que essas duas mulheres tem em comum?
Diferentes momentos de vida, diferentes idades, diferentes responsabilidades e uma panacéia para resolver tudo: a dança do ventre.
Assim como Baubo/Yambe, Baba-Yaga, Kali, Sarasvati, Krishna ou o famoso Nataraja e tantos outros deuses que dançam para criar ou para destruir, não é possível imaginar um corpo engessado isento de movimento, plenitude, alegria de viver...
Estética x Saúde
Espontaneidade x Técnica
Essência x Estandardização
Promiscuidade x Sexualidade Plena
Estátua x Bailarina
Dicotomias que refletem comportamentos enraizados em instintos como o de fugir ou lutar com suas emoções derivadas do medo, da raiva, do orgulho, da arrogância, da onipotência.
O dogmatismo e o materialismo são impostos às mulheres que querem (e necessitam) colocar seus corpos e almas para dançar.
A Deusa quer sair da lama, mas para isso, a mulher precisa fazer esforços descomunais e isso se reflete em doenças psicossomáticas como: problemas na coluna (“eu tenho que carregar o mundo e a opinião dos outros na cabeça e nas costas”); nos intestinos (“eu tenho dificuldade de eliminar maus pensamentos e tudo o que não serve para a nutrição”); no estômago (“eu não consigo nutrir meu corpo e tirar prazer do sabor que a vida tem”); entre outros problemas.
A dança do ventre acaba muitas vezes atraindo a mulher que se sente rejeitada, mau amada, pouco reconhecida e valorizada na sua feminilidade. E muitas delas acabam sendo arremessadas ao extremo da vaidade, da luxúria, da materialização ou valorização apenas estética de sua expressão corporal e feminina.
Fazer aulas de dança do ventre não vai garantir à mulher uma sexualidade saudável. O que pode ocorrer é justamente o contrário. No desespero de encontrar-se com sua divindade interior ocorre a paralisia da mulher em um estado de “objetização”.
Exagero? Penso que não!
A bailarina do centre virou um “produto” socialmente aceito pelo mercado porque é “sexy”, “por que parece liberal”, “por que parece ser gostosa como um pedaço de picanha servido ao ponto”. Não pelo que tem a oferecer em seu interior mas pela “embalagem” (aquela produção que vai da roupa decotada à maquiagem de atriz global) e a promessa do “vir a ser” - um “tsunami sexual” - visto que ela foi capaz de “copiar” movimentos, caras e bocas que lembram mais um “cancan. Sim, como aquela dança francesa executada em versão moderna no filme Moulin Rouge.
Desejo que você mulher possa se reconhecer na dança do ventre ou no espontâneo bailar do seu corpo como expressão de sua essência verdadeira, da centelha divina que habita você. Sendo você mesma verdadeiramente, ao som de qualquer música, ao som de qualquer ritmo, em qualquer tempo. Que você possa reconhecer o Sagrado em seu interior e exalá-lo por todo o ambiente. Colocá-lo em equilíbrio (feminino e masculino integrados) através da tua própria dança.
E que possa, VOCÊ MULHER, ser tão Humana quanto Deusa!
Bailarinas, conheçam a si mesmas, cuidem-se bem e lembrem-se de uma frase de Kazuo Ohno que sempre guardo comigo:
"Dance como uma flor que não pede licença para nascer."
* Artigo escrito em 13/01/08 e revisado em Março-abril/2008
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