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Liberia Al Khadir



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"Dança: Mito e Rito"

 



“ Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os
Monstros
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás de suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...”
(Os Degraus - Mario Quintana)


Quando observamos as raízes ancestrais, o comportamento, o movimento enquanto expressão corporal de um ser humano ou de sua tribo - aqui compreendida como uma sociedade de referência para ele - percebemos que há muito mais motivações na proposta da dança do que aparentemente possamos conjecturar.

Pretendo demonstrar o quanto a dança se assemelha ao mito e ao rito partindo das seguintes premissas:

Mito - Narrativa de significação simbólica, geralmente ligada à cosmogonia, referentes a deuses encarnadores das forças da natureza e/ou de aspectos da condição humana.

Rito - Vivência significativa, contextualizada cuja preparação, antecede a apresentação de elementos simbólicos e a compreensão total ou parcial desses elementos, será possível apenas no decorrer de sua realização.


O mito caracteriza-se nas sociedades tribais como a comunicação que privilegia a oralidade. Traduz nesse canal uma lógica cognitiva diferenciada das sociedades não-tribais que privilegiam a escrita e a transmissão de conhecimentos pelo armazenamento em publicações e meios eletrônicos ou audiovisuais.

O que se esconde por trás do mito além da força e expressão das palavras, a tonicidade o qual são pronunciadas, a emoção com que o contador e até mesmo aquele que tenta transcrevê-lo são tomados? Esses relatos por vezes frustrados, são reconhecidamente pobres quando confrontados com a experiência real de vivenciar esse conteúdo, pois ele não pode ser incorporado ao código da linguagem abstrata, meramente descritiva.

Quando ouvimos o relato de uma experiência qualquer, nos preocupamos em saber a veracidade daquilo que ouvimos. Ocorre na tribo Kamayurá do Alto Xingu por exemplo, algo inédito para o ser civilizado: os relatos míticos assumem caráter verossímil, tanto quanto qualquer ato cotidiano como pescar, comer, plantar ou dançar.

Essa evidência fornece uma pista importante dentro da pesquisa ancestral e mais a frente, na compreensão da dança enquanto prática integrativa.

Tenhamos em mente a narrativa de um mito que por si é capaz de provocar a produção involuntária de imagens. À medida em que a visualidade é sugerida pelo detalhamento das informações, parte desse conteúdo será inevitavelmente associado a situações reais vivenciadas e memorizadas pelo receptor.

Enquanto dá-se a narrativa, o processo imaginativo elabora conexões entre o momento presente (o relato) e o momento passado (a memória). Logo o mito é apropriado pelo receptor e ganha uma interpretação única, sensível, resgatando por meio da memória as sensações outrora vividas. Haverá a sugestão de uma nova compreensão sobre suas vivências, ou simplesmente a afirmação das convicções anteriormente estabelecidas por ele e pela sociedade a qual pertence.

Obviamente o receptor não viveu a experiência relatada no mito, até mesmo porque muitos dos mitos utilizam elementos arquetípicos ou desfechos impossíveis de serem experimentados pelo corpo humano. E o objetivo dessa reflexão é justamente conhecer os meios de percepção desses elementos no corpo através da dança. Por outro lado, vejamos que houve uma intensiva movimentação psíquica e portanto, uma acomodação de conteúdos, significados e significantes para esse indivíduo. Houve também a interação entre os conteúdos transmitidos pelo narrador, sua interpretação e expressão e o feedback correspondente do receptor diante dessas informações. Posteriormente, haverão reflexos no comportamento direto, no modo de ver, interpretar e expressar diante do mundo, uma nova visão a cerca dos fatos.

As danças culturais, (folclóricas ou ritualísticas) diferentemente da dança clássica ou educativa, têm em comum com os mitos essa relação com o passado. Ambas necessitam de elementos ancestrais para serem incorporados pelos seres humanos, evocando nesse resgate as raízes que fazem do "homo" um "sapiens", mas que por outro lado, identificam esse "homo" com seus aspectos instintivos, fazendo com que ele se sinta pertencente ao todo da natureza.

Por esse motivo há uma grande diferença entre "representar" e "incorporar" em se tratando de dança. A bailarina ou bailarino que busque a realização de um trabalho corporal com autenticidade deve ater-se a essa grande diferença. Enquanto representar significa: "Ser a imagem ou a reprodução de algo" , "Desempenhar um papel" , "Dar ares, fingir-se"; incorporar significa: "Dar forma corpórea" , "Unir, juntar em um só corpo".

Não me refiro aqui ao fenômeno propagado pelo espiritismo que admite a incorporação de um espírito ao corpo de um vivente, sendo esse um tipo de médium. Chamo a atenção para o vivenciar de um elemento arquetípico na dança. E que fique clara a diferença entre representar esse arquétipo e vivê-lo como algo integrado ao corpo. A representação pressupõe a ficção, como se a dança fosse algo alheio à vontade e à essência do bailarino.

A significação da experiência, por outro lado, é um processo profundo, passando pelo reconhecimento de um elemento arquetípico como algo inerente ao bailarino ou bailarina. Sendo necessário estimular o contato com esse arquétipo através de um elemento externo: o mito, a imagem, o objeto, a vivência cinestésica.

Fazendo um paralelo com o mecanismo do sonho perceberemos que esses elementos psíquicos apresentados na forma de um determinado símbolo, trazem em si um significado impregnado de conexões ancestrais. É preciso incorporar esse símbolo, identificar as conexões descompactando esse "arquivo de memória" para compreender suas complexas relações com o presente.

Em tempos de virtualidade, a personificação desses arquétipos virou temática dos Roller Player Games (R.P.G.) onde através de um jogo, os participantes buscam experiências que não seriam possíveis dentro de plataformas sociais reais. A carência de mitos, de ritos de passagem e principalmente do fortalecimento psíquico a partir da vivência significativa, faz com que muitos desses participantes fiquem presos à ficção e em alguns alcancem um estado psicótico.

A dança cultural propõe o movimento do corpo, concentrando a atenção do indivíduo em si-mesmo. A consciência corporal mostra ao indivíduo que as pulsões que levam cada parte integrada ao corpo a dissociar-se, harmonizar-se ao ritmo da música, ou até mesmo, ao ritmo espontâneo sugerido pelo próprio interior, partem de uma inteligência que se diferencia do intelecto. Os 5 sentidos físicos são aguçados e os demais sentidos psíquicos são convidados a assumir fundamentalmente o controle do corpo. A relação espaço-tempo é modificada, pois passamos do tempo "cronos" (quantificação), para o tempo "kairós" (qualificação).

A dança autêntica torna-se uma vivência única e diferenciada. Essa experiência jamais se repetirá, pois os movimentos outrora realçados pela pulsão da vida, são exauridos de significado, reduzidos exclusivamente à coordenação motora.

Comparada nesse sentido ao rito, a dança busca a preparação, a contextualização, a significação de elementos ocultos que serão incorporados e revelados pela manifestação da inteireza do bailarino ou bailarina no momento da sua criação.

Continuaremos no próximo artigo.

Libéria Al Khadir


Referências Bibliográficas:

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. "Novo Dicionário da Língua Portuguesa" - Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro - pág. 937.
SAMAIN, Etienne. "Moroneta Kamayurá: Mitos e aspectos da realidade social dos índios Kamayurá (Alto Xingu) - Editora Lidador - Rio de Janeiro - 1991".


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