No meio das muitas roupas que bruxaria veste na Itália, sempre vamos encontrar uma que chama mais a atenção e que pode, mesmo de longe, nos ajudar a complementar e entender melhor nossa própria prática mágica.
Uma dessas roupagens é a Benedicaria, ou Arte de Benzer. É uma maneira muito simples de fazer magia, usando coisas da cozinha (como alho e azeite), junto com o nome de santos e orações católicas. Ela vem da Sicília, aquela ilha que fica na ponta da bota, e tem pequenas mandigas para curar, tirar o mallochio (olho gordo) e um monte de outras coisinhas que aprendemos serem feitas por aquelas mulheres que o pessoal gosta de chamar de bruxas. Streghe, no nosso contexto.
Para os praticantes dessa arte de benzer, ela não é uma tradição da stregoneria. Na Itália, o termo bruxaria é usado, quase sempre, em contexto negativo. Se você chamar uma velhinha siciliana que benze em nome de São Miguel Arcanjo de strega, ela provavelmente vai te enxotar da casa dela.
Segundo o reverendo Agostino Taumaturgo, que tem alguns textos sobre essa tradição publicados na Iternet, é uma prática aprovada pela Igreja Católica e que não tem nada há ver com a bruxaria e muito menos com a stregheria de Raven Grimassi.
Opiniões e nomenclaturas à parte, ela pode ser uma boa maneira de ver a forma como a magia é praticada independente do contexto religioso. Além disso, algumas das práticas desse pessoal podem ter elementos bem interessantes e similares com o que é praticado por aqui.
Dentre as várias coisas que a Benedicaria traz, uma bem curiosa é a Lingua delle Candelle, a Linguagem das Velas. É uma maneira de saber se o seu pedido foi ouvido pela divindade interpretando a forma como a vela queima. Como a Benedicaria trabalha dentro de um contexto cristão, as divindades, no caso, são os anjos pessoais e os santos de devoção de cada um.
Segundo o escritor Vitto Quattrocchi*, um norte-americano descendente de italianos, que aprendeu a Benedicaria com sua avó, é preciso prestar atenção na maneira que a vela queima e na sobra da vela.
Nas palavras de Quattrochi, "quando a chama da vela exala uma fumaça preta, é sinal de que há uma influência negativa sobre você ou sobre o seu pedido. Se a fumaça é branca, significa que não há nada bloqueando a realização de seu desejo. Se o seu pedido é sincero e visa trazer glória a Deus ou uma melhoria para sua vida, Deus lhe atenderá rapidamente." Lembrando, mais uma vez, que este é mais um dos momentos em que a bruxaria se solta do neopaganismo e percorre os caminhos do misticismo cristão.
Ainda prestando atenção na forma como a vela queima, pode-se dizer que, se a chama estiver alta e forte, há muito poder e muita energia envolvida. Além disso, é um ótimo agouro, um sinal de que seu santo ou seu anjo protetor está lutando por você.
Agora, se a chama estiver fraca, pode significar que sua "prece não vai funcionar. Exemplo: pedidos de vingança ou mal para outras pessoas. Nesses casos, a chama provavelmente irá se extinguir sozinha". Ou ainda, pode ser que haja uma "oposição espiritual ao seu desejo. Você talvez deva trabalhar um pouco mais para que seu pedido seja atendido".
Pode ser que a vela faça sons ou estale. Isso pode significar que seu santo protetor está intercedendo por você perante Deus. Quanto mais alto o som, maior é a oposição contra você e mais seu santo está lutando.
Por fim, resta observar o que aconteceu com o recipiente em que a vela estava. "Se o vidro ou recipiente em que a vela estiver quebrar ou rachar de qualquer forma", explica Quattrocchi, "pode ser um sinal de que há algum tipo de intenção ou energia ruim contra você (mallochio)".
Os escritos de Quattrocchi lembram coisas que ouvimos por aí sobre velas: se chorar muito, é porque está consumindo muita energia ruim; se a chama estiver alta, é porque o pedido que está naquela vela foi ouvido. Você nunca ouviu alguém, numa igreja ou num cemitério, comentar sobre como queimam as velas no altar daquele santo, ou no túmulo daquele fulano? É quase a mesma coisa.
A magia muda de mãos, muda de cara, muda de nome e muda de divindade, mas a essência está sempre lá, naqueles elementos que todo mundo usa: a chama da vela, a folha da arruda, o copo d'água, a gota de azeite...
Com a bênção de São Miguel,
Inês Raven
Mais sobre Benedicaria no Rue's Kitchen (http://www.rueskitchen), no Stregoneria Italiana (http://www.stregoneriaitaliana.com) e no Italian Benedicaria (http://www.benedicaria.8m.com).
* As referência ao trabalho de Vitto Quattrocchi e Agostino Taumaturgo foram retiradas do site Italian Benedicaria (http://benedicaria.8m.com/). As citações de Quattrocchi são traduções livres feitas por mim, baseado em material retirado desse site.
Publicado em 12.12.2007
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