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Liberia Al Khadir



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"Sobre a Liberdade: uma pitada de filosofia oriental para bailarinas que desejam profundidade"

 


[Liberdade: autor desconhecido]

"A crença num conceito, numa fórmula, numa idéia, se tornou necessária porque a vida pouco significa. A rotina diária, o emprego, a família, o sexo, a solidão, a opressão, o conflito da auto-expressão, são coisas insignificantes; e, no fim de tudo, a morte! Portanto, o homem tem de crer, a crença se lhe tornou uma imperiosa necessidade."
Krishnamurti in: "Mente Livre"

Lembro-me como se fosse hoje, embora esse fato ocorreu há cerca de dez anos. Concluía meus estudos na Universidade de Mogi das Cruzes. O verdadeiro pesquisador compreende a sua eterna ignorância e empreende novas trilhas em busca daquilo que lhe é essencial: a descoberta do Si-mesmo.




Na ocasião, um de meus mestres K Flemming me apresentou o pensamento de Krishnamurti. Um líder espiritual que não permitiu ser tratado como guru, pois um de seus princípios era de que as pessoas deveriam seguir a si-mesmas, cultivando a liberdade e vivendo a lei do amor.

Trata-se de uma visão que identifica o sistema de regras, padrões e formas de controle social, presentes inclusive nas religiões, onde o Ser Humano é visto como "massa" de manobra, ou seja, Krishnamurti pregava a libertação da mente intelectual para que a alma fosse liberta:

Segundo Krishnamurti, toda a busca é fruto do egoísmo. O Ser Humano trás um potencial a reconhecer e desenvolver. Apenas ele próprio será capaz de desvelar o conhecimento mais profundo destinado à iluminação e à realização neste plano da existência. Uns buscam por achar a vida monótona. Outros, por sua vez buscam por que ouviram falar que se deve buscar algo.

Crenças, principalmente aquelas que "adotamos" como nossas diferentemente daquelas que escolhemos conscientemente, são ilusões. 'Nós' que necessitam ser identificados e desatados.

A exemplo da religião, analisemos as duas raízes etimológicas: religare e relegere, que originam o conceito.



Como a própria palavra nos sugere: "re-ligare" significa ligar novamente, como se a relação entre Se Humano e a Divindade tivesse sido rompida. As religiões, portanto, seria a única maneira de restabelecer esta conexão.

E "relegere", o que significa? Reconhecimento. Implica um constante estado de auto-observação e observação da natureza onde estamos inseridos. Significa olhar ao mesmo tempo para dentro e para fora e 'reconhecer-se' conectado ao todo e a todos, pois tudo é divindade manifesta.

O estado de busca que nos fala Krishnamurti sugere também a re-leitura daquilo que interpretamos como sendo nossa realidade. Um conceito filosófico oriental muito importante. O que é a realidade afinal?

Não é possível conceber a idéia de realidade sem antes refletir sobre 'percepção', pois a realidade individual será apenas uma parte da realidade, e a realidade coletiva, uma pequena parte da realidade em si, que contém aspectos do individual e do coletivo.

Quando K Flemming me perguntou naquela tarde o que eu buscava, respondi: "Busco a Verdade, Não quero mais ser enganada e doutrinada. Quero ser livre."

E ele continuou: "O que é liberdade para você?"
- "Liberdade para mim é não me sentir presa. Não quero me sentir amarada à crenças, conceitos, pré-conceitos, ou o próprio sistema social. Quero descobrir o que vim fazer nesse mundo. Quero me sentir realizada e deixar um legado. Ser útil às pessoas."

Flemming disse: "O sistema precisa de pessoas úteis, que crêem numa missão a ser realizada. Você pode escolher o 'rótulo' que quiser. Uns serão médicos, outros, políticos, outros faxineiros, outros advogados, outros serão artistas. E todos vão acreditar que estão 'cumprindo suas missões'. E continuarão pagando seus impostos, consumindo desenfreadamente para cumprir suas carências, passando por cima uns dos outros, elegendo uns superiores à outros e achando isso tudo muito normal.
- Tem certeza que deseja ter uma missão? Ser útil?
- Pensando bem - respondi ao mestre - prefiro Ser Livre ao invés de ser rotulada, estereotipada ou pré-destinada a algo.



Liberdade guiando o povo - Éugene Delacroix

 

Krishnamurti diz que a busca empreendida pelas pessoas, pressupõe algo que deve ser resgatado. E esse pressuposto pode ser chamado de "esperança" ou então "expectativa".

Não basta buscar, mas ao encontrar o que se busca, reconhecer. E o reconhecimento, segundo ele, é 'ação da memória'. Ou seja, trata-se de utilizar nosso sistema de crenças, valores e, por conseguinte, a nossa visão da realidade para encontroar algo que acreditamos ter perdido. Vamos encontrar apenas algo que sejamos capazes de 'reconhecer', nada diferente disso.

Se algo já foi vislumbrado por nós, então temos duas hipóteses lógicas:

1- Somos hipnotizados pelo sistema a buscar algo que dentro do próprio sistema será oferecido como solução. Se buscamos Deus, ou a Liberdade, ou qualquer outra coisa ela nos aparecerá embrulhada para presente com seu 'rótulo'. Poderíamos afirmar que o sistema é como um 'supermercado' onde veremos nas prateleiras produtos essenciais à existência humana tais como: Amor, Liberdade, Fé, Solidariedade, Caridade, etc. E como numa farmácia, também teremos 'remédios' para a falta desses itens: Culpa, Frustração, Fanatismo, Egoísmo, Extermínio, etc.

Na Filosofia Oriental este é um aspecto delicado da busca. É o confronto com Maya: ilusão.
Ou seja, coloco fora de mim, algo que está dentro. Coloco no outro, a expectativa por solucionar meu problema. Espero que venha do céu as explicações do mundo e de como devo me comportar nesse mundo. Isso nada mais é do que transferência de responsabilidade, de liberdade, de vontade, do próprio viver, para algo externo: o outro, a religião o próprio sistema ou Deus.

2- Se busco algo que sou capaz de identificar é por que isso já existe dentro de mim. Se existe dentro de mim, não é mais necessário buscar fora de mim, algo que já foi reconhecido dentro. Logo, o que está fora pode ser um gatilho para revelar o que está dentro, porém, o gatilho não é a realidade, nem tão pouco a verdade absoluta.

Não devemos confundir o caminho com os pés do caminhante ou as pedras no caminho, ou com os companheiros de caminhada, muito menos com o mapa ou algum guia que encontramos na estrada da vida.

Transferindo esses conceitos para a vida prática e objetiva das bailarinas, é necessário buscar a técnica para se dançar. A técnica nos ajuda a identificar no corpo o caminho autêntico para os movimentos, trazendo à consciência a propriocepção, a criatividade e permitindo o desenvolvimento das habilidades específicas para a ação de dançar.

A técnica não é a dança. É apenas uma ferramenta para castrar ou libertar o dançar autêntico.


Libéria Al Khadir

04/06/2007

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