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Gwydyon Drake
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*Há mais mistérios entre o Céu e a Terra ...

 

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Más há também quem garanta que nem todas, só as de verão.
No fundo, isso não tem importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares,
em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado."
(William Shakespeare)

Por mais que busquemos, nunca conheceremos todos os seres e entidades que habitam o invisível.

Por milhares de anos nós humanos pudemos enxergar muito do que nossos olhos podiam ver. Olhávamos para o mundo misterioso dos deuses e percebíamos suas manifestações além da visão racional. Ainda hoje, quando crianças, ainda podemos penetrar nestas névoas que tudo envolvem, mas os pais, professores e outros que não enxergam além da realidade nos desestimulam a desenvolver este nosso sexto sentido e, à medida que crescemos, vamos nos separamos do etéreo e nos apegando ao material. Queremos apenas ver o que todos podem ver, tocar o que todos tocam e sentir o que todos sentem.

Nas culturas ditas primitivas, o crescimento acontecia de maneira diferente. Nunca abandonávamos ou matávamos este nosso lado espiritual, apenas compreendíamos que para viver no mundo material devíamos nos apegar nas coisas materiais. Porém como o universo não era todo material, conservávamos esta parte imaterial ao nosso lado, mantendo-a viva e ativa para que fosse possível acessá-la sempre que necessário, para manter contato com o mundo etéreo.

Esta parte era vista como uma entidade semi-independente de nós e era conhecida em muitas culturas ancestrais por diversos nomes, mas que no fundo tinham sempre a mesma função, nos proteger e nos manter em contato com o mundo dos deuses e do invisível. E é através destas entidades que atingimos os deuses e podemos enxergar o mundo invisível através de seus olhos e viajar com eles pelo universo imaterial.

Os antigos acreditavam que esta nossa parte era gerada conosco e nos acompanhava por toda vida. Nas diversas culturas que o cultuavam foram chamados de Animais de Poder, Daimons, Genius, Exus pessoais e porque não, Anjos da Guarda.

Independente da cultura e do nome que era dado a ele, o Genius ou Daimon tinha a mesma origem e as mesmas atribuições em praticamente todas estas culturas, sendo a principal delas fazer a ligação entre o homem e a divindade, pois como já diziam os romanos “O gênio é filho dos deuses e pai dos homens: estes nascem deles. Por isto mesmo é denominado Meu Gênio, porque me gerou”. O gênio é a partícula divina que, no momento da concepção, inicia a formação do nosso espírito e cresce com a nossa placenta e é libertado para a luz no momento do nosso nascimento. Vindo a luz no mesmo momento que nós, sua principal função é nos proteger e auxiliar quando precisamos. É também a personificação do nosso ser e aquele que nos apóia todo o tempo para que vivamos uma vida plena. É o propulsor de nosso otimismo.

Assim como falei do Veneratio na coluna “As muitas faces de Vênus” publicada aqui mesmo que é nossa entrega total à divindade, reconhecer o próprio gênio, alimentá-lo e mantê-lo ao nosso lado é fundamental para uma vida pagã ou mágica.

O papel religioso dos Genius era o de afastar todas as interferências do mundo do invisível, para que seu protegido tivesse acesso livre para o encontro real com seus deuses e antepassados que viviam no mundo etéreo.

Neste mundo dos invisíveis habitavam, além de coisas piores, seres como:

Lêmures - espíritos de mortos que não receberam a moeda para Caronte e não tiveram cultos de seus descendentes.

Manes – Ancestrais divinizados, conhecidos como Deuses Benevolentes e protetores. Porém nem sempre era este o seu papel, já que muitas vezes se sentiam no direito de interferir na vida de seus descendentes ou mesmo atacar seus inimigos durante a vida ou inimigos de sua estirpe. Virgilio relata na Eneida quando o herói retorna da mansão dos mortos e escuta o rosnar hostil dos manes insatisfeitos. Existe ressentimento de muitos mortos que por terem perdido a vida, voltam para sentir a vida de perto novamente. E nestas ocasiões mostram sua imensa insatisfação, atormentando os vivos.

Larvas – Espíritos de criminosos ou de pessoas que tiveram um fim trágico e por seus corpos ficarem abandonados ao pasto dos pássaros e feras, não atravessaram o Aqueronte. E vagam desmemoriadas pelas estradas em busca de vingança ou alimento, pois com a não travessia do rio, perderam suas memórias. Causavam perturbações e doenças mentais.

Vamos ficar com estes por hora, mas no mundo do invisível existiam seres até mais perigosos que estes relacionados acima, como as Strix, linfas e muitos outros, mas estes que relacionei são terríveis, pois, não se mostram claramente, nem tampouco manifestam suas intenções malévolas à primeira vista. Buscam se sentir vivos e sentem falta do convívio humano, portanto geralmente estes se disfarçam de Ancestrais, bons Manes e até mesmo de Deuses para se aproximarem dos mortais e nos levam a enganos e erros de culto.

Os antigos sabiam muito bem disso e davam extrema importância para os seus Genius, pois eram os Genius que garantiam que suas oferendas chegassem aos destinatários. Eram os olhos do gênio que viam as entidades que apareciam nos sacrifícios e rituais, e impediam que um destes espíritos atormentados as recebesse.

O gênio buscava para o seu protegido o bem estar e os prazeres, tanto que existia uma expressão: “Indulgere gênio” ou ser complacente com seu gênio, que nos dizia que é importante levar uma despreocupada e alegre, aceitando os prazeres da vida como nos conta Pérsio:

“ seja indulgente com seu gênio, desfrute os prazeres; a vida que usufruis é seu único bem: tu se converterá em cinzas, manes (antepassado), objeto de conversas. Vive pensando na morte: as horas (meses) passam, e o que estou dizendo já é coisa do passado.

Os Genius eram tão importantes para os romanos que estes até juravam em nome deles, como acredito que os gregos faziam com seus daimons.

A crença nos Genius era tanta que os Deuses, cidades e até mesmo os templos e grandes construções como o Coliseu também tinham seu espírito protetor, para guardar os locais de interferências do mundo invisível.

Infelizmente pouco lemos ou sabemos sobre os daimons e Genius, por isto é que devemos nos aprofundar mais um pouco no assunto, pois sem eles, os nossos olhos para o invisível, ficamos totalmente desprotegidos para muitos destes seres que podem nos enganar se passando por deuses e outras entidades sobrenaturais, além de roubar nossa força vital. São os nossos Genius que afastam de nós os habitantes deste mundo que não vemos.

Figura 1 O altar dos Lares é o mesmo que para os Genius, nele estão representados Lara, a ninfa faladeira que perdeu a língua por causa de uma fofoca que fez de Júpiter e os dois filhos dela, os Lares e de Hermes que nasceram no Hades e a Serpente representa a Alma dos imortais e os Genius.



Figura 2 –
Um vaso que era usado para assentamento do Genius pessoal, geralmente era usada a figura do humano que compartilhava sua vida com o genius.



TEXTO PUBLICADO EM 25/04/2009

 

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