
Melissa correu Passou pelas plantações de papoulas que contornavam o templo. Mas não correu por prazer: seus olhos mostraram o terror, seu corpo suado, sua túnica grudada ao corpo. Perdeu as sandálias pelo caminho, seus cabelos se despentearam e a pele ardeu sob os raios de Hélios.
Mesmo assim, não parou. Não pôde parar. As outras correram em seu encalço, com tochas e foices, berrando seu nome. Elas queriam algo proibido, algo que a Deusa disse que não poderia dar - que apenas Melissa recebeu.
A moça não questionou as razões de Deméter quando Ela ordenou que não contasse às outras mulheres os segredos que havia aprendido dentro do templo. Ela sabia que os Deuses têm seus motivos e que os revelam a nós quando chega a hora certa. E se insistimos em saber, eles entendem como um sinal para guardá-los ainda mais.
Mas as outras mulheres não sabiam - nem queria saber - disso. Elas achavam que a intenção de Melissa era ser especial. Em sua inveja, pensaram que a sacerdotisa esta se fazendo de grande conhecedora, escondendo de propósito algo que elas não sabiam. Não entenderam os motivos da jovem. Muito menos os motivos da Deusa.
E enquanto correu, desesperada, pelos campos cultivados em torno do templo de Deméter, percebeu porque ela, entre tantas, tinha sido a escolhida para carregar aqueles segredos: as outras fariam com eles exatamente o que julgaram que Melissa fizera. Usariam aquilo para parecerem melhores, para se tornarem seres especiais na comunidade. Elas não entenderam o que significava dedicar à vida aos segredos da Deusa do Trigo.
Enquanto correu, Melissa pensou nos desígnios divinos passaram e na vida que tentava salvar. Por sua distração, ela não enxergou a vala feita por um dos lavradores, que receberia os grãos da Deusa-Mãe. Caiu e, sem forças suficientes para levantar, foi alcançada pelas mulheres enfurecidas. Só teve tempo de pedir a proteção e a vingança da Deusa antes que uma foice fosse enfiada em seu peito e seu corpo, esquartejado, jogado na terra que deveria ter recebido a semente do trigo.
Deméter observou tudo, já que Ela anda entre os humanos e sabe o que eles fazem. Viu a sua foice, seu instrumento sagrado, ser transformada em arma e usada de forma injusta. Enfureceu-se. Seu olhar queimou, suas bochechas arderam em duas manchas vermelhas. Sem que pudessem vê-La, foi até aquelas mulheres e, num grito mudo que fez o trigo sacudir e as papoulas perderem as pétalas, evocou uma horda de abelhas.
Os animais destruíram as plantações, picaram as pessoas. A peste, que até então vinha pelas mãos de Apollo, se fez sentir pela fúria de Deméter. Mais uma vez, Ela era Erínia, era a fúria da vingança.
Mas mesmo na maldição, Deméter deu uma bênção: onde os pedaços do corpo da jovem sacerdotisa caíram na terra, nasceu uma erva capaz de acalmar os que tomam seu suco. Deu o nome de sua sacerdotisa à planta: Melissa. E permitiu que os lavradores, seus devotos, pudessem tomá-la, mas não cultivá-la. Ela cresce desordenada nos campos, atraindo as abelhas para suas flores lilás.
Bibliografia:
Vários Autores. Dicionário de Mitologia Greco-Romana. 1 ed. São Paulo: Editora Abril, 1973.
Crédito da Imagem:
"Queen Bee", de Loserbabooser.
Retirado do site Deviant Art
(http://loserbabooser.deviantart.com/art/Queen-Bee-14204185).
Publicado em 10.02.2008
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