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Liberia Al Khadir



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" Dança e Consciência Corporal "

 

Em busca do Casamento Sagrado por Libéria Al Khadir


"A extraordinária estrutura do corpo, bem como as surpreendentes ações que é capaz de executar, são alguns dos maiores milagres da existência. Cada fase do movimento, cada mínima transferência de peso, cada simples gesto de qualquer parte do corpo revela um aspecto de nossa vida interior. Cada um dos movimentos se origina de uma excitação interna dos nervos, provocada tanto por uma impressão sensorial imediata, quanto por uma complexa cadeia de impressões sensoriais previamente experimentadas e arquivadas na memória".

Rudolf Laban

As hierogamamias (1) ou casamentos sagrados são encontradas em quase todas as tradições espirituais. Elas simbolizam a união física/espiritual (anima/animus) e, na análise junguiana, a etapa do processo de integração da personalidade, que indica a conciliação do inconsciente, princípio feminino, com o espírito, princípio masculino.

Apresento um sonho que simboliza essa sensação de integração física e espiritual:

"Sonhei que dormia e saía do meu corpo. Flutuava até o céu e caminhava pelas nuvens em direção à luz. Nesse percurso sei que estou indo ao encontro de minha "alma gêmea". Lembro de uma luz alaranjada de pôr-do-sol... ao encontrá-lo em meio à muita luz não vejo seu rosto, mas recebo um saudoso abraço como se estivesse por muito tempo ausente. Um grande abraço fortalecedor, ao mesmo tempo que ouvia ele dizer que me esperava há muito tempo. E esse abraço de luz nos fundiu em um só." (2)

Embora não veja o rosto do amado, esse sonho evoca a sensação de cumplicidade e amor-incondicional num nível altamente sensível, ao mesmo tempo marcante. É sem dúvida o sonho mais maravilhoso que já tive.

O ato de caminhar nas nuvens, sentindo cada passo em direção a um objetivo claro e prazeroso que é o encontro com o amor, tanto o sentimento quanto o 'Ser' que direciono esse sentimento, é extremamente profundo e está relacionado com a autonomia e a sexualidade.

A simbologia do pé remete ao equilíbrio (suporte e sustentação ao corpo), a capacidade de 'dar um sentido à vida' e à energia da vida (libido-prazer de viver), e é considerado um símbolo erótico tanto para os povos primitivos quanto para os civilizados.

Por outro lado, como cita Jean-Yves Leloup, "Eva foi mordida pela serpente, no calcanhar. Através desse símbolo, o prazer tornou-se algo envenenado para nós. Reencontrar a inocência do prazer é um longo caminho, ao mesmo tempo físico, psicológico e espiritual." (3)

Essa inocência pode ser refletida no ato de abraçar e na fusão dos corpos transformando-os numa única luz me remete à filosofia/prática sexual-espiritual do Tantra hindú:

"Tantra tem também a conotação de "abraçar". O tantra implica abraçar todos os aspectos de si mesmo. Enquanto você separar os aspectos de que não gosta em si mesmo e os mantiver a distância, não terá chance de integrá-los, nem de atingir a totalidade. É uma via centrada no coração, convidando seus seguidores a abraçar toda a criação em nome do amor. Você e seu parceiro são manifestações do amor. (...) tem como objetivo a rendição total - deixar cair o condicionamento mental, emocional e cultural - de modo que a energia da vida universal possa fluir através de nós com facilidade, como uma cascata. É encontrar o caminho de volta para as raízes existenciais, deixando-se levar por uma sensação de encantamento e unidade com o universo, que os mestres espirituais de todas as tendências chamam de amor. (...)"(4)

Além, de possibilitar esse contato integrativo com o parceiro, o Tantra visa o reacender da paixão pela vida, através de um sentimento vibrante por si-mesmo.

Desta forma o Tantra possui práticas individuais que preparam tanto o homem quanto a mulher para o encontro. E esse preparo passa primeiramente pelo "fazer amor consigo mesmo" , sentir-se unido pelo sentimento de amor que flui do indivíduo para a Divindade, para depois então amar o outro e expandir essa sensação.

O trabalho corporal, mais especificamente a vivência com as danças ritualísticas tem se mostrado muito eficiente na conscientização e resgate do sagrado.

Nos próximos artigos comentarei sobre estudos de casos reais e aprofundarei as relações entre dança, expressão corporal, mitologia e ritualística.

Notas:

1 CHEVALIER, Jean. "Dicionário de Símbolos" - José Olympio - 1995 p.197
2 BARRIGA. Tatiana Molero. " Arquétipo da Liberdade: um caminho de integração, criatividade e libertação essencial através da dança" - Pós-Graduação Lato Sensu - SENAC - São Paulo - 2003 - - cap. 3.6.5 - pág. 73-78.
3 LELOUP, Jean-Yves. "O corpo e seus símbolos" - Vozes - 2002, p.35.
4LORIUS, Cassandra. "Sexo Tântrico" - Ediouro, 1999 pp.25-26.

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