Os meus livros sobre Wicca, que chegaram até mim no comecinho do meu caminho, me olham da estante. Parece que falam “você não abre mais a gente, não nos consulta mais”. Pois é, meus queridos ex-parceiros, nem olho mais para vocês. Sabe o que é? O que está escrito aí não me serve mais.
Hoje, ao lado desses autores conhecidos, a prateleira reservada para mim nas estantes de casa tem historiadores falando de bruxaria medieval e inquisição na Península Ibérica, antropólogos analisando a formação de uma cultura neopagã nos Estados Unidos, sacerdotisas escrevendo sobre o culto atual a deuses greco-romanos, mitólogos dando visões dos deuses que eu não tinha e que eu estou incorporando e adorando ter na minha vida. E a minha mais cara e recente aquisição: um estudo confiável sobre os Mistérios e Eleusis e os cultos secretos à Deméter, Perséfone e Dionísio.
Não estou criticando os wiccanos, ou quem busca por esse caminho. Pelo contrário. Acho que cada um tem o direito de cultuar o que bem entende, naquilo em que se sente mais confortável. Não importa, desde que seja feito com o coração. Se está funcionando, se traz paz de espírito, harmonia, prosperidade, saúde e um vida boa, é sinal de que é o caminho.
Mas o que se encontra em alguns volumes não se encaixa mais na minha prática, nem na minha visão de divindade, mito, magia, paganismo... E isso é ótimo! É uma forma de provar, para mim mesma, que nesses quase sete anos em que eu efetivamente busco o Neopaganismo, consegui expandir meus horizontes para coisas que dizem muito mais a minha alma e ao meu coração.
Mais do que um ato consciente de deixar para lá, é um processo natural, um caminho que muita gente segue. Por um tempo, ficaram, em mim, as dúvidas: “Será que eu estou certa em deixar isso de lado? O que vão dizer quando souberem que eu mudei? O que vão dizer quando souberem pelo que eu passei antes de mudar?”.
Hoje eu penso: que se dane!
Tem gente que entra na faculdade querendo ser uma coisa e termina sendo outra. Eu vi isso acontecer com os meus colegas e até mesmo comigo. No curso da nossa vida acadêmica, nos deparamos com novas possibilidades dentro do campo que escolhemos e fomos correndo para elas. Comigo, no Neopaganismo, foi mais ou menos assim.
Meu estudo da Wicca me levou a muitas possibilidades novas que, por sua vez, me levaram a conhecimentos e estudos ainda mais interessantes. Chegou um momento em que me explicaram uma série de coisas que eu não entendia naqueles primeiros anos, e que ao mesmo tempo abriram novas dúvidas e novos questionamentos que eu queria responder.
De grão em grão eu acabei chegando ao culto dos deuses do meu coração. Hoje, ainda de grão em grão, eu vou me aprimorando nesse culto e sentindo esses deuses cada vez mais próximos e brilhantes na minha vida. Não é um processo rápido nem simples. Mas é bonito de viver.
No fundo, o que eu quero dizer com tudo isso é: cada um tem seu caminho, e vai chegar uma hora que algumas coisas do que você viu e viveu devem ser deixadas para trás. É parte da vida, é parte da jornada. Há momentos em que chegamos em uma encruzilhada e precisamos decidir para que lado ir. Isso acontece com tudo na vida e é parte do nosso amadurecimento. Pelo menos, é isso que eu sinto.
Hoje, por exemplo, eu não celebro mais Roda do Ano e me abstenho das discussões de “girar pelo sul” ou “girar pelo norte”. Eu não chamo mais punhal de Athame, eu não leio mais livros esotéricos, eu não creio mais que toda bruxa tem que usar preto e nem que o pentagrama é um sinal comum entre todos que seguem a mesma coisa que eu.
Eu celebro meus deuses de acordo com o passar do ano, estou em busca de uma bonita faca de caça, leio antropólogos e mitólogos que falam sobre religião grega, uso azul e vermelho e carrego uma amazonita e uma imitação de dente em ágata cinza.
As coisas mudam, a caravana passa. A natureza tem seus ciclos, e é disso que eu vivo hoje, sentindo dentro de mim o momento do plantio e o momento da colheita. Se para chegar até aqui eu tive que abandonar algumas coisas que eu achei que não serviam mais, foi para diminuir o peso e deixar o carro mais leve para transportar a próxima safra de idéias e conhecimentos.
Sei que outras pessoas passam por isso também. Fica aqui a palavra de alguém um pouco mais escolada nisso: vão em frente e confiem nos deuses! Eles sempre têm a melhor solução para as nossas vidas, mesmo que a gente se esqueça disso de vez em quando...
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