" Há no útero do tempo muitos acontecimentos que estão por vir".Shakespeare, Otelo, 1, iii.
"Alguns já disseram que o corpo não mente. Mais que isso, ele conta muitas histórias e em cada uma delas há um sentido a descobrir. Como o significado dos acontecimentos, das doenças ou do prazer que anima algumas de suas partes. O corpo é nossa memória mais arcaica. Nele nada é esquecido. (...) Como faziam os terapeutas de Alexandria, que cuidavam do corpo, do psiquismo e também do ser espiritual (...) [devemos] entrar em relação íntima com estas partes de nós mesmo, com cada um de nossos membros, observando como acolhem o Sopro da Vida." Jean-Yves Leloup
Há 4 anos venho pesquisando os benefícios que a prática da dança do ventre reflete na saúde das mulheres, de uma maneira geral na sua vida prática e objetiva.
Partindo da minha própria experiência de cura física (coluna, útero, nervos, estômago e intestino) e psíquica (depressão e altos níveis de ansiedade), procurei estudar cientificamente os aspectos que a dança poderia influenciar.
Além dos exercícios físicos proporcionados e seu contraponto psíquico (simbólico) tenho constatado que as mulheres que estudam, buscando compreender em profundidade e respeitar essa forma de Arte vivenciam experiências reais de cura e desenvolvimento interior.
Alguns exemplos mais comuns e imediatos são os físicos como por exemplo:
· equilíbrio hormonal;
· bom funcionamento dos intestinos, bexiga, rins, útero e ovários, proporcionando alívio e cura de cólicas menstruais/intestinais (prisão de ventre);
· ativa e melhora na circulação sangüínea;
· aumento da fertilidade, devido ao desbloqueio energético e harmonização química do organismo.
· correção de problemas crônicos de postura: hiperlordose, escoliose, dores principalmente na região lombar e cervical;
· aumento da flexibilidade, equilíbrio e sensação de enraizamento do corpo a partir dos pés (com o chão - terra);
· fortalece e tonifica os músculos, (principalmente abdômen, cintura, quadris e pernas), concedendo formas mais delicadas (curvilíneas); acarretando perda de gordura e ganho de massa muscular; favorecendo a dilatação e as contrações no momento do parto;
· delicadeza nos gestos, no caminhar, no falar, no cuidado consigo e socialmente;
· sensação de maior leveza e controle dos movimentos (regulação do tônus e psicomotricidade1 );
· alívio e cura de insônia, nervosismo e stress, entre outros benefícios.
(Psicomotricidade; capacidade de coordenação e integração das funções motoras e psíquicas em resultado da maturação do sistema nervoso.)
Visivelmente notamos enquanto alunas e facilitadoras do processo de autoconhecimento através da dança do ventre, que o corpo vai tomando uma forma mais harmônica. O padrão de beleza "socialmente aceito" é descartado e dá lugar ao jeito de "Ser" de cada mulher.
A partir da aceitação interior percebemos que somos únicas nesse mundo e com isso harmonizamos o organismo para que ele tenha a forma do "verdadeiro eu". Chamo isso de encontro com a "essência divina" ou "divindade interior".
A partir desse princípio, acreditamos que nosso valor vai muito além da "embalagem corpórea" que é muito importante, pois é nosso veículo de manifestação nesse plano (físico) e deve estar saudável.
Por outro lado, há muito mais dentro de nós que busca expressão verdadeira e que por vários motivos encontra-se em estado adormecido dentro de nós.
Falo da "alma na dança" e isso deixa de ter relação com uma religião específica. Estou falando da relação com o respeito próprio, a valorização de nossa essência divina e a manifestação de nossa verdadeira identidade.
Quando buscamos manifestá-la através dos movimentos da dança do ventre, resgatamos nosso poder criativo e recuperamos nosso "elo perdido" como filhas de Deus.
Para as civilizações ancestrais, esse re-ligare com a divindade suprema nos torna mais seguras e preparadas para enfrentar nossos desafios e abraçarmos nossa missão na Terra.
Ficam visíveis os benefícios psicológicos e terapêuticos que a dança suscita em nós:
· Desenvolvimento pessoal, profissional, afetivo e espiritual - autoconhecimento, gerando primeiramente autoestima e conseqüentemente a manifestação do potencial criativo na solução de problemas do dia-a-dia;
· Resgate da feminilidade que vai além da "sensualidade" ou "sexualidade". Sentimo-nos mais delicadas, gentis, proativas, bem humoradas, meigas, fortes, perseverantes, seguras de nosso valor que transcende a forma física, fazendo com que alcancemos a paz interior;
· A superação de dificuldades físicas, como por exemplo: ser mais flexível em determinada parte do corpo, o aprendizado contínuo de diferentes formas de expressão e a busca de sua própria forma, faz com que nos enxerguemos (porque somos) perseverantes, interessantes intelectualmente e espiritualmente;
· A consciência corporal gera consciência psíquica - vamos percebendo que a tensão, a dor, o prazer e a alegria são resultado de nossas experiências anteriores e/ou da ausência de determinados estímulos positivos-criativos-construtivos. Depende de nossa vontade e dedicação conquistar a harmonia interna-externa.
E falando em espiritualidade, como podemos admitir que a dança do ventre, possa nos beneficiar nesse nível?
Em primeiro lugar é preciso esclarecer que a dança do ventre não é de origem única e exclusivamente oriental. Ela é uma dança da mulher. Estudos mais recentes comprovam que existiram danças semelhantes em diversas civilizações e épocas em todo o globo terrestre.
Portanto, independente de sua crença religiosa, a dança do ventre pode beneficiá-la uma vez que encontra apoio em todas as doutrinas que admitem o poder criativo divino manifestado na mulher através da geração da vida (gestação, parto, nutrição, etc.)
O maior acervo acessível para estudos atualmente é o indiano e o chinês. Nos livros, na filosofia, na prática artística e espiritual, encontramos referências sobre a valorização desse poder, além do contraponto fisiológico e psíquico apoiados por duas das mais antigas medicinas do mundo.
As últimas descobertas arqueológicas tem apontado registros de que a medicina egípcia seria comprovadamente a mais antiga e portanto, logo teremos reflexos dessas novas descobertas no ensino, pesquisa e prática científica.
Nesse momento, penetrando nas raízes dessa cultura pela herança árabe, encontramos algumas escolas de mistérios que preservam o conhecimento ancestral, o desenvolvimento e prática espiritual como a do "Olho de Hórus" e o "Sufismo".
Alguns benefícios cientificamente comprovados da harmonia espiritual, alcançada através da dança:
· Equilíbrio dos centros de energia (chackras) que estão localizados exatamente na região das principais glândulas hormonais do organismo (supra-renais, gônadas, baço, pâncreas, fígado, tireóide, paratireóide, pineal). A atenção e respeito e intenção de equilibrá-las por si só já seria o suficiente, porém, está comprovado que a dança libera hormônios (como as endorfinas) que são benéficos a essas partes, melhorando e equilibrando o organismo como um todo;
· O núcleo da coluna vertebral chamado pelos orientais de Kundalini, simboliza a energia vital que desenvolve o processo de felicidade e prazer. Quando estudamos a fisiologia do organismo, fica fácil entender que isso pode ser comprovado cientificamente. Nosso cérebro está ligado ao nosso organismo através da coluna e "comanda" nossas funções neurovegetativas. Se a mente estiver em harmonia gera harmonia no organismo, em todos os centros vitais e vice-versa. Em contraponto, muitos problemas psíquico-espirituais encontram raízes no mal funcionamento do organismo. Há uma via de mão dupla entre corpo e mente, mente e corpo.
O processo de autoconhecimento gera consciência corporal e psíquica com conseqüências práticas no relacionamento intrapessoal e interpessoal.
O poder de comunicação transcende a fala, ao mesmo tempo que a integra ao movimento, gerando coerência, confiança e credibilidade na sua expressão.
Compreendendo o significado, o simbolismo e a riqueza cultural que envolve cada um dos movimentos, a expressão fica mais rica e terapêutica, pois integra razão e emoção. A dança do ventre trabalha os dois hemisférios do cérebro, exercita a capacidade de reflexão, ao mesmo tempo que amplia a compreensão do mundo, do indivíduo e de sua relação com o todo social, através de uma perspectiva holística.
A criatividade, a memória, a concentração e atenção são estimuladas por meio de composições individuais, coletivas, no contato com objetos cênicos e seu simbolismo cultural-ancestral. Aos poucos o indivíduo encontra a beleza nas diferenças e semelhanças, sente-se harmônico e capaz de manifestar seu próprio conteúdo expressivo.
Ao treinar a percepção auditiva da 'rítmica oriental' o indivíduo aumenta a capacidade de visualizar, criar e se movimentar no espaço, melhorando a coordenação motora, ao mesmo tempo que responde a um estímulo e eco interiores de sua própria emoção, de sua própria essência.
Sentindo-se seguro em manifestar-se diante do mundo, o indivíduo vence as barreiras da timidez, da resistência às mudanças, do confronto com autoridades, e tomará consciência de que não há necessidade de buscar formas inferiores de expressão como: rebeldia, violência, sarcasmos, discriminação, depressão e doenças psicossomáticas.
"É preciso respeitar a individualidade da pessoa que aprende a dançar. Tanto fisicamente, aceitando os limites; quanto seu momento de vida e sua compreensão do mundo." Patrícia Bencardini
Artigo publicado em 18/02/2003 revisado e atualizado em 20/9/2005.
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Referências Bibliográficas para estudo:
BENCARDINI, Patrícia. Dança do Ventre - Ciência e Arte: Roteiro para o estudo, entendimento, ensino e prática de uma das mais belas, antigas e sensuais formas de dança - Ed. TextoNovo - 2002.
LA REGINA, Glaucia. Dança do Ventre - Uma Arte Milenar- Ed. Moderna, 1998
MONTAGU, Ashley. Tocar: O Significado Humano da Pele - Summus Editorial - 1988.
GAIARSA, José Ângelo. A Estátua e a Bailarina - Ícone Editora - 1995.
ISKANDARIAN, Madeleine. Resgatando a Feminilidade - Expressão e Consciência Corporal pela Dança do Ventre - Scortecci Editora, 1998.
PENNA, Lucy. Dance e Recrie o Mundo: A Força Criativa do Ventre - Summus Editorial - 1993.
ROTH, Gabrielle. Os Ritmos da Alma - O movimento como prática espiritual - Ed. Cultrix, 1997.
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