O telefone tocou. Era Erasmo, o meu compadre. Estava muito aflito. Era final de 2001, começo de 2002. As corujas que citei em minha vida, no outro texto, tinham acontecido em 1995.
Erasmo disse:
- Hermínio, Nicole está muito doente!
Nicole é minha afilhada. Na época, ela tinha 9 anos de idade. Ela tem uma irmã gêmea...idêntica, que estava saudável.
Erasmo continuava ao telefone:
- Eu e a Clea (mãe delas), estamos desesperados! Os médicos não descobrem o que a Nicole tem!
Eu perguntei da irmã gêmea:
- E a Rafaela?
- Está bem.
Aquilo tudo me calou profundamente. Fui ao oráculo, já que os médicos não sabiam diagnosticar o que a menina tinha. A Rafaela também é minha afilhada. Uma só com uma febre que ninguém descobria. Sintoma de tudo: de hepatite, até de câncer...todo mundo arrisca o que não sabe.
Minha avó materna, matriarca da tribo disse: "Essa menina precisa ser iniciada". Eu disse: "Vó, ela é uma criança!!!!!". E minha avó: "Põe ela no templo. O problema dela é Divindade".
Eu confuso fui ao oráculo. Disse as minhas palavras aos Deuses, clamei por todos e joguei...
HÉCATE! Respondeu sem nenhuma dúvida.
Pensei no pai José do candomblé que tentou me matar por feitiço; em tudo o que eu passei ao longo desses anos todos; pensei na infabilidade dessa Deus Trívia, que embora me mostrasse coisas terríveis, ainda insistia em estar comigo; pensei no perigo que essa menina corria, já que a minha experiência mostrava tudo o que eu tinha passado com a morte por perto
Resolvi esperar. Mandei os pais irem a mais médicos. Queria um diagnóstico que me levasse a impossibilidade da medicina tradicional para que eu pusesse a mão. Medo? Claro! Eu não sou besta!
Foram 5 mêses assim. A menina arrastava o chinelo feito velha, resmungava, tinha a cor de cêra como morta. A sua irmã gêmea, corada e saudável. Durante esse tempo, eu dormi apenas, 2 horas por dia. Eu cuidava da minha afilhada. Dava banhos, chás, fazia o que eu sabia...e minha avó: "Põe essa menina no templo, inicia ela em Hécate"
Tomei a decisão! Chamei a tribo de plantão e eis que surge um filho de Dioníso Zagreu que diante da menina doente e pálida de morte, catou um bicho de baixo de um banco no meu terraço (e esse bicho, era um bicho de Hécate), e pôs no peito da menina enferma. A menina gritou, mas não era um grito de dor. Era um grito de ave agourenta, noturna. Depois, veio uma gargalhada de velha bruxa...um gemido de moça e um gingar de mulher que a menina ainda não tinha por não ter nunca conhecido, fisicamente, os mistérios da lua.
A febre passou na hora. Hécate tomou a Nicole totalmente. Naquela mesma noite, recolhi a minha menina no templo. Se fez uma filha de Hécate.
Nunca mais Nicole teve nada.
Isso aconteceu numa determinada data de abril. Em junho, o Sidão fez aniversário e um amigo de candomblé diz: "Sabe quem morreu?" E nós: "Quem?"
- Pai José!
- Quando?- Perguntei perplexo, o destino do meu inimigo oculto.
O amigo disse. No mesmo dia em que eu iniciei a Nicole.
A Deusa tem seus mistérios.
Nicole hoje, é uma moça linda e a Rafaela, sua irmã, foi feita em Afrodite.
Construí um templo para Hécate em minha casa. Foi Zagreu que a trouxe aqui.
Pois qual não é minha surpresa, que quando, esse ano, outro filho de Zagreu bate à minha porta e é Hécate (em Nicole), que me mostra o caminho. Que me devolve Zagreu em outro nível?
Ave Hécate! A Senhora me abençoôu com seu triuvirato!
Nicole, já é sacerdotisa de Hécate e o templo da mesma, é a coisa mais forte e linda que vcs possam imaginar!
FIM
A arte da ilustração é de Cézar Drake
Publicado em 12.12.2007
|