
Ares, Ogum e eu
Ogum sempre foi meu pai. No tempo em que freqüentava o templo de Umbanda com meus pais, meu deus era Ogum. Senhor do aço e da guerra, deus de força e de proteção. Na Umbanda, assim como no Canbomblé e em algumas vertentes neopagãs, cada pessoas têm os deuses - orixás, no caso das religiões afro - que a guiam e a protegem, que determinam sua personalidade e a forma como ela encara algumas coisas na vida. Ou seja: são as energias que regem a vida de cada um de nós.
A principal divindade em mim, segundo a mitologia afro-brasileira, é Iemanjá, deusa do mar, da fertilidade, da maternidade. A segunda é Ogum. Ninguém nunca me disse isso, mas eu sabia. Minhas oferendas eram sempre para os dois. Minhas festas preferidas também eram as deles. Há oito anos, tive a confirmação de que ela era a minha mãe. Mas meu pai, ninguém nunca confirmou. Não precisava.
Só que a vida dá voltas e algumas coisas mudaram de lá para cá. Faz uns sete anos que deixei os trabalhos no terreiro. Uma junção de muitas coisas contribuiu para isso e a principal delas foi o avanço dos meus estudos no neo-paganismo. O que eu vivia lá não batia com o que eu vivia no resto. Alguns conceitos e algumas práticas cristãs do templo que eu freqüentava se chocavam ao que eu estava aprendendo e começando a vivenciar. Fiz uma opção pelo que achei que era melhor para mim.
Anos depois, quando a Umbanda era parte do passado, comecei a desbravar novos paganismos. O começo dos meus estudos foi, como a maioria, baseado na Wicca. Porém, tudo foi tomando um rumo diferente e eu fui parar no meio do Mediterrâneo, entre as culturas e mitologias da Grécia, de Creta e de Roma. Lá, achei meus deuses e meu eixo. E achei uma divindade que esteve, por muito tempo, debaixo do meu nariz, e que eu não havia percebido: Ares.
O correspondente ao romano Marte, é um deus de guerra e de proteção, de força, de aço, de fúria e de companheirismo. Muito, mas muito parecido mesmo com o Ogum afro-brasileiro. Ambos têm símbolos, cores e atributos parecidos. São identificados com São Jorge e representam energias muito parecidas, mas vem de povos e ancestralidades diferentes. Encontrei meu Ares, mas ele já havia me encontrado há muito tempo, lá atrás, como Ogum.
Usando outra roupa e outro rosto, o Deus da Guerra estava lá e me dizia que eu devia cultuá-lo porque ele era parte de mim. Não era a principal nem a primeira, porque eu tenho uma deusa de fertilidade e maternidade que é, realmente, a minha deusa. Mas ele está lá me protegendo e sorrindo, dizendo que eu devo confiar em mim mesma e que posso ser melhor do que aqueles que me incomodam. Ele me abraça e eu ouço sua espada bater no escudo, vejo seu capacete prateado e entendo o que é a proteção de Ares, e como ela é tão familiar e tão bonita.
Essa minha experiência com diferentes panteões, de ancestralidades diferentes, me faz pensar em muitas coisas. A principal delas, a de que nunca devemos jogar fora o que já aprendemos. Minha mãe costuma dizer que "saber não ocupa espaço", e é a mais pura verdade. Aprendi muito naquele tempo, sobre deuses, espíritos, guias, comidas, velas, cores, desenhos no chão e música. Tudo isso, hoje, é parte importante do meu "mundinho mágico". Eu uso esses conhecimentos numa nova jornada de aprendizado, e é bem mais fácil quando eu me lembro de toda a bagagem que acumulei. Tudo se encaixa melhor e se explica melhor.
Não freqüento mais o terreiro, mas o que eu aprendi lá me ajuda muito. Faz com que eu não estranhe algumas coisas, entenda outras e abra a minha mente para um monte de novas vivências e experiências. Ogum se mostra em Ares, Ares se mostra em Ogum. E assim eu posso honrar o Deus da Vida da forma como eu me sentir mais confortável, aquela que se encaixa melhor em quem eu sou e de onde eu vim.
Ogum-nhê!
Ave Marte!
Inês Raven - 03/2008
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