O que é ser uma bruxa? Ora, vejo por aí muitos textos lindos de viver respondendo essa questão. Textos poéticos, por vezes textos de gosto duvidoso. Mas, falando francamente, o que é ser uma bruxa?
Ser uma bruxa é saber que não se nasce uma, ainda mais depois de séculos cristandade e repressão sexual! Ora, é ter de fazer as pazes consigo mesma e se permitir. Se permitir ser mulher, no sentido mais amplo da coisa: ser fêmea, ser selvagem e, por vezes, ser uma anarquista à frente de seu tempo; ou, quem sabe, de volta a um tempo em que não se precisava dar muita satisfação sobre atos. Quem sabe?
Transformar. Bonita palavra, certo? Nos leva à beira de caldeirões fumegantes, de poções - de amor ou prosperidade -, à alquimia. Mas a grande e divina transformação começa aqui dentro do peito e da cabeça.
É difícil? Lógico que é! Ninguém quer sair da zona de conforto, e mudar assim da noite para o dia não é viável. Porém, de nada adianta termos todo o material "bruxístico", todo um arsenal de apetrechos necessários para a vida prática de uma bruxa, senão conseguirmos atingir a grande mudança em nós mesmos.
Meu objetivo aqui nesta coluna é escrever para pessoas como eu, que estão no inicio do caminho. Início não se mede por tempo de estudo. Nós, somente nós, sabemos quando vamos partir para outro degrau de aprendizado, então eu me considero uma iniciante. Logo, posso contar aqui como são as coisas para mim, como eu tento conseguir chegar nesse momento de transformação.
Já deu pra perceber que é um processo, certo? E, como um processo, preciso me perguntar se eu quero isso. É uma questão que demorou muito para ser respondida porque, verbalmente, eu queria, mas intimamente... naquele íntimo que não contamos para ninguém, eu tinha muito receio. Muita porrada veio, muita dúvida e um bom tempo de inércia. Poderia ter largado tudo e dito: "Ah essa religião não me leva a nada", jogado meus poucos livros fora, vendido meu caldeirão e tocado a vida pra frente. Aliás, já repararam como muita gente, que é o maior devoto dos deuses, joga tudo fora de um dia para o outro?
O caminho vai além das facilidades que as livrarias e lojas esotéricas podem nos oferecer. Temos que nos olhar de dentro e ver que somos feitos de coisas boas e coisas meio tortas, mas que são nossas e fazem parte do nosso todo.
Os textos que definem o que é ser uma bruxa são lindos, mas na maioria das vezes, só falam aquilo que queremos ouvir, que somos leves como fadas, que somos filhos do vento, fluidos como a água, etc. Não!! Eu também sou ventania e raios em noite de tempestade! E muitas vezes isso não tem absolutamente nada de poético! Vou negar isso em mim? Por que? Isso, as "definições bacaninhas" não nos mostram. Talvez, por ainda haver um resistência de se encarar a sombra - ou também, simplesmente, os defeitos (lembrando que sombra não é, necessariamente, defeito). Talvez, por ainda existir uma idéia de certo e errado, ranço da boa e velha dicotomia cristã. Talvez, por ainda se olhar para o paganismo com um ar bucólico renascentista. Na verdade eu, não sei o que é.
O que posso dizer é que ser bruxa é se enfrentar e vencer, é ser amiga de si mesma e se aceitar como um todo muitas vezes desconexo. É procurar nesse todo desconexo uma conexão com o que nos é sagrado, o que é divino dentro de nós para poder comungar com o que é divino fora de nós. Porque o que está em cima, também está aqui em baixo, concordam?
Publicado em 02.03.2008