Eu venho de uma família muito especial. Minha história beira o fantástico. Ainda bem! Fui parida pelo coração de um casal que não podia ter filhos. Fui parida dentro de uma família de imigrantes espanhóis.
Dia desses, revirando as minhas memórias, dei-me conta de que a maioria dos familiares são mulheres. Meu pai até tentou montar um “regime de patriarcado“, mas logo se viu que isso não funcionaria por longo tempo. Não numa família repleta da presença feminina, numa família feita de mulheres muito fortes.
Mexe daqui, mexe dali... Lembrei de quando papai contava das orações que minha bisavó fazia nos dias de tempestade, de quando ela saía de casa e andava muitos quilômetros para ver o filho de alguma conhecida que estava doente ou ia dar um pitaco na construção na casa de algum vizinho. Construir casas, naquele tempo, era sinônimo de mutirão: homens construíam e mulheres auxiliavam na água e comida. Mas minha bisavó, além de tudo, “pitacava” no modelo de construção. Sabia fazer ungüentos, xaropes e os famosos “purgantes” com a dezena de ervas que plantava em seu jardim. O nome dela era Rosa. Espanhola de feição forte, séria, cabelos encaracolados e enrolados num coque bem característico de seu povo. Dela herdei a paixão por chuvas, trovões, tempestades e, recentemente, a tarefa de plantar ervas e rosas em sua homenagem!
Minha avó materna veio de alguma aldeia perto de Málaga. Mulher forte. Há quem diga que eu me pareça muitíssimo com ela tanto pelo “gênio forte” quanto pela aparência física. Estatura média, acima do peso, sempre com um xale nas costas, testa larga e grande, cabelos negros também enrolados num coque. Mulher de atitude, fazia da vida o que queria, estava a frente de seu tempo, pegava os filhos e saía em passeios sem querer saber se o marido ia gostar ou não. Ela pensava, ela fazia. Não abaixava a cabeça para a vida. Trabalhou duro, passou dificuldades para cuidar de quatro filhos. Dela herdei a aparência (incrível, isso!), o temperamento e o queixo erguido.
E minha mãe? Dona Helena é uma mulher doce e aparentemente passiva. Demorei 30 anos para entender que ela não é tão passiva quanto imaginei. Olhar doce, meigo, voz baixa, agradável. Faz o que tem que ser feito, não é de muitas palavras e, na surdina, leva as coisas para onde ela quer. Foi com ela que aprendi que o silêncio vale mais do que mil palavras. Foi com ela que aprendi a falar pouco, a observar muito e não ficar fazendo propaganda de mim mesma. Ela é uma mulher que sabe ficar invisível quando lhe convêm. Faz jus à máxima da magia: CALA-TE na hora certa. É uma cozinheira e costureira de mão cheia. Não podendo parir, desenvolveu um instinto maternal acima do normal, sendo a mãe mais leoa que conheço! Ela é mulher de laços invisíveis, sábia, conhece uma pessoa pelo olhar. Falar de minha mãe daria para escrever um livro. Ela me ensinou o que são os homens (sem os conceitos decadentes feministas, ela simplesmente os ignora), de qual parte do céu são feitos e como devemos conviver com eles. Aqueles toques femininos que vão muito além de um batom bem passado e um bom perfume no lugar certo.
Sendo uma mulher de quase nenhuma vaidade, ensinou-me o que é ser mulher na essência e não na casca. Mulher de fé: tem seus santinhos de devoção, seu altar para colocá-los, sempre estando em contato com o sagrado. É uma mulher calma e sábia. Aprendeu, não se sabe com quem, a benzer. Até hoje só a vi benzendo os da família. Disse que um dia vai me ensinar. Quando estamos com angústia, ela nos olha. Se percebe que é o “mal de ojo” diz: “vem cá que mamãe vai rezar para você.” Faz uns gestos, fala umas palavras incompreensíveis, faz uns sinais na nossa testa e de repente... tudo passou e ficamos revigorados! Ela luta pela sua prole e pelos agregados da família e todos sempre dizem que não há como não se apaixonar por ela. Dela herdei o carinho pela cozinha e pela fartura. Com ela aprendi a amar a família acima de tudo, que são os que vieram antes de nós e é para eles que vamos certamente deixar alguma coisa. O amor ancestral.
Está faltando a minha irmã. Intuitiva até o ultimo fio de cabelo. Libriana que crê esperançosamente no amor acima de tudo. Chega a ser irritante para uma balzaca capricorniana como eu! Nasceu para ser mulher! Mulher hoje e nas próximas 20 encarnações! Herdou um pouco da “benzeção” de mamãe e joga um tarô como nunca vi antes. É a conselheira, a que caminha entre os mundos, aquela que se disser que alguém vai engravidar ou casar, a gente já pode ir comprando as lembrancinhas. Eu e ela somos o oposto da mesma moeda, temos nossas rusgas, que são necessárias aos nossos temperamentos tão divergentes. Com ela aprendo todo dia o significado de bondade, honestidade, sinceridade, lealdade e amor. Muito amor.
E, assim, concluo que faço parte de uma Tradição Familiar, sem elaboração oculta e verdadeira, de legitimação interna e iniciações significativas. Sendo adotada, não tendo o sangue correndo nas veias, absorvi o espírito ancestral Ibérico, andaluz, gitano, quente, saboroso, ardido, forte. Absorvi, talvez, mais do que qualquer um que tenha o sangue familiar. Carrego em mim as Bulerias, as Allegrias e Soleás, o Cante Jondo, o lamento mediterrâneo. Carrego os defeitos, a língua solta, a intromissão, a boca suja, a passionalidade, o pé sujo de barro, a unha por fazer, o dedo furado na agulha que faz o remendo da calça. Olho para mim e vejo o traço de cada uma delas, sinto esse espírito feminino forte e familiar de uma maneira quase física dentro da minha casa.
Hoje é como se todas elas olhassem ao mesmo tempo para mim e se sentissem orgulhosas de tudo o que faço, de certo ou errado. Olho para mim no espelho: vejo esses meus olhos pequenos e cheios de vida, meu sorriso sincero, minha braveza, meu corpo cheio, minha boca pintada, a medalha de Nossa Senhora do Carmo que herdei de minha avó, o coque que uso há tanto tempo enrolando meus cabelos longos, o gosto por xales e lenços e o meu terrível descaso com a língua alheia... tudo herdado dessas mulheres fantásticas que começaram duramente um ensino mais antigo que o mundo.