Por uma corporeidade integrada à vida: consciência, saúde e educação para o movimento. por Libéria Al Khadir[1]

"A verdade é que a memória não consiste, em absoluto, numa regressão do presente
ao passado, mas pelo contrário, num progresso do passado ao presente. É no
passado que nos colocamos de saída. Partimos de um "estado virtual", que
conduzimos pouco a pouco. Através de uma série de planos de consciência diferentes,
até o ponto em que ele se torna um estado presente e atuante, ou seja, enfim, até esse
plano extremo de nossa consciência em que se desenha nosso corpo".
Henri Bérgson
O corpo pode ser considerado sagrado?
Após milênios de repressão dogmática, social e sexual participamos do movimento de resgate do sagrado.
Não falo somente do sagrado feminino, falo do sagrado em qualquer corpo, em qualquer idade e em qualquer época.
Sagrado não significa Sacrosantu. Sagrado vem do latim sacratu, cujo sentido é de: profundamente venerável, a que se deve o maior respeito.
Se compreendemos verdadeiramente que o corpo é nosso templo, nosso território temos a liberdade de olhar para ele como um todo integrado em substância, pulsante, não-fragmentado em órgãos e funções como impunha o paradigma cartesiano.
O ser humano capaz de olhar dessa forma para seu corpo, sente-se livre para brincar, explorar cada palmo e deixar vir à tona as sensações e as memórias que a pele guarda e os demais sentidos revelam.
Sabemos que a pele é considerada pela ciência o maior órgão do corpo humano. Mas como sentir a pele, senão pelo toque que pode ser nosso ou de outrem? E como separar a pele do todo? E como separar em partes o todo que repercute prazer ou dor interna e externamente?
Ora, somente por vivisseção [física] ou por algum tipo de loucura ou sociopatia [psíquica].
Esse artigo expõe a motivação que levou ao desenvolvimento do trabalho [2] capaz de promover o aprendizado do movimento consciente a partir da prática de dinâmicas corporais de forma espontânea, lúdica e integrativa em duas modalidades de dança:
a) danças culturais, circulares e sagradas;
b) danças orientais, meditativas e ritualísticas.
As danças culturais, circulares e sagradas atuam tanto no macrocosmo quanto no microcosmo, ou seja, são favoráveis ao trabalho coletivo, estimulando a concentração, cooperação, solidariedade, musicalidade, rítmica, planejamento coletivo de ações, interdependência, prontidão, expressão e comunicação em grupo e criação e expansão de egrégoras de paz, amor e luz; o fortalecimento das atitudes e engajamento nos objetivos comuns, entre outros benefícios.
As danças orientais, meditativas e ritualísticas atuam principalmente no microcosmo, favorecendo a introspecção, a intuição, a concentração, a auto-observação, o planejamento individual de ações, a harmonia espiritual, a conviver consigo mesmo, a limpeza de valores, crenças, mágoas e outras sensações e sentimentos dolorosos ou desagradáveis. Ensina também a lidar com as frustrações, a elevar-se, a transmutação e equilíbrio da energia vital, bem como o direcionamento de forma criativa, construtiva e efetiva.
É importantíssimo ressaltar que ao permitir que o indivíduo liberte-se, mesmo sendo ele vitimado por violência moral, sexual ou qualquer outra, seja estimulado naturalmente a "retornar ao ponto anterior" ao evento e reconheça no passado o ponto de partida para uma nova dimensão da consciência, haverá maior chance de recuperação de sua integridade enquanto ser humano e ser social.
É interessante examinar a filosofia de Henri Bergson[3] , especialmente os mecanismos da memória aprendizado e a problemática da negação. Faça,mos um paralelo com os dados apresentados pelo Prof. Dr. Aloisio José Bedone sobre os resultados do projeto Iluminar[4] e outras iniciativas para acolhimento e apoio às vítimas de violência. As sensações apresentadas comumente pelas vítimas, tais como: a dor, a impotência, a indignação e o ódio; levam por motivos bastante contundentes ao desejo de "fuga" (racional ou fantasiosa) e a crer que o esquecimento do passado seja o melhor remédio para a situação.
Afirma Bergson[5]:
"A negação de uma coisa implica na afirmação latente da sua substituição por outra coisa, a forma negativa da negação se beneficia da afirmação que está no fundo dela, apoiando-se no corpo da realidade positiva a que se liga." [6]
Logo, a afirmação da lembrança promovida pelo trabalho de estímulo corporal e cênico efetivamente será voltado ao resgate das sensações prazerosas de: saúde, segurança, amor, acolhimento, equilíbrio e motivação para a ação consciente.
Emerge assim um novo ponto de chegada no presente, uma nova imagem do corpo integrado, o território do sagrado[7]. Como revela Bergson, é possível evoluir, aprender, ensinar, construir uma nova realidade para a re-socialização desse indivíduo, bem como a aplicação dessa metodologia no campo da educação, repensando a qualidade do movimento artístico, consciente, comprometido com a saúde, a harmonia psíquica e capaz de se preparar para o novo; configurar o presente, se reinventar.
Os indivíduos e grupos conscientes de seu corpo integral, receptivos ao treinamento interior e coletivo das danças propostas, estarão preparados para lidar melhor com frustrações estresse e outros desafios. Tornar-se-ão formadores de opinião prontos a escolher melhor suas crenças e efetivamente colocá-las em prática através de atitudes construtivas e transformadoras da realidade. Imposições sociais, jogos comportamentais, ataques e manipulações psíquicas ou qualquer tipo de ação aniquiladora da essência do indivíduo consciente, estarão fadados ao fracasso. Existem atos mais mágickos do que estes?
Eis o ponto de mutação! [8]
Referências Bibliográficas:
ALEXANDER, Gerda. Eutonia: um caminho para a percepção corporal. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
BERGSON, Henri. A evolução criadora. Trad. de Adolfo Casais Monteiro. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1964.
BERGSON, Henri. Matéria e Memória: Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Féliz. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 2004. vol.3
DOZIER, Rush W.. Por que odiamos? São Paulo: Makron Books, 2004.
FUX, María. Dança , experiência de vida. 2. ed. São Paulo: Summus, 1990.
JAIN, Sanjay et al. Systems that learn: an introdution to learning theory. MIT - Second edition, London, England: Bradford Book, 1999.
LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. 3. ed. São Paulo: Summus, 1978.
WILLER, Cláudio. Escritos de Antonin Artaud. Porto Alegre: L&pm, 1974. "Para acabar com o julgamento de Deus".
Notas:
[1] Baseado no artigo acadêmico enviado ao Colóquio Internacional de Filosofia da Educação da UERJ em agosto/2007.
[2] Projeto em fase de implementação pela Secretaria da Saúde - Guarulhos-SP.
[3] Construída sobre quatro pilares fundamentais: a intuição, a duração, a memória e o impulso vital.
[4] Programa Iluminar Várzea Paulista. idealizado pela Prof. Dra. Cenise Monte Vicente em parceria com a Dra. Verônica Gomes de Alencar de Lima e Moura, promovido pela Prefeitura de Campinas em parceria com Ambulatório de Atendimento às Vítimas de Violência do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade de Campinas.
[5]BERGSON, Henri. A evolução criadora. Trad. de Adolfo Casais Monteiro. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1964.
[6]Subjetividade da Negação artigo escrito por: Débora Martins de Souza (Pedagoga, mestre em Políticas de Educação e Sistemas Educativos pela Unicamp, doutoranda em Ciências da Comunicação na ECA/USP) fonte: http://www.eca.usp.br/nucleos/filocom/
[7]Do Lat. sacratu, no sentido de profundamente venerável, a que se deve o maior respeito.
[8]Ponto de mutação é um termo utilizado pelo físico Frtijof Cappra para designar o momento decisivo que a humanidade e a natureza passam. Momento este de transformação consciente e integração. Ele publicou um livro e fez um filme com esse título.
Publicado em 05.11.2007
Publicado em 14.07.2007
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